Teísmo Aberto é uma invenção teológica subcristã que declara que o maior objetivo de Deus é entrar em um relacionamento com o ser humano no qual o Criador é afetado pela criatura e aprende com ela
Nas cristalinas páginas das Sagradas Escrituras, há um constante alerta quanto aos falsos mestres e ensinos espúrios por parte daqueles que querem atrair pessoas sem um comprometimento verdadeiro com a Palavra de Deus, cujas heresias acabam minando os alicerces da fé cristã. Paulo falou profeticamente que os lobos cruéis entrariam no rebanho, não poupando o mesmo em nada (Atos 20.29). Esse também foi um alerta de Cristo (Mateus 7.15), seguido pelo apóstolo Pedro (1 Pedro 2.1). Além do perigo que viria do lado externo, do interno se levantariam homens dizendo coisas perversas, com o original grego usando o termo diastreph, que traz a ideia de torcer, desencaminhar, desviar, opor-se - nesse caso, conspirar contra os propósitos e planos salvadores de Deus, desviar do caminho certo, perverter. Isso expressa a real natureza de tais homens, cujo principal objetivo é arrebanhar pessoas em torno de suas ideias e teologias próprias (1 Timóteo 1.20; 1 João 2.19).
Um ensino, um curso de teologia, tudo pode ser válido e
importante; porém, é preciso fazer teologia de qualidade, que é aquela que está
assente na Palavra de Deus, priorizando e ensinando sempre a verdade divina à
luz das Sagradas Escrituras. Dela, todo cristão deve se munir para não ser
seduzido ou levado ao redor por qualquer vento de doutrina (Efésios 4.14).
Assim, qualquer teologia que surja e tente encontrar espaço em nossa vida e fé precisa
passar pelo crivo das Sagradas Escrituras, que é a nossa regra de fé e prática
(2 Timóteo 3.16); e caso esse ensino esteja dissonante, obnóxio, prontamente deve
ser visto como espúrio e anátema (Gálatas 1.8).
Por vezes, aparentemente, um ensino ou um tipo de teologia
pode parecer inofensivo e sem a pretensão de prejudicar, mas apenas buscar uma explicação
para algo, sem qualquer má intenção. A princípio, aparentemente, é isso que se visibiliza
na dita corrente teológica denominada de “teísmo aberto”; entretanto, seu
ensino é, na verdade, insidioso, deturpando a teologia real sobre Deus. Em sua
explicação apologética, ele torna o Deus da Bíblia mais humano frente aos olhos
dos incrédulos, em especial no que tange à explicação atinente à existência do sofrimento
no mundo, o que leva as pessoas a serem atraídas por esse ensino.
Ainda que se vislumbre qualquer tipo de boa intenção nos
promovedores do teísmo aberto, somente isso não vale, pois as colocações
teológicas não podem partir apenas de mentes absortas, aleatórias, o que gera ensinos
ilegítimos. É imprescindível que qualquer afirmação ou ensino na área teológica
tenha sua fonte na Palavra de Deus. Crucialmente, frente a qualquer novidade doutrinária
ou um novo movimento, sempre é preciso interpelar: esse novo ensino ou teologia
passou pela prova da Palavra de Deus? À luz do julgamento das Escrituras, o
teísmo aberto, em seus argumentos, fere doutrinas estabelecidas na Palavra de
Deus, em especial quanto à pessoa de Deus, diminuindo-a.
Apresentaremos neste artigo alguns pontos negativos sobre o teísmo
aberto que o próprio leitor analisará e julgará se o mesmo tem base bíblica. O
primeiro que destacaremos é quanto à visão reduzida que o teísmo aberto tem
sobre Deus. Prontamente se pode entender, na leitura das proposições do teísmo aberto,
que aquilo que ele expressa sobre Deus é uma redução dEle. Suas colocações ferem
seriamente a fé daqueles que creem no Deus segundo expresso na Bíblia, de modo que
tal ensino jamais deve ser aceito ou tolerado por um cristão verdadeiro. E, como
veremos também a seguir, além de diminuir o Deus da Bíblia, Sua glória, onisciência
e poder, essa corrente teológica, da forma que percebe a fé, é por demais desesperadora.
Assim, aqueles que conhecem as verdades das Sagradas Escrituras devem
levantar-se e opor-se a tais ensinos, batalhando pela fé que foi dada aos
santos (Judas 1.3).
O que é o Teísmo Aberto e quem são seus representantes?
No inglês, o termo teísmo aberto é Open Theism.
Trata-se de uma perspectiva teológica contemporânea e com argumentos controversos
a respeito de Deus, envolvendo Sua presciência e Sua imutabilidade em relação
ao tempo e ao livre-arbítrio humano. Trata-se, portanto, como muitos têm
afirmado, de uma heresia moderna que ataca seriamente os atributos da natureza de
Deus conforme revelado nas Escrituras e que, por séculos, foram assegurados
pela tradição ortodoxa cristã. Na definição do teísmo aberto e sua origem, o pastor
Silas Daniel afirma com precisão: “Teísmo Aberto é uma invenção teológica
subcristã que declara que o maior objetivo de Deus é entrar num relacionamento
recíproco com o homem onde o Criador é afetado pela criatura e aprende com ela;
todas as referências bíblicas a Deus devem ser interpretadas sem qualquer antropomorfismo;
Deus criou um mundo onde Ele pode ser afetado pelas escolhas dos homens; e Deus
não conhece o futuro plenamente, nem as escolhas livres que suas criaturas ainda
farão” (DANIEL, 2007, p. 150).
O teísmo aberto bate de frente com o teísmo clássico, que trata
da tradição herdada dos teólogos Agostinho, Anselmo e Tomás de Aquino, e dos primeiros
teólogos protestantes, os quais firmemente ensinavam que Deus, segundo a Bíblia,
é soberano, eterno, imutável, onisciente, transcendente, o Autor supremo de tudo
e Senhor da história. No teísmo aberto, a ênfase pauta-se mais em um Deus
relacional, o qual é envolvido pelo tempo, é afetado pelo ser humano, é
espectador, sendo atento e amoroso, mas limitado em sua capacidade de controle e
não tem conhecimento exaustivo quanto ao futuro contingente. Essa teologia tem
como base a experiência humana de liberdade e sofrimento, de modo que afirma:
diante das realidades do sofrimento e do mal no mundo, se Deus tem conhecimento
de tudo com antecedência, então Ele não concede liberdade pura nem tem
verdadeira empatia. Somente um Deus que não tem conhecimento de tudo com
antecedência poderia essas coisas.
No seu aspecto sistemático, o teísmo aberto é uma doutrina
nova. Antes dele, já se tinham certos lampejos similares desse ensino, conforme
é visto em parte no helenismo, no pelagianismo e na teologia do processo. Logo,
pode-se entender que o seu surgimento é caracterizado por uma era pós-moderna, a
qual é marcada pela rejeição dos absolutos, valorização do sentimento, desconfiança
em instituições hierárquicas, envolvendo igrejas e também as Escrituras Sagradas.
Logo, pode-se dizer que o teísmo aberto se volta mais para responder a questões
de cunho filosófico e cultural modernas do que questões exegéticas. Nesse caso,
seu veneno é perigoso, pois dá voz mais ao homem moderno, colocando em
detrimento a glória de Deus.
Esse ensino, como sistema teológico, vai ganhar corpo e
desenvolvimento no campo evangélico no seio americano nos anos 1980-1990, tendo
seu marco notável através da publicação do livro The Openness of God: A
Biblical Challenge to the Traditional Understanding of God (1994), com
diversos autores diferentes. Seus principais protagonistas, os mais conhecidos,
são: Clark Pinnock, que desenvolveu o pensamento do teísmo aberto; Gregory
Boyd, defensor árduo da dita tese; John Sanders, que afirmava que Deus corria riscos
reais com as decisões humanas; David Basinger, que contribuiu com fundamentos
filosóficos; e William Hasker, que defendeu o aspecto acadêmico do teísmo
aberto.
Os nomes acima mencionados são teólogos e filósofos de sólida
formação acadêmica. Entre muitos, não são vistos como hereges, estando, no seio
do evangelicalismo e com linguagem bíblica, justificando a doutrina do teísmo aberto.
Note que o grande Clark Pinnock foi um arguto defensor da inerrância bíblica,
mas se tornará o pai do teísmo aberto. Isso mostra para nós que pequenos desvios
na questão doutrinária, como este envolvendo a soberania de Deus, podem levar a
abismos maiores, isto é, profundas heresias. Muitos desses autores defendem a Bíblia;
porém, o grande problema é que, para certas passagens bíblicas, em suas
interpretações, passaram a fazer uso de pressupostos filosóficos naturalistas e
antropocêntricos, fugindo da tradição ortodoxa da fé cristã. Por meio de suas novas
reinterpretações, geram confusão na teologia pastoral, na doutrina da salvação,
bem como no culto cristão.
Os erros bíblicos e as heresias do Teísmo Aberto
Conforme descrito anteriormente, o teísmo aberto tem sua
gênese em um ensino que tenta conciliar o livre-arbítrio libertário e a responsabilidade
divina sustentando que Deus só tem conhecimento pleno das coisas que já podem
ser conhecidas; quanto ao futuro livre dos seres humanos, ele ainda não existe
para ser plenamente conhecido por Deus. Logo, se o mal acontece, não é porque
Deus, mesmo sabendo com antecedência, por alguma razão o permitiu, mas porque
Ele não sabia que aquele mal iria acontecer. Assim, na visão aberta, o amor e a
bondade de Deus são “mantidos”. Nessa visão, Deus também é visto como sábio, mas
não por ter um conhecimento eterno e perfeito de todas as coisas, mas porque Ele
aprende com os eventos à medida que eles ocorrem. Nesse caso, Deus muda, se ajusta
e se surpreende com as coisas que
acontecem no curso da história.
Jamais se pode pensar, em momento algum, que esse tipo de
teologia tenha qualquer respaldo bíblico, ainda que, a princípio, ela pareça
inofensiva para alguns, sem pretensão alguma de ser heterodoxa, pois visa reforçar
a relação pessoal de Deus com Suas criaturas. Porém, na verdade, essa teologia degrada
e diminui a soberania e a grandeza de Deus, Sua autoridade, sabedoria e
perfeição.
A teologia sempre foi alvo de dois grandes ataques. O primeiro
é o denominado “determinismo fatalista”, que implica o anulamento da responsabilidade
humana. Em segundo lugar, tem-se o que é chamado de “relativismo libertário”, onde
Deus é transformado apenas em um coadjuvante da história, e não no Senhor dela.
O teísmo aberto tem má formação porque rejeita os absolutos de Deus, seguindo o
viés da pós-modernidade. No pretexto de exaltar a liberdade humana e por meio
de uma releitura moderna da doutrina de Deus, o teísmo aberto enfraquece os atributos
imutáveis de Deus, de acordo com o que é revelado nas páginas da Bíblia.
Em se tratando da onisciência de Deus, o teísmo aberto nega que
Ele tem o conhecimento certo acerca do futuro livre. Isso bate claramente de
frente com passagens bíblicas como a de Isaías 46.10, que assegura que Deus,
desde o princípio, anuncia o que há de acontecer. Isso vai também contra Salmos
139.4 e Atos 2.23. No demais, caso assim fosse, as profecias bíblicas não seriam
verdadeiras, pois se Deus não pode prever eventos futuros específicos, algumas
passagens proféticas não teriam veracidade, como, por exemplo, as profecias
sobre a traição de Judas (João 13.11;18;21), a negação de Pedro (Lucas 22.34) e
a destruição de Jerusalém (Lucas 21.6).
O teísmo aberto também tem uma visão distorcida do amor de Deus,
na qual Deus adapta Seu plano para nossas vidas aos nossos desejos e escolhas.
Jamais Ele estabelece Sua vontade para a outra pessoa. Deus não está
interessado em planejar seu futuro por você, nem em lhe deixar sem direito de voz
sobre o que fazer em sua vida.
Sobre isso, diz Bruce A. Ware: “Na verdade, grande parte do
futuro ainda não foi planejada, e Deus espera que você tome suas próprias
decisões e escolha seu rumo, de maneira que Ele saiba como melhor traçar seus próprios
planos. É claro que Ele deseja que você o consulte durante todo o processo,
embora o que você vier a decidir seja sua própria escolha, e não Dele. O que
Deus deseja é que você e Ele trabalhem juntos, traçando o rumo de sua vida.
[...] É claro que, conquanto Deus não pudesse saber de antemão o que suas
criaturas livres fariam, Ele certamente nunca quis que aquilo acontecesse. Ele
é amor e não quer que suas criaturas sofram. Mas uma coisa que podemos saber
com certeza é que Deus vencerá, afinal!”.
Nessas afirmações, têm-se os pressupostos centrais do teísmo
aberto, redefinindo a natureza de Deus por meio de uma filosofia antropocêntrica,
negando a presciência e a sabedoria de Deus. Pois o futuro está aberto e
indefinido, e Deus não tem planos traçados para ele, contrariando a Palavra (Salmos
3.11). No demais, a Bíblia ensina o crente a confiar em Deus e depender dEle (Provérbios
3.5,6); que o homem tem sua liberdade, mas precisa sempre depender da
providência divina (Provérbios 16.9); e que Deus age e trabalha por meio de cada
um de nós, quando procuramos seguir Seus planos, Palavra e vontade (Efésios
2.10).
O teísmo aberto compromete também o ensino bíblico da
soberania de Deus, pois, por meio de seus ensinos, essa soberania divina é
limitada e vulnerável ao caos humano, colocando em descrédito a segurança da providência
de Deus, bem como a certeza de Suas promessas.
O teísmo aberto também distorce o conceito bíblico quanto ao
“arrependimento divino”, tratando-o como mudança ontológica de Deus, substituindo
o Deus que governa por um Deus que apenas reage. Em relação ao “arrependimento divino”,
esses são antropomorfismos (Gênesis 6.6; 1 Samuel 15.11), devendo ser compreendidos
como mudança na relação de Deus com os homens, e jamais como mudança em Seu
caráter ou conhecimento. Isso fica claro ao compararmos os versos 11 e 29 de 1
Samuel 15.
Por fim, este ensino
torna instável a esperança escatológica cristã, pois um Deus que não conhece o fim
da história jamais poderá garantir seu desfecho final.
Assim, afirmamos que a Bíblia deixa claro que Deus conhece
todos os eventos futuros, incluindo os livres (Isaías 41.22,23; Daniel 2.22; Salmos
147.5). A onisciência de Deus é a perfeição pela qual Ele, em um só ato eterno e
simples, conhece todas as coisas possíveis e reais. É preciso estar certo de
que Deus conhece todas as coisas possíveis e reais, incluindo também cada ação
livre de suas criaturas, antes mesmo de elas acontecerem.
Em se tratando da doutrina das profecias, conforme consta na
Bíblia, elas provam o conhecimento absoluto de Deus, pois Ele não apenas sabe o
que irá acontecer, mas também decreta acontecimentos futuros. Por exemplo, a morte
de Cristo foi decretada antes da fundação do mundo (Apocalipse 13.8; Atos
4.27,28).
No mais, pode-se assegurar confiantemente que a soberania de
Deus é compatível com a liberdade humana. De posse da Bíblia, o cristão sabe que
Deus é soberano (Provérbios 16.9; Romanos 9.15–18); no entanto, também é consciente
de que cada ser humano é um ser responsável (Romanos 2.6–11; Atos 17.30). O
grande problema do teísmo aberto é que gera um tipo de compatibilização com o
conceito de “concorrência divina ou de causas secundárias”, estabelecendo a
liberdade compatível com a presciência e soberania divinas.
Diante do exposto, jamais se pode pensar que o teísmo aberto
seja apenas um erro inofensivo; ele é, sim, um ataque à fé bíblica e
apostólica. Ele se disfarça de teologia pastoral, mas sua essência é marcada
por uma idolatria filosófica, que transforma Deus à imagem do homem. O teísmo
aberto pensa sobre Deus como se o mesmo fosse homem. E em última instância, ele
coloca em xeque a própria doutrina da salvação, pois Deus, segundo essa visão,
não tem certeza do fim da história.
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Daniel, Silas. A Sedução das Novas Teologias. 1. ed. Rio de
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por Osiel Gomes
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