Continuamos nossa reflexão sobre as características do bom obreiro, a partir da análise exegética de 1 Timóteo 3.1-7.
“Hospitaleiro” – Quando dividimos a palavra philoxenon
(“hospitaleiro”), temos philos, “amigo” ou “ser amigável”, e xenós,
“estrangeiros” ou “estranhos”. É alguém que recebe outro hospitaleiramente por
um período. Essa expressão sublinha que o oficial (superintendente) tinha o
dever de manter sua casa franqueada aos delegados que viajavam de igreja em
igreja (presbíteros, bispos ou mensageiros com cartas às igrejas) e aos membros
comuns que estivessem necessitados. Em Romanos 12.13, vemos a máxima:
“Comunicai [compartilhai] com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade”,
onde o mesmo termo é empregado. Este serviço mútuo, conforme John Kelly (1999),
(1) ao mesmo tempo caridoso e diplomático, desempenhava papel importante na
vida diária da igreja primitiva (1 Timóteo 5.10; Hebreus 13.2; 1 Pedro 4,9; 3 João
5ss) e cabia, primariamente, ao superintendente (Tito 1.8). No primeiro século,
era assim que a igreja local se portava. O bispo abria a receptividade do seu
lar para outros obreiros que estavam a serviço, trazendo notícias, cartas ou
mensagens, e até mesmo fugindo de perseguições. Mas a hospitalidade se aplica a
servos do Senhor em trânsito e em necessidade. “Servo do Senhor” - há crivo.
“Apto para ensinar” – Trata-se de um atributo
eclesiástico essencial para o bispado (pastorado ou supervisão). O termo transliterado
didaktikós reflete a necessidade de o candidato ser apto ou hábil no
ensino das Escrituras e dos aspectos doutrinários. O nosso Mestre, Jesus
Cristo, durante todo o Seu ministério terreno, ensinou e serviu (curou) abundantemente.
Em 2 Timóteo 2.24, o apóstolo Paulo enfatiza o mesmo perfil. Em João 6.45, o termo
aparece na forma passiva, quando o agente do ensino é Deus e os ensinados são
os que ouviram dEle. Em Tito 1.9, há a explicação do motivo pelo qual o bispo
deve ser apto a ensinar a sã doutrina: admoestar a igreja local e convencer os
contradizentes. Outrossim, em 1 Timóteo 4.13, Timóteo deveria dedicar-se à leitura
pública e à exposição da Palavra de Deus – orientação enfática do apóstolo ao
jovem pastor: dedicar-se ao ensino. Em Romanos 12.7, outra instrução é dada
quanto ao ensino: “que haja dedicação”. Aprofundamento, foco, meditação e temor
no estudo das Escrituras.
Percebemos grande carência de aprofundamento no texto em muitos
obreiros que instruem ou ministram sermões. Essa deficiência surge quando
obreiros são consagrados ao santo ministério sem possuir aptidão para o ensino.
Conhecer e falar sobre o texto bíblico é essencial. Viver e ensinar as
doutrinas bases, os pilares da nossa fé. O conteúdo bíblico é indispensável ao
candidato que almeja pleitear o episcopado. Na primeira parte de Tito 1.9, há a
preocupação de que o supervisor possua habilidade para explicar e sanar dúvidas
dos membros. Hoje, as dúvidas da membresia precisam ser sanadas O que é a Santa
Ceia? Por que precisamos do batismo? Como será, de acordo com a Bíblia, o fim
dos tempos? A igreja passará pela Grande Tribulação? etc. A segunda parte do
versículo trata da apologética interna na igreja local, contra os falsos
mestres.
“Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe
ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento” – Nesse versículo,
há paralelismo sintético, típico da literatura judaica. Características da
primeira parte do versículo correspondem às da segunda. “Não dado ao vinho” correlaciona-se
com “moderado”. A bebedice e a embriaguez são condenáveis aqui. Em certa ocasião,
em um sermão, o pastor Claudionor de Andrade (in memoriam) citou uma anedota na
qual comparou o homem embriagado a três animais. Na primeira fase da
embriaguez, o homem parece um “macaco”: faz algazarras, exageros, chama a
atenção. Num segundo estágio, parece um leão: briga com todos, é “valente”,
quer dominar o ambiente. No terceiro e último estágio, parece um porco:
torna-se imundo, deita-se no próprio vômito e exala mau cheiro. Essa,
certamente, não é a imagem de um líder que a igreja local precisa. A mesma
advertência é dada ao diaconato em 1 Timóteo 3.8 e aos bispos em Tito 1.7. Alguns
crentes mais liberais podem considerar exagero essa orientação, mas era um
perigo real na igreja em Corinto, Éfeso e Creta – e o é também hoje. Em
Corinto, alguns chegaram a se embriagar na Ceia (1 Coríntios 11.21). Moderação
expressa graciosa condescendência ou longanimidade, caráter apropriado, íntegro,
suave e gentil — como um pastor deve ser. Ou seja: a bebida alcoólica rouba a
razão e a moderação do bispo. Se alguém deseja ser obreiro, deve abster-se de
álcool.
“Não espancador” correlaciona-se com “não
contencioso”, ou seja, não pode ser brigão. O termo literalmente significa “não
alguém que dá murros [socos]”, não violento. Pode relacionar-se à brutalidade
que resulta da embriaguez (incluindo sentido metafórico — alguém bravo, como um
embriagado). Como o bispo representa o pastorado de Cristo, deve ser pacífico,
irradiar paz e tranquilidade aos irmãos. Um obreiro ríspido e brigão não cabe
no cargo que exerce.
“Não cobiçoso de torpe ganância” e “não avarento”
tratam do perfil de um obreiro que não se apega ao dinheiro, não labuta por
causa do ganho, não rouba o dinheiro da igreja local. O termo transliterado aphilárgyros
é composto por três partes: a (ausência de), phílos (amigo, aquele que
deseja) e árgyros (brilhante; coisas feitas de prata), ou seja, uma
pessoa que ama coisas de valor, especificamente a prata e o ouro. No nosso
caso, o dinheiro. Trata-se de um sujeito que não se aplica ao ministério pelo
ganho, pelo dinheiro. Se um candidato quer o episcopado por causa do salário,
não é digno dessa excelente obra.
“Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em
sujeição, com toda a modéstia, (porque, se alguém não sabe governar a sua
própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?)” – Os versículos 4 e 5 se
relacionam no sentido de completude e adição à explicação da fala anterior, ou seja,
o versículo 4 faz uma menção e o 5 reforça o conteúdo. A Carta Pastoral, como
toda a Bíblia, não foi escrita originalmente com capítulos e versículos, mas
como texto contínuo, sem separação de epígrafes. A atenção volta-se à questão
familiar (conduta familiar), que se reflete na conduta eclesiástica. A
associação feita por Paulo é notável. A passagem deixa claro que o cuidado com a
igreja local deve ser efetuado com tom fraterno — cuidado de pai para filho
(espiritualmente). Os destaques do texto são as expressões “governar”, “sujeição”
e “modéstia”. O governo ou gestão da comunidade cristã traz respeito e sujeição
da membresia, pois esse governo é feito com gentileza e modéstia. Outra
associação marcante é entre “casa” e “igreja de Deus”. O reflexo familiar é e
deve ser sentido na comunidade. Um pai que não zela pela família, cujos filhos
são desobedientes e indecorosos, não sujeitos à autoridade de governo em casa,
dificilmente exercerá um pastorado no qual a membresia se sujeite à autoridade
ou o respeite como anjo da igreja.
John Kelly (1999)2 comenta: “...uma pergunta retórica que é característica
do estilo de Paulo (cf. 1 Coríntios 14.7, 9, 16) [...] O apóstolo vê sua vida e
seus problemas refletidos em microcosmo naqueles da família humana, e dá a
entender que as mesmas qualidades, essencialmente, são necessárias para a
liderança em ambas: quanto à analogia, Efésios 2.19; 5.28; 6.9. Sem entrarmos
em análise detalhada, a comparação e, em especial, o uso dos verbos ‘governar’
e ‘cuidar de’, lançam uma luz reveladora sobre o papel de um superintendente de
congregação do século I”. O verbo προΐστημι,
transliterado proḯstēmi,
pode ser traduzido como: “estar à frente, colocar sobre proteger (guardião),
dar ajuda, cuidar ou dar atenção”. O verbo ἐπιμελέομαι,
transliterado epimeléomai, traduz-se: “cuidar de uma pessoa ou coisa”.
Paulo intercambia o cuidado e governo (casa e Igreja) como qualificação
necessária ao candidato.
“Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação
do diabo” – O contexto aqui fala sobre novos convertidos que rapidamente
ascendem ao ministério. Isso é perigoso! Caso alguém nessa condição seja levantado,
pode se ensoberbecer (“encher-se de fumaça” – metáfora no grego), ficando cego
pela neblina da soberba e arrogância, por ter adquirido posição de governo rapidamente.
O fracasso ministerial estará o esperando logo mais à frente, em sua caminhada.
Esta é a única ocorrência do termo “neófito” no Novo Testamento, mas Paulo,
segundo John Kelly, (3) emprega a mesma metáfora em 1 Coríntios 3.6. O
versículo é categórico: “não consagrem neófitos!” Paulo explica o que
acontecerá, caso essa declaração não seja levada em conta: “o candidato se encherá
de orgulho”. Ele finaliza com a consequência desse orgulho: “cairá na
condenação do diabo”. Paulo é didático e categórico com essa ação.
“Convém, também, que tenha bom testemunho dos que estão de
fora, para que não caia em afronta e no laço do diabo” – Esse é o último
versículo da perícope referente aos bispos. Ele se associa ao versículo
anterior acerca do neófito, de cunho estritamente social. Repare que o
paralelismo é visto também: a parte final do versículo anterior com a parte final
do texto atual: “Não caia na condenação do diabo” (v. 6); “Para que não caia em
afronta e no laço do diabo” (v. 7). O termo “convém” é mais que uma sugestão, é
uma palavra contrária à ordenação do neófito. No texto, o “convém” pode ser
traduzido por “pelo contrário”, “é necessário”, “além disso”, mostrando um complemento
negativo ao versículo anterior. O motivo pelo qual não se pode consagrar o
neófito é expandido no versículo 7: ele precisa ter tempo para que os de fora
deem bom testemunho dele. O testemunho é o aspecto social esperado aqui. O
neófito precisa de tempo para provar seu bom testemunho, que convém ao perfil de
bispo. Assim, a perícope da conduta do bispo aborda aspectos familiares,
sociais, espirituais e eclesiásticos.
Notas
(1) KELLY, J.N.D. I e II Timóteo e Tito – Introdução e
Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, p.78.
(2) KELLY, J.N.D. I e II Timóteo e Tito – Introdução e
Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, p.80.
(3) Ibidem
por Filipe Abreu de Oliveira
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