Da crítica textual à prática cristã

Da crítica textual à prática cristã


Inicialmente, é sabido que a Bíblia não foi escrita em português, mas, majoritariamente, em hebraico nos escritos do Antigo Testamento e em grego no Novo Testamento. Logo, o que temos na língua portuguesa são traduções, assim como em qualquer outro idioma nacional moderno que recepciona o texto bíblico. Nesse sentido, é válido salientar algo muito comum em relação à Bíblia: o uso intercambiável das expressões “texto original” e “língua original”, como se tivessem o mesmo sentido. É fato inconteste que os tradutores não dispõem dos autógrafos originais produzidos pelos escritores bíblicos. Em outros termos, não possuem o texto-fonte original como base para a tradução (texto-alvo).

Então, como se deu a transmissão do texto bíblico? Milhares de cópias e recopias manuscritas (nas línguas originais ou em idiomas antigos) foram produzidas ao longo do tempo, desde fragmentos textuais até coleções praticamente completas do Antigo Testamento e do Novo Testamento, além de inúmeras citações bíblicas. Em decorrência do método empregado (copiado à mão), gradualmente surgiram numerosas variantes textuais, cuja maioria esmagadora pode ser eliminada pela constatação de falhas não intencionais dos copistas, não comprometendo a mensagem do texto nem as doutrinas centrais da fé cristã.

Esse é o trabalho da Crítica Textual Bíblica, também denominada “Baixa Crítica”: investigar, analisar e comparar os manuscritos antigos e as demais evidências em prol da “reconstrução” do texto mais próximo possível dos originais (autógrafos), buscando, assim, a confiabilidade da transmissão textual ao longo dos séculos e a restauração do sentido original da Escritura, sempre na busca da precisão do texto original (autógrafo), que não existe mais. Esse trabalho laborioso resulta nas edições críticas da Bíblia nas línguas originais, com notas de rodapé (aparato crítico), baseadas na comparação minuciosa de todas as cópias antigas disponíveis, permitindo a visualização das variantes encontradas e dos critérios utilizados para que determinadas palavras fossem escolhidas no texto principal. deve-se ressalvar, contudo, que alguns desses critérios, como a antiguidade e a redação mais curta — considerados, de modo geral, como mais “confiáveis” — não podem prescindir de cautela em sua aplicação, sob pena de comprometer a lisura de suas conclusões críticas.

Ainda no escopo da Crítica Textual, a consolidação, em edições impressas, das “famílias” de cópias manuscritas antigas é de grande importância para os tradutores da Bíblia, pois fundamenta o trabalho a ser desenvolvido na tradução do texto, embora, atualmente, esse tipo de “escolha” tenha mais caráter norteador do que exclusivo e integral, debilitando o conceito de traduções “puras”, sob a perspectiva das principais tradições de textos hebraico/grego.

Vale, neste momento, ressaltar que a Assembleia de Deus, no campo da Bibliologia, historicamente, alinha-se aos postulados da Baixa Crítica (Crítica Textual) estando fundamentados na crença da inspiração (sopro) divina plenária e verbal da Bíblia. Isso, contudo, não significa descartar a possibilidade e a validade de uma investigação histórico-crítica do texto bíblico, desde que seus pressupostos não sejam refratários ao caráter sobrenatural da Bíblia nem resistentes aos seus atos miraculosos históricos, como ocorre, de modo geral, na Alta Crítica (Crítica Histórica), que encara a Bíblia como um livro estritamente humano, reflexo do seu contexto histórico e literário. Em outras palavras, se, por um lado, não é correto descartar a racionalidade como ferramenta de investigação, por outro, o racionalismo não pode ser o instrumento terminante na investigação bíblica.

Em suma, em relação à Crítica Textual, como esse processo histórico pode ser visto pelo leitor da Bíblia? Deus decidiu revelar-se nas Escrituras; logo, peremptoriamente, estas, por sua própria natureza, devem ser coerentes com o caráter divino, isto é, íntegras. Portanto, não é apenas razoável, mas também confiável, aceitar que a Palavra de Deus tanto foi produzida sobrenaturalmente quanto preservada providencialmente pelo Deus da Palavra.

Aliás, não menos importante do que a “reconstrução” do texto realizada pela Crítica Textual é o método empregado para sua tradução. Resumidamente, a Equivalência Formal intenta traduzir o texto original palavra por palavra, mantendo a estrutura sintática o mais próximo possível do original, no esforço de preservar a forma mais equivalente à forma do texto-fonte. A Equivalência Dinâmica busca traduzir o pensamento ou o significado da frase, ou seja, “ideia por ideia”, em vez de palavras isoladas, almejando clareza e fluidez na língua de destino. A Paráfrase é uma tradução livre, mais interpretativa e comentada do que propriamente tradutória, praticamente reescrevendo o texto para torná-lo extremamente claro e contemporâneo.

Dito isso, como o leitor da Bíblia deve encarar a multiplicidade de versões em português? Antes de tudo, posto que o mesmo Espírito que inspirou os escritores da Bíblia (2 Pedro 1.21), é também o Espírito que habita no leitor salvo em Cristo (1 Coríntios 3.16), então a recomendação inicial é: ore antes de ler a Bíblia, permaneça orando durante a leitura e não deixe de orar depois de terminá-la. Fazendo assim, estabelece-se um diálogo transcendental entre o Autor (divino) e o leitor (humano). A experiência com o texto bíblico não deve prescindir da experiência com o Espírito Santo.

Cultive diariamente a leitura devocional da Bíblia debaixo de muita oração e dependência do Espírito Santo. São fontes extremamente saudáveis de alimentação espiritual para a vida cristã. Tenha contato cotidiano com a Palavra de Deus. Habitue-se a ler a Bíblia em diferentes versões da língua portuguesa. O cotejo entre elas costuma ser esclarecedor para passagens aparentemente obscuras, como, por exemplo, em Gênesis 18.14: “este tempo da vida” (ARC) e “daqui a um ano” (ARA). O propósito precípuo da leitura (estudo ou devocional) deve balizar a escala de prioridades, levando-se em conta os métodos empregados para a tradução. Se for para estudo, a sugestão é: equivalência formal, dinâmica e paráfrase; para a leitura devocional, a ordem pode ser parcialmente invertida: equivalência dinâmica, formal e paráfrase.

Nos casos de evangelização e dos primeiros passos do discipulado do novo convertido, a paráfrase pode ter prioridade de leitura em um primeiro momento, mas, aos poucos, deve ser devidamente “encorpada” pela equivalência dinâmica e pela formal, nesta ordem, na definição dos parâmetros normativos das Escrituras como regra de fé e prática para a vida cristã.

A predileção do leitor por uma ou outra versão da Bíblia não deve implicar o descarte das demais. Afinal, sua vida foi transformada pela mensagem de salvação revelada pela Palavra de Deus, independentemente de sentenças mais curtas ou mais longas no texto, bem como de sua estrutura mais formal, mais dinâmica ou até mesmo parafraseada. O drama seminal da raça humana é o pecado, e sua solução está na obra expiatória e redentora de Cristo na cruz do Calvário, revelada nas páginas da Bíblia.

Portanto, a questão mais relevante não é se uma versão é melhor ou mais fiel ao original do que outras disponíveis no vernáculo. O mais importante é que os propósitos estabelecidos para a leitura sejam atendidos pelas versões selecionadas de forma consciente pelo leitor.

Outrossim, com o advento das redes sociais — que permitem aos seus usuários o compartilhamento de uma gama inesgotável de conteúdos —, diversas discussões de natureza acadêmica (como no caso da Crítica Textual avançada), mais apropriadas para espaços especializados, dada a relativa homogeneidade formativa dos envolvidos, têm sido arrastadas para a praça pública virtual, marcada por um perfil formativo extremamente heterogêneo de seus usuários.

Concluindo, não deveríamos ter tanta celeridade em criticar a qualidade do texto bíblico e, mais ainda, sua confiabilidade, a despeito da versão objeto da análise, especialmente em fóruns inapropriados para tal finalidade. Antes, sua leitura deve ser incentivada de todas as formas pelos representantes do Reino de Deus, tanto para a evangelização quanto para a consolidação da fé cristã. Devemos também ser gratos a Deus todos os dias pelas numerosas e variadas versões da Bíblia em português, haja vista o número expressivo de idiomas em escala mundial que, até hoje, não possuem sequer uma versão das Escrituras em seu vernáculo pátrio.

por Gil Monteiro Silva

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