Declaração de Fé: Uma Teologia para a Educação Cristã

Declaração de Fé: Uma Teologia para a Educação Cristã


O sentido cristão de confissão de fé nas páginas do Novo Testamento.

O termo usado em o Novo Testamento que corresponde ao sentido de uma declaração ou confissão conjunta de fé é homologéô. Em 1 Timóteo 3.16, emprega-se a forma adverbial (homologouménôs) para designar uma confissão de fé, da qual “todos concordam”, e que não admitem qualquer controvérsia ou dúvida. Trata-se de uma declaração afirmativa da tradição cristã primitiva na “encarnação”, “ressurreição”, “ascensão”, e “vitória final de Cristo”, sob a qual a identidade e esperança cristãs são afirmadas (Lucas 12.8). Em 1 Coríntios 15.3-5, Filipenses 2.6-11 e Colossenses 1.15-20 encontram-se as mais fundantes confissões de fé da igreja nascente.

O termo é usado mais uma vez em 1 Timóteo 6.12, quando Paulo lembra ao jovem pastor da “boa confissão”, feita na ocasião do batismo em água diante de muitas testemunhas. O texto grego diz literalmente: “o que professaste fazendo a boa confissão” (hômológêsas tên kalên homologían), e isto na “presença de Deus” e de “Cristo”, que também “testificou a boa confissão” diante de Pôncio Pilatos (1 Timóteo 6.13). Portanto, Timóteo deve guardar “o mandamento imaculado, irrepreensível” (1 Timóteo 6.14), que, sem dúvida, fizera parte de sua declaração de fé primordial.

A assertiva da confissão do jovem pastor liga-se à tradição da confissão pública da fé cristã. Em Romanos 10.9, Paulo refere-se à tradição: “Se, com tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Portanto, havia declarações dogmáticas dos cristãos primitivos concernentes ao senhorio de Cristo, como identidade comunitária (Cf. 1 Coríntios 12.3; Filipenses 2.11; Hebreus 13.15; 1 João 2.23; 4.2,3,15). Quem crê, confessa (Atos 19.18). Um ponto crucial da confissão de fé paulina é o cruzamento do versículo com Deuteronômio 30.14: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração para a fazeres”. O credo nasce da obediência e disposição em cumprir aquilo que se crê no coração e se confessa pelos lábios (b 13.15). Paulo execra a confissão que não se faz acompanhar por uma experiência Pneumatológica transformadora: “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras” (Tito 1.16). Noutro momento, João contesta os que não confessam a mesma confissão de fé em Cristo, chamando-os de “enganador[es] e anticristo[s]” (2 João 7). O crivo é a declaração de fé, a confissão na encarnação de Jesus Cristo.

O sentido cristão de confissão de fé na História da Igreja

Apesar de encontrarmos nos textos dos apologistas e polemistas dos três primeiros séculos informações a respeito da confissão de fé da igreja, basta-nos, para o momento, considerarmos apenas aquelas declarações que estabeleceram a ortodoxia e a afirmação substancial da fé cristã em sua perspectiva universal: os Credos Ecumênicos. Estes nasceram como uma resposta às heresias que surgiam no Cristianismo. Inicialmente, o perigo da heresia gnóstica e a rejeição de vários livros inspirados pelo herege Marcião motivaram a Igreja a estabelecer o Cânon das Escrituras e os Credos.

O primeiro deles, o Credo Apostólico, tornou-se um símbolo da fé cristã. A declaração do símbolo era a forma com a qual os cristãos que sustentavam a verdadeira fé se identificavam. No batismo, o símbolo era confirmado pelo candidato ao ser interpelado: “Crês em Deus Pai todo-poderoso? Crês em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e morreu, e se levantou de novo no terceiro dia, vivo dentre os mortos, e ascendeu ao céu, e assentou-se à destra do Pai e virá a julgar os vivos e os mortos? Crês no Espírito Santo, na santa igreja e na ressurreição da carne?”.

Mais tarde, a heresia ariana dará ensejo a um novo desafio à igreja e com ele outra reafirmação dogmática: o Credo de Atanásio, no Concílio de Niceia. O credo possui quarenta artigos nos quais são afirmados a divindade de Jesus e do Espírito Santo e a unidade trinitária: “Mas a fé católica é esta, que adoremos um único Deus em Trindade, e a Trindade em unidade. Não confundindo as pessoas, nem dividindo a substância”.

Em Calcedônia, em 451, se contesta a heresia nestoriana, que negava as duas naturezas de Cristo: “Seguindo os santos Pais, ensinamos todos a uma voz que deve ser confessado um só e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual é perfeito em divindade e perfeito em humanidade; Verdadeiro Deus e verdadeiro homem”.

Os credos eram o meio pelo qual a igreja mantinha viva a fé apostólica contra as heresias que surgiam de tempos em tempos. Tornaram-se uma luz para alumiar os fiéis na escuridão da dúvida e das heresias; um caminho pelo qual o crente mantinha-se em conformidade com a tradição bíblica dos apóstolos.

Após a Reforma, outras confissões foram estabelecidas, marcadas pela separação com a tradição católica e pelos modos distintos de interpretar as Escrituras nas diversas divisões presentes entre os reformados: Confissão de Augsburgo (1530), Belga (1561), Helvética (1566), Escocesa (1560), Westminster (1646) e a Batista de Londres (1689). De modo geral, essas declarações de fé conservavam os fundamentos trinitário, cristológico e pneumatológico dos Credos Ecumênicos da Igreja.

Declaração de Fé entre os Pentecostais

As matrizes da teologia pentecostal estão diretamente centradas nas declarações de fé de movimentos ligados aos princípios teológicos das confissões históricas do Cristianismo ortodoxo. A declaração de fé pentecostal corresponde em muitos aspectos ao legado das grandes confissões protestantes, excetuando às especificidades da doutrina pentecostal a respeito dos carismas e da atualidade do batismo no Espírito Santo. Em sua forma fundamental, o pentecostalismo afirma todas as doutrinas bíblicas básicas defendidas pelas igrejas históricas. Um exemplo desse compromisso com os fundamentos doutrinários pode ser verificado quando, no Concílio de 1914, os pentecostais reunidos opuseram-se ao unitarismo e reafirmaram a doutrina trinitária. Inicialmente não havia qualquer intenção de o movimento pentecostal estabelecer para si uma declaração de fé, uma vez que a fé pentecostal estava diretamente ligada aos Fundamentos defendidos pelas tradições teológicas presentes no Concílio de 1914. Deste concílio surge um dos primeiros discursos oficiais da denominação nos Estados Unidos, que enfatizava a rejeição a todo liberalismo e racionalismo teológico, e o acolhimento “de todas as verdades bíblicas genuínas sustentadas por todas as igrejas verdadeiramente evangélicas” (HORTON, 1996, p.21). Não muito tempo depois, a Assembleia de Deus estadunidense esboçou os primeiros artigos de fé, na chamada Declaração das Verdades Fundamentais. Como o próprio nome afirma não se tratava de uma dogmática, mas de uma orientação concernente as doutrinas fundamentais, acentuando principalmente aquelas que estavam sob ataque, como por exemplo, a Trindade.

Apesar de o pentecostalismo enfatizar a experiência, sempre houve no movimento pentecostal teólogos que exortavam à busca do conhecimento. Donald Gee afirma: “É preciso que as igrejas pentecostais acrescentem ao nosso ardente testemunho de experiência, esforço intelectual mais determinado a fim de expor com precisão a nossa fé. Não devemos nos deleitar com emoções profundas à custa de reflexões superficiais” (GEE, 2006, p. 68-69).

Conclusão

A Declaração de Fé das Assembleias de Deus constitui-se uma síntese da fé pentecostal assumida e declarada pela denominação. Trata-se de uma reafirmação das crenças pentecostais basilares e sob as quais nossa teologia e educação cristã devem caminhar.

Referências

GEE, D. Como Receber o Batismo no Espírito Santo. 6 ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

HORTON, S. M. (ed.). Teologia Sistemática: uma perspectiva Sistemática: uma perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.CPAD, 1996.

SILVA, Esequias Soares (org.) SILVA, Esequias Soares (org.) Declaração de fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: bleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.CPAD, 2017.

VINGREN, G. Diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.ro. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.

por Esdras Bentho

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