O Cordeiro morto antes da História

O Cordeiro morto antes da História


Entre as imagens mais profundas da fé cristã está aquela apresentada no Apocalipse: “...o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13.8). A expressão pode parecer paradoxal: como algo poderia ser morto antes mesmo de a história começar? No entanto, essa afirmação aponta para uma das convicções centrais da teologia cristã: a redenção pertence ao plano eterno de Deus.

Na história das doutrinas cristãs, ela sintetiza a compreensão de que a obra redentora de Cristo não surgiu como resposta emergencial após o homem pecar. Desde cedo, teólogos e intérpretes das Escrituras compreenderam que o sacrifício de Cristo fazia parte dos desígnios eternos. Escritores cristãos da Antiguidade, como Justino Mártir (c. 100–165 d.C.) e Melito de Sardes (falecido c. 180 d.C.), já identificavam no cordeiro pascal do Êxodo uma prefiguração daquele que viria a ser o verdadeiro Cordeiro. Aquilo que era símbolo na antiga aliança tornava-se realidade plena na pessoa de Cristo.

É justamente nessa perspectiva que a imagem do Cordeiro deve ser compreendida. Quando o evangelista João afirma que o Cordeiro foi morto “desde a fundação do mundo”, o texto bíblico desloca o olhar do leitor para além da história. O Cordeiro - Jesus Cristo - foi morto em um momento específico da história, provavelmente nas primeiras décadas da Era Cristã. No entanto, o plano de redenção da humanidade - e, portanto, a própria morte do Cordeiro - já estava estabelecido muito antes de o drama humano se desenrolar no tempo.

Essa perspectiva altera profundamente a maneira de compreender a narrativa bíblica. Na cultura contemporânea, marcada por reações imediatas e respostas rápidas, muitas vezes amplificadas pelas redes sociais, somos levados a interpretar acontecimentos como simples reações em cadeia. Algo acontece e imediatamente surge uma resposta. Às vezes projetamos essa lógica também sobre Deus, como se a redenção fosse apenas um recado divino ao pecado humano. Biblicamente, porém, vemos algo muito mais profundo: a cruz não pertence apenas ao final da história da salvação, mas ao próprio fundamento do plano divino. Como afirmou o teólogo Horace Bushnell (1802–1876), “há uma cruz em Deus antes que o madeiro possa ser visto no monte”.

Nesse sentido, o Cordeiro não representa só a vítima de um acontecimento histórico, mas a revelação do atributo divino. O plano de redenção manifesta um amor imensurável que antecede à própria história humana. Antes mesmo de as estrelas serem formadas e o primeiro fôlego humano ser dado, o coração de Deus já estava voltado à reconciliação da humanidade.

Por que o cordeiro na Bíblia?

Quando João utiliza a expressão “cordeiro”, ele recorre a uma imagem profundamente enraizada na tradição religiosa de Israel. A Bíblia ensina que o ser humano, ao desobedecer à ordem divina, rompeu sua comunhão com o Criador. Como consequência da Queda, o pecado trouxe separação entre Deus e a humanidade, tornando o homem incapaz de aproximar-se do Senhor por seus próprios méritos (Gênesis 2.17; Romanos 3.23). Para revelar a gravidade do pecado e, ao mesmo tempo, indicar o caminho da reconciliação, Deus estabeleceu no Antigo Testamento o sistema sacrificial. Nesse contexto, a remissão dos pecados e a reaproximação com Deus estavam associadas ao derramamento de sangue, geralmente de um animal oferecido de forma substitutiva (Hebreus 9.22). Nos rituais levíticos, os pecados do povo eram simbolicamente colocados sobre o animal sacrificado. O sangue derramado representava expiação e reconciliação.

Esses sacrifícios repetidos ao longo das gerações tinham caráter provisório e pedagógico. Eles demonstravam tanto a justiça divina quanto a necessidade de um meio de restauração da comunhão entre Deus e o Seu povo. É por isso que quando João Batista viu Jesus aproximar-se, declarou: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Ele não estava apenas identificando um mestre religioso. Ele estava apontando para aquEle que realizaria o sacrifício definitivo. Jesus Cristo seria o Cordeiro que, de maneira voluntária e amorosa, ofereceria a Si mesmo, uma única vez, pela redenção da humanidade.

Diferentemente dos sacrifícios antigos, que apenas apontavam para a solução do problema do pecado, Cristo realizou o sacrifício perfeito e definitivo. Ele não apenas cobre o pecado, mas o remove. Como afirma o Novo Testamento, Ele levou em Seu próprio corpo, sacrificado no madeiro, os pecados da humanidade (1 Pedro 2.24). Saber que o Cordeiro foi morto “desde a fundação do mundo” significa reconhecer, ao mesmo tempo, a soberania divina e o insondável amor de Deus. A salvação não repousa sobre os méritos humanos, mas sobre o amor sacrificial de Jesus Cristo em forma de graça. Hoje, esse mesmo Cristo continua convidando homens e mulheres a participarem dessa tão grande salvação. O Cordeiro que morreu na história revela, na verdade, um amor que existia antes mesmo da criação do mundo.

por Eduardo Leite

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