“Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho; O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gálatas 1.6-9).
Após analisar o texto citado acima olhando para a conjuntura
de nossos dias, estou convencido de que o “evangelho” dos evangélicos no
Brasil, especialmente no que diz respeito ao neopentecostalismo, como aparece na
mídia radiofônica e televisiva, é estratificado em seus problemas: tem os
problemas da base e os da cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base,
que é o povo simples, fiel e crédulo. Mas, precisamos igualmente discernir e denunciar
os problemas na cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula,
muitas vezes, é oportunista, mal intencionada e age de má fé.
Uma das palavras-chave deste “evangelho” estratificado é
“clericalismo”: onde os do palco manipulam os da plateia, e tiram vantagem do
povo simples, ignorante e crédulo. A cúpula é pragmática, aproveitando esse
imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica e enriquecimento
da pessoa física. Outra palavra-chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula,
algumas igrejas evangélicas viraram uma mistura de macumba, protestantismo e
catolicismo. Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”. Já vi
igreja que se diz evangélica distribuindo cajado com água do Jordão. Lembro de
assistir a um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a
“unção da casa própria” para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua
igreja. Em fi m, este é o “evangelho” dos evangélicos contemporâneos.
Infelizmente o povo evangélico é, em boa parte,
supersticioso e cheio de crendices, assim como é o Brasil. Somos filhos de portugueses,
índios e africanos, e muitos imigrantes de todo canto do planeta. Falar em
espíritos na cultura brasileira é normal, pois crescemos cheios de crendices:
não se pode passar por baixo de escada, gato preto dá azar e outras tantas ideias
sem fundamento. O povo religioso é exatamente assim. E a cúpula desse “evangelho”
dos evangélic(a)os aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece
uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente,
ilude, porque promete o que não pode. O “evangelho” dos evangélicos é altamente
estratificado, onde a base é movida pela ingenuidade e a singeleza da fé, e a
cúpula é oportunista.
O “evangelho” dos evangélicos é mágico, porque promove a
infantilização em detrimento da maturidade, a dependência em detrimento da emancipação,
e a acomodação em detrimento do trabalho. Para ser evangélico hoje, você não precisa
amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Também não
precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro,
porque Deus resolve; segundo, porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo
resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Fico pensando como isso
pode funcionar. Imaginei que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao
Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, porque eles não contribuíram ainda.
Não vou liberar essa unção até que façam o que digo”.
O sujeito é incompetente para gerenciar o seu negócio, e não
gosta de trabalhar, mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta, levar para casa
um vidrinho de óleo para ungir a empresa e todos os problemas financeiros se resolverão.
Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter e
esperar que Deus resolva tem mais a ver com mágica do que com fé.
Mas, não para por aqui! Esse “evangelho” também é
mercantilista. E pior: de lógica neoliberal. Nasce a partir de pressupostos mercadológicos,
como, por exemplo, a sua supremacia do lucro, a tirania das relações
custo-benefício e a sua ênfase no enriquecimento pessoal. Outro mal deste “evangelho”
mercantilista é que estabelece a “meritocracia” para receber as bênçãos – ou
seja, “quem não tem competência não se estabelece”. A palavra chave entre todos
é a prosperidade, e ela se desenvolve no terreno do egocentrismo.
Tudo o que interessa é o lucro e, com isso, acabam promovendo
uma mentalidade de mercado na igreja, onde os líderes entram com as técnicas
rituais e o planejamento estratégico de faturamento, enquanto os fiéis entram com
a busca de produtos e de serviços religiosos, estando dispostos, inclusive, a pagar
financeiramente um alto preço. Em síntese, o “evangelho”, na sua versão
evangélica quase hegemônica no Brasil, é um grande negócio.
O “evangelho” dos evangélicos também é um simulacro. Ou
seja, é como a fotografia mais bonita e atraente de um sanduíche. Assim é esse “evangelho”:
ilusório. Particularmente, não me iludo com esse “evangelho” como aparece na
mídia. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua
prepotência do que pela sua fé. Ainda temos muitos profetas na igreja
evangélica, mas acredito que tenhamos mais ainda falsos profetas. A aparência de
integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que
na realidade de suas negociatas. Há líderes envolvidos com tráfico, lavagem de
dinheiro, acordos políticos sujos, imoralidade sexual, falsificação de
testemunho, corrupção, venda de votos. Aliás, os jornais começam a noticiar que
muitos dos fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por
propagandas enganosas.
Por causa disso, estamos presenciando um cristianismo
banalizado, onde a integridade moral está doente. A fé está à venda e os ideais
éticos e os princípios cristãos de vida, ausentes no cotidiano dos nossos fiéis.
Nisso cresce cada dia um cristianismo fragilizado, materialista e distanciado
do cristocentrismo. A vida cristã é baseada em equívocos e o Evangelho é uma
mercadoria. Deus é apenas um detalhe.
Que todos possam enxergar a vida cristã sob as lentes do verdadeiro
Evangelho, centrado em Cristo e fundamentado na verdade das Escrituras
Sagradas. Que Deus nos ajude a buscarmos uma reforma no sacerdócio, na
teologia, na liturgia e na vida! A fi m de que um verdadeiro cristianismo venha
a florescer.
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