Na sociedade em que vivemos, no contexto atual, grande parte das pessoas costuma relativizar a verdade. Geralmente, a obediência torna-se desobediência, a desobediência torna-se obediência, mentiras transformam-se em verdades e o errado passa a ser considerado certo. Afinal de contas, o que é certo ou errado?
Sabemos que as Escrituras Sagradas ensinam que Deus permite
o estabelecimento de governos para o bem da população, com o objetivo de
restringir o mal e estabelecer leis para o seu benefício. Portanto, todo cidadão,
especialmente o cristão, deve sujeitar-se aos governantes e obedecer às leis,
desde que elas não sejam contrárias aos preceitos divinos. (1) Então, como devemos
agir em cada caso? Analisemos essa questão a partir de duas óticas: a
obediência e a desobediência civis.
A obediência civil está relacionada à observância de princípios
e leis estabelecidos pelas autoridades governamentais de uma nação – no nosso
caso, o Brasil. Assim, é dever de todos os cidadãos a obediência. No tocante a
isso, é importante trazer à memória um texto escrito no século I da Era Cristã
pelo apóstolo Paulo e direcionado ao povo que compunha a igreja em Roma, a qual
convivia com pessoas de variadas crenças e vivia sob um império rigoroso.
O texto a que nos referimos está na Carta aos Romanos, no capítulo
13, versículos 1 a 5. Nele, observamos a função da população e dos governantes
instituídos por Deus. Vejamos: “Que todos estejam sujeitos às autoridades superiores.
Porque não há autoridade que não proceda de Deus, e as autoridades que existem foram
por ele instituídas. Assim, aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação
de Deus, e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os
magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal.
Você quer viver sem medo da autoridade? Faça o bem e você terá louvor dela,
pois a autoridade é ministro de Deus para o seu bem. Mas, se você fizer o mal, então
tenha medo, porque não é sem motivo que a autoridade traz a espada; pois é
ministro de Deus, vingador, para castigar quem pratica o mal. Portanto, é necessário
que vocês se sujeitem à autoridade, não somente por causa do temor da punição,
mas também por dever de consciência” (NAA). (2)
No texto citado, o ensino de Paulo não é uma questão
isolada. Pelo contrário, assim como os ensinos de Pedro e do próprio Senhor
Jesus Cristo, ele deixa clara a obrigação indispensável da obediência civil
(cf. 1 Pedro 2.13, ARC). É importante dizer que as autoridades governamentais estão
abaixo de Deus; portanto, quaisquer leis estabelecidas que estejam fora dos
preceitos divinos e éticos devem ser analisadas. Daí surge a questão: e no caso
de tais princípios serem ilícitos, é correto ser conivente com eles? Se sim,
onde está a ética? Se não, onde fica a obediência civil?
Para entendermos melhor essa questão, é preciso falar de desobediência
civil e resistência lícita. Todos nós sabemos que, em muitos casos, as
autoridades governamentais estabelecem leis que estão dentro dos princípios éticos
e de acordo com os preceitos divinos; entretanto, em outras ocasiões, as leis
estabelecidas não estão em conformidade com tais princípios. Com relação a essa
questão, é preciso dizer que o texto acima de Romanos 13 não é o único
(voltaremos a ele mais adiante); na verdade, há várias passagens na Escritura
Sagrada em que pessoas desobedeceram às imposições das autoridades civis. (3)
A primeira passagem que vamos analisar encontra-se em Atos
4.18-20: “Chamando-os, ordenaram-lhes que de modo nenhum falassem nem ensinassem
no nome de Jesus. Mas Pedro e João responderam: — Os senhores mesmos julguem se
é justo diante de Deus ouvirmos antes aos senhores do que a Deus; pois nós não
podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (NAA).
Nesse texto, Pedro e João, presos diante do Sinédrio judaico
– autoridade governamental - foram impedidos de falar e ensinar em nome de
Jesus. Entretanto, os apóstolos afirmaram que não podiam cumprir tal ordem.
Assim, podemos dizer que, quando as autoridades vão além das determinações de Deus,
confrontando-as ou descumprindo-as, é correto que a população resista de forma
lícita a tais imposições ilegais. Seria incorreto se a população obedecesse a
princípios ilícitos, tais como desrespeito à família, às Forças Armadas ou ao
patrimônio público [...]. Portanto, como disse Pedro em outra ocasião: “É mais
importante obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29 – NAA). Assim, para
concluir essa parte, faço minhas as palavras do renomado escritor Wayne Grudem,
que afirma categoricamente que “Deus requer que Seu povo desobedeça ao governo
civil nos casos em que a obediência ao governo implique, de fato, desobediência
a Deus”. (4)
A segunda passagem está em no capítulo 2 de Lucas. Na narrativa,
temos um decreto de César Augusto, (5) que exigia que as pessoas fossem às suas
cidades de origem para um recenseamento. Muitas saíram para cumprir tal ordem,
enfrentando dificuldades. Entre elas estavam José e Maria, que fizeram uma
longa viagem de Nazaré, na Galileia, até Belém da Judeia.
Diante do quadro, Maria – prestes a dar à luz o Salvador – e
José poderiam ter sido levados a uma desobediência civil, adotando uma atitude
ilícita. Entretanto, mesmo com limitações, eles, prudentemente, obedeceram ao preceito
cívico e José foi à sua cidade natal para recensear-se com sua esposa.
Assim, vemos que há circunstâncias na vida em que, mesmo
havendo dificuldades, é importante obedecer às ordens governamentais. Por outro
lado, como observa R. C. Sproul, (6) às vezes os governantes exigem que as
pessoas façam o que é proibido por Deus ou as proíbem de fazer o que Deus
ordena. Nesses casos, não há como um cidadão de bem cumprir tais determinações.
Entendido isso, voltemos agora ao texto de Paulo em Romanos 13.1-5
para compreendermos melhor o que ele quis dizer. Diante do que foi exposto,
Paulo está se referindo a algum tipo de desobediência civil ilícita, que acarretaria
punição (v. 2). A Escritura ensina claramente a sujeição às autoridades
governamentais. Por outro lado, comenta Wayne Grudem, “é interessante que a Bíblia
nunca diz que é errado substituir o governo em vigor por outro”. (7)
Assim, em nossa democracia, precisamos votar para eleger novos
representantes, mas, para isso, é indispensável que sejam, no mínimo, cidadãos
de bem, que respeitem princípios éticos e preceitos religiosos. Portanto, o
cidadão jamais deve apoiar pessoas desqualificadas, pois é por meio das ações
dos cidadãos que Deus pode operar para designar líderes governamentais que
prezem pela Nação e pelas leis divinas (cf. Provérbios 28.12 – ARA). (8)
Concluo lembrando que existem dois domínios na Terra: a Igreja
e o Estado. Cada um tem sua esfera de atuação. Portanto, não é conveniente nem
ético que haja interferência indevida nos direitos cabíveis a ambos. Como cristãos,
devemos demonstrar respeito às duas instâncias.
Chega-se, assim, à seguinte conclusão: a desobediência
civil, apenas quando realizada como resistência lícita, é um direito da população
e em nada contradiz as leis (9) e os princípios da Escritura Sagrada. (10)
Dessa forma, respeitemos as autoridades constituídas, mas não sejamos
coniventes com autoridades governamentais que pretendem impor leis contrárias aos
preceitos divinos.
Notas
(1) Para uma abordagem sobre essa temática, consulte: LIMA,
Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: confrontando as questões morais do nosso
tempo. 7 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 193-211.
(2) A NAA, Nova Almeida Atualizada, é uma tradução bíblica
em português.
(3) Consulte as seguintes referências: Daniel 3.18; 6.10; Êxodo
1.17,21; Lucas 3.19; Atos 4.20 (ARC ou ARA).
(4) GRUDEM,
Wayne; ASMUS, Barry. Economia e política na cosmovisão cristã: contribuições
para uma teologia evangélica. São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 60.
(5) Augusto, em latim, significa divino.
(6) SPROUL, C. R. Qual é a relação entre a Igreja e o
Estado? São Paulo: Editora Fiel, 2014, p. 56, 57.
(7) Cf. GRUDEM, Op. Cit., p. 65.
(8) Para mais detalhes, veja os comentários em: LIMA, Op.
Cit., CPAD, 2005, p. 203-204.
(9) Consulte os seguintes artigos da Constituição Federal:
Art. 1º; 2º; 3º inciso I, IV; 5º inciso IV; 222º.
(10) Cf. At 5.29, NAA e compare com Romanos 13.1-5 NAA e
outras versões.
por Éder Machado
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