A profecia do Antigo Testamento frequentemente antecipa a restauração espiritual e moral do povo de Deus por meio de metáforas ligadas à água e à purificação. No auge das revelações escatológicas do profeta Zacarias, surge a promessa: “Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza” (Zacarias 13.1). Para o Pentecostalismo Clássico (movimento teológico caracterizado pela centralidade da Palavra, pela atualidade dos dons espirituais e pela busca fervorosa pela santidade), esta passagem não se restringe a um horizonte histórico ou puramente nacionalista judaico. Ela aponta diretamente para a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
O capítulo 13 de Zacarias sucede uma profunda manifestação
de arrependimento nacional descrita no capítulo 12, onde o povo olha para
aquele a quem traspassaram (Zacarias 12.10). A “fonte aberta” surge imediatamente
após o quebrantamento. Na cerimônia do Antigo Testamento, os rituais de
purificação utilizavam a água misturada com cinzas para purificar a impureza
cerimonial (Números 19). Contudo, a promessa de Zacarias aponta para uma
provisão permanente e eficaz. O Pentecostalismo Clássico adota uma hermenêutica
cristocêntrica e salvífica para este texto. A expressão “naquele dia” inaugura
a era messiânica, consolidada na crucificação e na ressurreição de Jesus. O
cumprimento pleno dessa promessa se deu no Gólgota, onde o lado de Cristo foi
traspassado, vertendo sangue e água (João 19.34). O sangue garante a
propiciação e a justificação jurídica do pecador; a água simboliza a lavagem
regeneradora e a ação purificadora da Palavra e do Espírito (Efésios 5.26; Tito
3.5). A fonte, portanto, não está mais selada ou restrita aos ritos levíticos.
Ela permanece permanentemente aberta, indicando a acessibilidade irrestrita e
suficiência eterna do sacrifício de Cristo para remover o pecado original e as
impurezas cotidianas.
Embora o texto bíblico mencione textualmente “a casa de
Davi” e os “habitantes de Jerusalém”, a teologia pentecostal clássica,
profundamente enraizada no mandato missionário, compreende que os benefícios da
cruz foram estendidos aos gentios. A barreira da separação foi desfeita na carne
de Cristo (Efésios 2.14). A expressão “purificação dos povos” reflete o caráter
global da expiação. Jesus não morreu apenas para redimir uma etnia, mas para
comprar com o Seu sangue homens de “toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse
5.9). A centralidade da mensagem do Calvário no Pentecostalismo defende que a graça
purificadora é universalmente oferecida (expiação ilimitada no que tange à
oferta, embora eficaz apenas nos que creem). Dessa forma, a abertura da fonte
democratiza o acesso à presença de Deus. Qualquer indivíduo, independentemente
de sua origem geográfica, cultural ou moral, ao aproximar-se da fonte por meio
do arrependimento e da fé, experimenta o mesmo poder transformador e
regenerador.
O Pentecostalismo Clássico se distingue por sua forte ênfase
na doutrina da santificação. Pioneiros do movimento, influenciados pelas raízes
do Movimento de Santidade, compreendiam que a salvação envolve tanto a crise
inicial da conversão quanto o processo contínuo de separação do mundo e
consagração a Deus. Na perspectiva pentecostal, a purificação pela fonte
apresenta uma tripla dimensão temporal e teológica:
1) A purificação posicional (justificação): Ocorre no
momento da conversão. O pecador é lavado no sangue do Cordeiro, justificado perante
o Pai e liberto da culpa e da condenação do pecado.
2) A purificação progressiva (santificação diária): O
crente recorre à fonte aberta diariamente. Como expressa o teólogo pentecostal
Myer Pearlman, a santificação é um trabalho progressivo que continua por toda a
vida do crente. O sangue de Jesus continua nos purificando de todo pecado (1 João
1.7), enquanto o Espírito Santo molda o caráter do discípulo à imagem de
Cristo.
3) A purificação escatológica (glorificação): É a
consumação final da pureza da Igreja, quando ela se apresentará sem mácula,
ruga ou coisa semelhante (Efésios 5.27), por ocasião da Segunda Vinda de
Cristo.
É necessário sublinhar que, para o pentecostal, a água da
purificação liga-se diretamente à obra do Espírito Santo. Não há batismo no
Espírito ou manifestação autêntica dos dons espirituais sem que haja primeiro a
purificação pelo sangue. A habitação do Espírito exige um vaso limpo; logo, a
fonte aberta em Zacarias é o pré-requisito indispensável para o derramar
pentecostal sobre os povos.
Para o movimento pentecostal clássico, a experiência com a
fonte de purificação nunca termina no indivíduo. Há um imperativo missiológico
intrínseco: quem foi purificado pela fonte torna-se um canal por onde fluem
rios de água viva (João 7.38,39). A consciência de que a fonte está aberta para
todos os povos impulsionou o maior avanço missionário da história da igreja moderna.
Os primeiros pentecostais saíram pelos continentes convictos de que a mensagem
do Cristo que salva, purifica, batiza no Espírito e cura está disponível a toda
a humanidade. A purificação dos povos gera a urgência da proclamação. A Igreja purificada
assume a responsabilidade de anunciar às nações que a fonte de Zacarias 13.1
continua jorrando com a mesma eficácia e poder purificador.
A leitura de Zacarias 13.1 por uma perspectiva messiânica
reafirma a suficiência e a centralidade de Jesus Cristo na soteriologia cristã.
Cristo é a fonte aberta definitiva. NEle, a promessa de remoção do pecado e da
impureza deixa de ser um ritual temporário e torna-se uma realidade espiritual
permanente, acessível a todas as nações da Terra. Diante do cenário
contemporâneo de relativismo moral e crise de identidade espiritual, a Igreja
ergue a sua voz para lembrar a atualidade desta mensagem: a cruz não perdeu seu
valor, o sangue de Jesus mantém sua eficácia purificadora e a fonte permanece
aberta.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bíblia de Estudo Petecostal: Edição Global. Rio de
Janeiro: CPAD 2022.
GREAT HOUSE, William M.
Zacarias, In: Comentário Bíblico Beacon. Vol. 5: Oséias a Malaquias.
Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
HORTON, Stanley M. (Org). Teologia Sistemática: uma
perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.
PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. 3.
ed. São Paulo: Editora Vida, 2009.
por Eduardo Leandro Alves
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