Este artigo é a continuação do texto publicado na edição de junho desta seção.
II - A dinâmica da salvação
1. Moneegismo – O monergismo é a doutrina teológica que afirma que a salvação é obra exclusiva de Deus, sem qualquer participação humana. O termo vem do grego monos (único) e ergon (obra), indicando que a regeneração é operada unicamente pela graça divina. Essa visão se contrapõe ao sinergismo, que ensina que Deus e o homem cooperam na salvação.
Dentre os textos frequentemente utilizados para sustentar o
monergismo, destacam-se Efésios 2.8-9, Romanos 9.16 e João 6.44. No entanto, uma
exegese cuidadosa demonstra que esses versículos não excluem a participação
humana no processo da salvação:
Efésios 2.8-9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da
fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém
se glorie.” Embora enfatize a graça divina, o texto não exclui a necessidade de
fé, que implica resposta humana. A fé, obviamente, é dada por Deus; porém, não
é Deus quem crê em lugar do homem, mas o próprio homem que exerce a fé, uma vez
habilitado por Deus.
Romanos 9.16: “Assim, pois, isto não depende do que quer,
nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.” Este texto refere-se a conversão
nacional de Israel, e não da salvação individual. João 6.44: “Ninguém pode vir
a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último
dia.” O “trazer” de Deus não significa forçar, mas atrair, conforme evidenciado
pelo contexto bíblico mais amplo.
Na salvação, toda a iniciativa e obra e glória pertencem a
Deus, ao homem só compete crer e receber. É Deus quem dá o primeiro passo. O
homem salvo não fez nenhuma obra meritória, mas é atraído pelo amor e compaixão
divina que lhe oferece salvação, só lhe cabe arrependimento e fé.
Neste aspecto, Agostinho de Hipona (c. 354-430), enfatizou a
depravação total do homem e a necessidade da graça irresistível. Ele argumenta
que a fé é concedida por Deus e não um ato humano independente: “a graça de
Deus não é concedida segundo os méritos humanos, mas os méritos humanos são
resultados da graça concedida”. (1) Não obstante, Agostinho também, reconhecia
a participação humana: “Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. (2)
Isso significa que, embora a salvação seja dom de Deus, a resposta do homem é
necessária.
Entretanto, o monergismo foi defendido durante a Reforma Protestante,
especialmente por Martinho Lutero e João Calvino. Lutero, refutou a ideia de
livre-arbítrio e argumentou que a salvação depende unicamente da graça divina.
Ele escreveu: “o livre-arbítrio sem a graça de Deus não passa de uma palavra
vazia”. (3)
João Calvino, em suas Institutas da Religião Cristã, também
enfatizou que a eleição e a regeneração são obras exclusivamente divinas,
declarando que: “a fé não nos é dada porque nos consideramos aptos para
recebê-la, mas porque Deus nos escolheu antes da fundação do mundo”. (4)
Em refutação, a ortodoxia pentecostal defende o sinergismo
que é sustentado tanto pela exegese correta das Escrituras quanto pelo testemunho
da patrística. A graça divina é necessária e primária, mas exige uma resposta
humana consciente e livre. Essa compreensão equilibra a soberania divina e a
responsabilidade humana.
2. Sinergismo – O termo sinergismo tem origem nos
vocábulos gregos σύν (sin) “junto”, mais ἔργον (ergonomia) “trabalho”; portanto,
etimologicamente sinergismo significa “trabalhar junto “ou “ação conjunta”. O
conceito de sinergismo na salvação refere-se à cooperação entre Deus e o ser
humano no processo de redenção.
Diferentemente do monergismo, que enfatiza a ação exclusiva
de Deus na salvação, o sinergismo ensina que a graça divina e a resposta humana
trabalham juntas. A Bíblia apresenta diversas passagens que apontam essa colaboração:
“Assim, meus amados, como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas
muito mais agora na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e
tremor. Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo
a sua boa vontade” (Filipenses 2.12-13).
Aqui, observa-se um dinamismo entre a responsabilidade
humana (“desenvolvei a vossa salvação”) e a soberania divina (“Deus é o que opera
em vós”). Em outro texto Jesus disse: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os
profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os
teus filhos, como a galinha ajunta seus pintinhos debaixo das asas, e vós não
quisestes!” (Mateus 23.37). Essa passagem demonstra a resistência humana à
graça de Deus, evidenciando que a resposta humana é um fator no processo da
salvação.
Aos Coríntios, Paulo escreve: “E nós, cooperando com ele,
também vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão.” (2 Coríntios
6.1). Aqui, o termo “cooperando com ele” implica uma interação entre Deus e o
homem na recepção da graça.
Esses textos sustentam a ideia de que, embora Deus tome a
iniciativa na salvação, o ser humano tem um papel ativo na resposta à graça
oferecida.
Quanto a esse entendimento, os primeiros teólogos cristãos
frequentemente enfatizaram tanto a graça divina quanto a resposta humana, sem
excluir um ou outro.
Inácio de Antioquia (c. 35-107 d.C.). Demonstra em seus
escritos a necessidade da cooperação humana na escolha divina: “De modo que vós
sois co-obreiros de Deus; vós sois, com efeito, o templo de Deus, o altar, os
instrumentos da graça. Trabalhai, pois, para serdes achados perfeitos”. (5)
Irineu de Lião (c. 130-202 d.C.). Enfatiza a
responsabilidade humana na aceitação da graça divina: “Deus estabeleceu o homem
em condições de liberdade e poder, para que aquele que obedece tenha a glória
da obediência, e aquele que não obedece receba a justa condenação”. (6)
Cipriano de Cartago (c. 200-258 d.C.). Destaca a dependência
da graça, mas sem excluir a ação humana: “Nada temos de nosso, a não ser o que
Deus nos deu; assim, o que se faz de bom, é feito por Deus e por meio dele”. (7)
João Crisóstomo (c. 349-407 d.C.). Argumenta que a graça de
Deus e a resposta humana são necessárias: “A graça de Deus e a nossa diligência
andam de mãos dadas; não é tudo feito por Deus, nem tudo por nós, mas há
cooperação”. (8)
Portanto, os Pais da Igreja demonstram uma abordagem
equilibrada entre a graça divina e a liberdade humana na salvação, reforçando o
conceito de sinergismo.
III - Matizes soteriológicas
1. Pelagianismo – O Pelagianismo é uma doutrina
cristã herética formulada por Pelágio, um monge britânico que viveu entre o
final do século IV e o início do século V. Ele desenvolveu sua teologia em
resposta ao que via como uma crescente passividade moral dentro do cristianismo,
especialmente no ensino da graça divina. Pelágio rejeitava a ideia de que o
pecado original de Adão havia sido transmitido a toda a humanidade e afirmava
que cada pessoa nasce moralmente neutra e capaz de buscar a retidão por conta própria.
O pensamento pelagiano foi amplamente combatido por teólogos
da época, especialmente Agostinho de Hipona, que defendia a doutrina do pecado
original e a necessidade da graça divina para a salvação. Em 418 d.C., o
Concílio de Cartago condenou o Pelagianismo como heresia, decisão
posteriormente reafirmada pelo Concílio de Éfeso em 431 d.C.
Apesar dessas condenações, as ideias de Pelágio continuaram
a influenciar correntes do pensamento cristão ao longo da história. (9)
A doutrina pelagiana baseia-se em três princípios
fundamentais: (10)
(I) Negação do Pecado Original. Pelágio argumentava que Adão
pecou apenas por si mesmo, e não para toda a humanidade. Assim, cada indivíduo nasce
inocente, sem qualquer inclinação ao pecado herdada de Adão.
(II) Autonomia Moral e Livre-Arbítrio Absoluto. O homem
possui plena capacidade de escolher entre o bem e o mal sem a necessidade da
graça divina. Segundo essa visão, a graça de Deus se manifesta apenas como um
auxílio externo e não como algo essencial para a salvação.
(III) Salvação pelas Obras. A redenção não depende da graça
divina, mas sim do esforço moral e da obediência às leis de Deus. Dessa forma, a
responsabilidade pela salvação recai inteiramente sobre o indivíduo.
A teologia pelagiana contradiz diversas passagens bíblicas
que ensinam sobre a pecaminosidade inata do ser humano e a necessidade da graça
divina para a salvação. Um dos principais textos usados para refutar essa
doutrina é o Salmo 51.5: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me
concebeu minha mãe.”
Além disso, Romanos 3.23 reforça que “todos pecaram e
destituídos estão da glória de Deus”, enfatizando a universalidade do pecado.
Embora o Pelagianismo tenha sido oficialmente condenado pela
Igreja, suas ideias continuam a ressoar em algumas teologias modernas. Muitos movimentos
cristãos liberais e grupos que enfatizam excessivamente o livre-arbítrio adotam
conceitos semelhantes aos do Pelagianismo, mesmo sem reivindicá-lo explicitamente.
Certas vertentes do Teísmo Aberto e alguns segmentos do
Cristianismo progressista minimizam a doutrina do pecado original e enfatizam a
capacidade humana de escolher o bem sem a necessidade de intervenção divina.
Além disso, movimentos seculares que promovem uma visão otimista da natureza
humana frequentemente ecoam princípios pelagianos, rejeitando a ideia da corrupção
inata e da necessidade da graça para a transformação moral.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) AGOSTINHO. De Praedestinatione Sanctorum. São
Paulo: Paulus, 2008.
(2) AGOSTINHO, Santo. Sermão 169. In: Obras Completas de
Santo Agostinho. São Paulo: Paulus, 2002, p. 11-13.
(3) LUTERO, Martinho. De Servo Arbitrio. São Paulo:
Editora Sinodal, 2004.
(4) CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São
Paulo: Cultura Cristã, 2006. III.21.1.
(5) INÁCIO DE ANTIOQUIA. Epistolas de Inácio de Antioquia.
In: ROBERTS, A.; DONALDSON, J. Os Padres Ante-Nicenos: Volume I. Grand
Rapids: Eerdmans, 1986. Carta aos Efésios (10:3).
(6) IRINEU DE LIÃO. Contra as Heresias. In: BETTENSON, Henry (org.). Documents of the Christian Church.
Oxford: Oxford University Press, 1999. IV, 37,1.
(7) CIPRIANO DE CARTAGO. Epístolas. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James. The
Ante-Nicene Fathers: The Writings of the Fathers Down to A.D. 325. New
York: Cosimo, 2007. 52, 7.
(8) CRISÓSTOMO, João. Homilias sobre Hebreus. In: NICENE AND POST-NICENE FATHERS, Series 1, Vol. 14. Peabody, MA:
Hendrickson, 1994. 12, 3.
(9) SCHAAF, Philip. História da Igreja Cristã. Hagnos,
2017.
(10) GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento
Cristão. Vol. 1. Cultura Cristã, 2014.
por Douglas Roberto de Almeida Baptista
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