A consequência da chamada "atualização" da Bíblia é o relativismo ético e doutrinário que mina a clareza e a supremacia das Escrituras
Nas últimas décadas, movimentos teológicos liberais e progressistas têm defendido uma “atualização” da Bíblia para adaptar sua mensagem à mentalidade contemporânea. Esse modelo de abordagem rejeita sua revelação divina e autoridade transcendente. A consequência é um relativismo ético e doutrinário que mina a clareza e a supremacia das Escrituras. Este artigo analisa o surgimento do liberalismo teológico, a reação da ortodoxia no resgate do Cristianismo bíblico, e apresenta a imprescindível necessidade de defesa da inspiração, infalibilidade, inerrância e autoridade das Escrituras.
A gênese do liberalismo teológico e sua influência
Na virada do século 18 para o 19,0 Iluminismo exaltou a
razão crítica e a autonomia humana, desencadeando tensões com a autoridade
bíblica. Influenciado pelas ideias iluministas, o teólogo alemão Friedrich
Schleiermacher (1768-1834) colocou em dúvida a historicidade da Bíblia, “sua
concentração era na consciência humana [racionalismo], em vez da revelação. (1)
Essa abordagem provocou efeitos destrutivos sobre a teologia bíblica, reduziu a
Escritura a um documento humano, abrindo caminho para interpretações críticas e
fluidas – matriz do liberalismo teológico.
No século 20, o teólogo Rudolf Bultmann questionou a
veracidade das Escrituras e propôs um processo de desmitologização do Novo
Testamento. Para Bultmann, a Bíblia só é crível se dela extirparmos os mitos –
milagres, sinais, teofanias e outras revelações sobrenaturais. (2) O teólogo de
Marburg escreveu que “a visão bíblica do mundo é mitológica e, portanto, é
inaceitável para o homem moderno, cujo pensamento tem sido modelado pela
ciência e já não tem mais nada de mitológico. (3) Somado a isso, o método hermenêutico
proposto por ele busca redescobrir o significado oculto atrás das concepções
mitológicas.
Após a Segunda Guerra Mundial (1945) e com o avanço das universidades
e centros teológicos ecumênicos, o Brasil foi influenciado por essas correntes liberais
e progressistas oriundas da Europa e da América do Norte. O academicismo de
teologia liberal adotou perspectivas histórico-críticas, relativizando à
interpretação das Escrituras em oposição ao conservadorismo teológico que se
fundamenta na revelação bíblica. Acadêmicos alinhados ao pensamento teológico
liberal passaram a questionar a inspiração e a inerrância bíblicas, defendendo
uma leitura “contextualizada” ou “atualizada” e propondo a reinterpretação e/ou
a ressignificação das doutrinas da fé.
Entre outros males, o liberalismo substitui a mensagem da
salvação de arrependimento, confissão de pecados e mudança de caráter por uma
visão progressista que enfatiza a transformação social pelo paradigma marxista.
O pecado é relativizado, prega-se o ecumenismo religioso e toda a experiência espiritual
é considerada válida. Embora alguns proponham tal abordagem como uma forma de diálogo
com a cultura contemporânea, na prática ela resulta na diluição doutrinária,
relativização ética e comprometimento da fé bíblica histórica. O desafio atual
é manter a fidelidade ao texto sagrado, sem ceder às pressões culturais, nem ao
espírito desse tempo: “E não sejais conformados com este mundo, mas sede
transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual
seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12.2). “Toda a
Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para repreender,
para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja
perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2 Timóteo
3.16,17)
A crítica às doutrinas tradicionais, bem como a releitura
dos milagres e eventos sobrenaturais como sendo símbolos ou mitos, causa
inevitáveis consequências ao Evangelho, tais como “incredulidade, leniência
para com o pecado, relativismo moral e ético, relaxo para com a evangelização
etc.” Desse modo, a teologia ortodoxa, em defesa da ortodoxia, tem se
posicionado fortemente contra o liberalismo e qualquer tentativa de
“atualização” doutrinária da Bíblia, defendendo a inspiração, a inerrância e a
suficiência das Escrituras como a única, suprema e inquestionável árbitra em
matéria de fé e prática.
Liberalismo teológico e o relativismo doutrinário
Na língua portuguesa, a palavra “relativismo” tem origem no
latim relatus, que significa “aquilo que é relativo”, que depende de
alguma coisa. A ideia central dessa teoria é de que não existe verdade
absoluta. O filósofo grego Pirro de Élis (360-270 a.C.) desenvolveu o conceito
de que coisa alguma pode ser afirmada com certeza absoluta, e Protágoras (490-410
a.C.) tornou-se famoso pela citação “O homem é a medida de todas as coisas”.
Essa teoria afirma que a verdade não é algo fixo, mas, sim, que sofre modificações
e está condicionada a cada sociedade de acordo com a época e sua cultura.
Nessa perspectiva, alega-se que a ética e a moral cristã não
podem ser parâmetro para o modo de vida e a visão de mundo das pessoas. Nesse
conceito, a fé cristã é vista como o construto da sociedade e precisa ser
ajustada aos tempos modernos. O relativismo aliado à ideologia secularista
impõe o que deve ser considerado como ideal. Desse modo, na pós-modernidade, mercê
do liberalismo teológico de desconstrução da fé ortodoxa, a autoridade bíblica
é contestada e o relativismo doutrinário é instalado. Faz-se releitura seletiva
da Bíblia para agregar à igreja os que não aceitam a sã doutrina. Como
vaticinado pelo apóstolo Paulo, “virá tempo em que não suportarão a sã
doutrina; mas, tendo coceira nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme
as suas próprias concupiscências” (2 Timóteo 4.3).
Nessa visão, a ética e a moral são valores decididos pela sociedade,
e as noções de certo e errado estão condicionadas às circunstâncias da cultura
de cada época. Desse modo, a ética passa a satisfazer a consciência de cada um,
isto é, o que é certo para um pode não ser certo para o outro. Às teologias
progressistas adotaram essas premissas liberalistas, aceitando múltiplas verdades
religiosas e revisando doutrinas bíblicas à luz de agenda política
contemporânea. A verdade tornou-se subjetiva e cada um passou a construir sua moral
e fé individualmente – um relativismo ético e doutrinário. Nesse aspecto,
defensores da “atualização da Bíblia” buscam reinterpretar as doutrinas da fé
conforme valores modernos, corroendo a autoridade bíblica.
Nesse contexto, os temas centrais da “atualização” da Bíblia
são de reinterpretação doutrinária e revisão ética, Entre eles destacam-se: (I)
o questionamento da inerrância e infalibilidade da Bíblia, retirando sua
veracidade; (II) a relativização da ética sexual bíblica em defesa da
homoafetividade; (III) a releitura dos milagres e eventos sobrenaturais, como
meros símbolos ou mitologia; e (IV) a negação do caráter penal da cruz, sob a
alegação de que a morte de Jesus seria apenas um ato de solidariedade, e não uma
necessidade de satisfazer a justiça divina. Ensinam que Cristo sofreu junto com
o mundo, e que Ele não o julga e nem o pune. Assim, o pecado não precisa ser castigado
e o Evangelho torna-se apenas uma “mensagem de amor” próxima a um universalismo
coletivo.
Mercê desse cenário, o pecado é aceito e tolerado. Essa ausência
de verdade objetiva para se medir comportamentos fragmenta a sociedade, a vida humana
perde o sentido e os valores são desconstruídos. Nesse sentido, a ética
relativista influencia o ser humano à práxis do relativismo individual e o
deixa suscetível à condenação eterna. Esse relativismo conduz à sociedade pela
trilha do “politicamente” correto, promove o patrulhamento ideológico e o
afastamento deliberado da presença de Deus. A respeito disso, até Platão e
Aristóteles reconheciam que os padrões de moralidade sofriam variações, mas
alertavam “que a verdade e o bem são objetivos e absolutos, e que a sociedade
se fragmenta e a vida humana perde seu valor quando o relativismo é defendido e
praticado”.
A reação ortodoxa e a afirmação da supremacia das
Escrituras
A cultura pós-moderna, marcada pelo subjetivismo radical,
intensificou a rejeição das verdades absolutas, inclusive no campo da fé
cristã. Essa visão comprometeu a forma de interpretação e aplicação das Escrituras
na contemporaneidade. Nesse escopo, o liberalismo teológico foi um dos
responsáveis por minar as doutrinas fundamentais da fé cristã, como a inspiração
divina, a suficiência e a inerrância das Escrituras. Ao reinterpretar a Bíblia
como um documento meramente humano, sujeito às limitações culturais e históricas,
esse movimento permitiu que verdades doutrinárias fundamentais fossem
relativizadas e moldadas de acordo com os valores do tempo presente.
Frente a essa ameaça, a teologia ortodoxa encontra-se
empenhada em ratificar a supremacia das Escrituras como fundamento da fé.
Teólogos conservadores reiteram que a Bíblia é a Palavra de Deus, verbalmente
inspirada, inerrante, infalível e plenamente suficiente. A hermenêutica
confirma que a tradução do grego theopneustos – “divinamente inspirada”
(2 Timóteo 3.16) – significa literalmente “soprada por Deus”. A exegese
ressalta que o sentido dessa expressão somente pode ser usado no passivo. Isso
implica “não que a Escritura seja inspiradora (embora isso seja verdade), mas
que a Escritura é um produto divino, devendo ser encarada e validada como tal”.
Além disso, as doutrinas da inerrância e da infalibilidade
bíblicas foram sistematizadas com clareza na Declaração de Chicago (1978). A
síntese dessa doutrina é que a Bíblia não falha e não erra; ela é a verdade em
tudo quanto afirma (Mateus 5.178; João 10.35). Não se refere apenas às questões
de ordem espiritual ou da conduta ética e moral. A inerrância ilimitada e a
infalibilidade total do texto bíblico também se aplicam aos registros
históricos e aos fatos científicos. Geisler registra que “tudo o que a Bíblia
afirma, seja no campo da Teologia, ou da Ciência e da História, ela o faz sem
errar”.
Nesse diapasão, para a teologia pentecostal, a suficiência
das Escrituras significa que “tudo que Deus tem para o homem e requer do homem,
e tudo o que o homem precisa saber espiritualmente da parte de Deus, quanto à
sua redenção, conduta cristã e felicidade eterna, está revelado na Bíblia”. A
Declaração de Fé da Assembleia de Deus confirma essa compreensão ao proferir
que “não necessitamos de uma nova revelação extraordinária ou pretensamente
canônica para à nossa salvação e o nosso crescimento espiritual”.
A ortodoxia também se opôs à hermenêutica pós-moderna
centrada no leitor. Ao contrário dessa abordagem, que transforma o texto em um
campo aberto de significados, a ortodoxia sustenta que a interpretação bíblica
deve buscar o sentido original intencionado pelo autor inspirado, sob a
iluminação do Espírito Santo. O que a igreja crê e professa deve ser
interpretado à luz da própria Escritura (Atos 17.11). Nenhuma das técnicas ou
métodos de interpretação está acima da autoridade da Palavra de Deus.
Desafios contemporâneos: o pós-liberalismo e a educação
teológica
O pós-liberalismo teológico surgiu no final do século 20
como uma reação ao liberalismo teológico clássico. Destacam-se, na chamada
“Escola de Yale”, o teólogo norte-americano George Lindbeck (1923-2018) e o
alemão Hans Frei (1922-1988), que propuseram uma leitura baseada na narrativa e
na prática comunitária da fé cristã. Em virtude desse pressuposto, o
pós-liberalismo também é conhecido como teologia narrativa. Para seus adeptos,
as doutrinas da fé cristã não valem para todas as pessoas do mesmo jeito. Em
vez disso, acreditam que a maneira de entender o Cristianismo é por meio das
histórias que estão na Bíblia e como essas histórias são vividas e contadas
pela comunidade cristã ao longo do tempo. Nesse aspecto, a interpretação da
comunidade modela a crença e o comportamento.
Apesar de ser crítico ao liberalismo teológico, o
pós-liberalismo não propõe voltar ao conservadorismo bíblico, que lê a Bíblia
de forma literal conforme o método hermenêutico histórico-gramatical. Segundo leciona
Silva, “a teologia pós-liberal propõe um novo modelo hermenêutico que valoriza
a narrativa bíblica dentro da tradição da fé cristã, sem recorrer ao
literalismo estreito”. Nessa esteira, mesmo teologias que repudiam o
liberalismo às vezes caem na armadilha do pós-liberalismo, que não raro
estimula a subordinação de doutrinas fundamentais a experiências e contextos culturais.
McGrath avalia que a proximidade do pós-liberalismo com a neo-ortodoxia acaba,
de certo modo, também relativizando as Escrituras.
Não obstante, as tendências pós-liberais avançam dentro da
teologia acadêmica. Por conseguinte, o atual desafio da educação teológica é o
de resgatar o Cristianismo bíblico, em que os cristãos sejam formados para ler
o mundo sob a Escritura, e não a Escritura sob as ideias do mundo. Diante do
relativismo doutrinário contemporâneo, a reação ortodoxa não apenas defende a
supremacia bíblica, mas também chama a Igreja a um retorno consciente às
Escrituras como fonte normativa de autoridade. O compromisso com a centralidade
da Palavra de Deus é, portanto, essencial para preservar à integridade da fé
cristã frente às pressões culturais e filosóficas da pós-modernidade. Assim,
reafirmar a supremacia bíblica no contexto atual não é apenas um ato de
resistência doutrinária e teológica, mas um imperativo eclesiástico e missional
para a Igreja do século 21.
Em relação a isso, se faz urgente na igreja e na academia a
defesa contundente das Escrituras como autorrevelação divina (Pedro 1.20-21; 2 Timóteo
3.16); o ensino exegético e pragmático da autoridade infalível da Bíblia que
não pode ser relativizada; e a conscientização de que as doutrinas bíblicas são
universais e imutáveis de geração a geração (Salmos 100.5; Mateus 24.35).
Somente pseudocristãos absorvem pautas. progressistas e são seduzidos pela
ética doutrinária relativista. Logo, a leitura crítica que classifica a
ortodoxia como intolerante e intransigente torna-se falaciosa, uma vez que a
práxis do autêntico cristão “ensina-lhe a tolerar as diferenças culturais, mas lhe
ensina também que existem limites para a tolerância ética”.
Conclusão
A tentativa de “atualizar” a Bíblia à luz de ideologias
progressistas ou relativistas é um movimento de desconstrução da Palavra de
Deus. A inspiração, a inerrância, a infalibilidade e a soberania das Escrituras
são fundamentos da autoridade das Escrituras. Defender esses princípios
significa preservar a glória de Deus e a verdade que liberta (João 8.32). À
Igreja contemporânea, para ser fiel ao Evangelho, deve resgatar uma
hermenêutica que exalte a Palavra de Deus como norma final, independentemente
das correntes culturais, e formar discípulos com mente e coração submetidos à
suprema autoridade bíblica. A resistência ao “atualizar” da Bíblia é, portanto,
imperativa para a integridade doutrinária, teológica e espiritual da Igreja.
Notas
(1) GONZÁLES, Justos. Uma História do Pensamento Cristão: da
Reforma Protestante ao Século 20. Vol. 3. São Paulo: Editora Cultura Cristã,
2015, p. 344
(2) GILBERTO, Antonio (Ed). Teologia Sistemática
Pentecostal. Rio de Janeiro: (CPAD, 2008, p. 23.
(3) BAPTISTA: Douglas. A Igreja Eleita: redimida pelo sangue
de Cristo e selada com o Espírito Santo da promessa. Rio de Janeiro: CPAD,
2020, p. 51.
Referências Bibliográficas
BAPTISTA, Douglas. A igreja de Cristo e o império do mal:
como viver neste mundo dominado pelo Espirito da Babilônia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2023.
BAPTISTA, Douglas. A Igreja Eleita: redimida pelo sangue de Cristo
e selada com o Espírito Santo da promessa. Rio de Janeiro: (CPAD, 2020.
BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. São Paulo:
Editora Novo Século, 2000.
COMFORT, Philip Wesley (Ed). À Origem da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 1998.
DORRIEN, Gary. O Futuro da Teologia Pós-Liberal. The Christian Century, July 18-25,
2001.
DULCI,
Pedro. Sobre tentativas recentes de repensar antigas questões: um breve
comentário sobre a ortodoxia radical. Invisible College, 2019.
GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD,
vol. 1,2010.
GILBERTO, Antonio (Ed). Teologia Sistemática Pentecostal.
Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
GILBERTO, Antonio. Bibliologia: Introdução ao estudo da Bíblia.
Campinas: EETAD, 2007.
GONZÁLES, Justos. Uma História do Pensamento Cristão: da Reforma
Protestante ao Século 20. Vol. 3. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2015.
HENRY, Carl (Org). Dicionário de Ética Cristã. São Paulo:
Editora Cultura Cristã, 2007.
HOLMES, A. Ética: as decisões morais à luz da Bíblia. Rio de
Janeiro: CPAD, 2013.
HORTON, Stanley. Teologia Sistemática: uma perspectiva
pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1997.
MENZIES, William W. Doutrinas Bíblicas: os fundamentos da nossa
fé. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
SILVA, Enoque Feitosa da. Teologia Pós-Liberal: fundamentos e
perspectivas. Revista Teologia & Ciência da Religião, 2017.
STARLING. David L. Hermenêutica: a arte da interpretação ensinada
pelos próprios escritores bíblicos. Rio de Janeiro: CPAD, 2019.
por Douglas Roberto de Almeida Baptista
Compartilhe este artigo. Obrigado.

Postar um comentário
Seu comentário é muito importante