Progressismo cristão: a fé em risco

Progressismo cristão: a fé em risco


O Evangelho não é plataforma de engenharia social, mas poder de Deus para a salvação do ser humano por meio de Cristo

Agostinho de Hipona, em sua busca pela verdade, aderiu por quase nove anos ao maniqueísmo, movimento dualista que prometia explicar o mal separando rigidamente os princípios do bem e do mal (MC-GRATH, 2007, p. 94). Insatisfeito com suas respostas simplistas, abandonou a doutrina e, já convertido, tornou-se seu crítico ferrenho. Em resposta a Fausto de Mileve, líder maniqueísta, afirmou: “Acreditar no que lhe agrada e rejeitar o que não lhe agrada é acreditar em si mesmo, e não no evangelho” (MCGRATH, 2005, p. 346; 351; 507). O mesmo princípio de selecionar partes da fé e reinterpretá-las à luz de outra cosmovisão ressurge hoje no progressismo cristão. Andrew Springer (2022), que se identifica como cristão gay e progressista, membro de uma igreja liderada por duas pastoras lésbicas, descreve essa vertente não como um sistema definido pela ortodoxia (crer corretamente), mas pela ortopraxia (agir corretamente). Para ele, Jesus não fundou uma religião institucional, mas inaugurou um modo de vida centrado no amor. Nessa perspectiva, causas como igualdade de gênero, defesa de minorias, justiça social e preservação ambiental tornam-se o núcleo da fé, substituindo a centralidade doutrinária pela primazia da prática ética e relacional.

É nesse ponto que a análise de Lisa Dundov Lynch (2022) se torna particularmente relevante. Ela demonstra que o progressismo cristão não é uma simples variação teológica inofensiva, mas a mais recente expressão do liberalismo teológico, agora remodelado pelos pressupostos da filosofia pós-moderna. Segundo Lynch, o progressismo cristão adota ceticismo epistemológico, relativismo moral e pluralismo típicos da pós-modernidade, revestidos de linguagem cristã para aparentar ortodoxia. Isso se expressa por:

a) Reorientação hermenêutica – A Bíblia é tratada como produto cultural, sujeita à reinterpretação seletiva conforme valores atuais.

b) Revisionismo doutrinário – Doutrinas centrais, como pecado original, expiação substitutiva e ressurreição corporal, são minimizadas ou transformadas em metáforas.

c) Foco antropocêntrico – A ênfase desloca-se da obra redentora de Deus para a experiência pessoal e o ativismo social.

d) Inclusivismo pós-moderno – Afirmações exclusivas sobre Cristo são relativizadas, abrindo espaço para o pluralismo religioso.

e) Continuidade liberal – Embora com nova roupagem, mantém a lógica do liberalismo teológico histórico, que conciliava fé e pensamento dominante à custa da ortodoxia.

Para Lynch, o perigo está na habilidade do movimento de conservar um vocabulário cristão enquanto altera seu significado, produzindo uma “mutação teológica” que se ajusta às sensibilidades modernas, mas se afasta do evangelho histórico.

Na mesma direção, porém com foco nos pressupostos filosóficos subjacentes, Alicia Garcia (2020) observa que o progressismo cristão se apoia em ideias que o distanciam das bases históricas da fé bíblica. Entre elas, destaca-se o relativismo aliado ao pluralismo, caracterizado por elevada tolerância cultural e religiosa que, não raramente, enfraquece ou relativiza afirmações absolutas da fé. Nesse contexto, torna-se comum a aceitação de múltiplos caminhos espirituais como igualmente válidos, em contraste direto com a exclusividade de Cristo no evangelho bíblico (João 14.6). Essa postura vem acompanhada da tendência de reinterpretar a Bíblia como mero registro cultural e espiritual, em vez de revelação inspirada e autoritativa. Os textos considerados “difíceis” são adaptados ou descartados para se alinharem aos valores culturais contemporâneos.

Outro ponto central, conforme Garcia, é a ênfase no indivíduo, que desloca o foco de verdades objetivas para experiências pessoais e percepções subjetivas de Deus, tornando a moralidade flexível e moldada por sentimentos e contextos. Nessa redefinição doutrinária, elementos essenciais — como o pecado original, a expiação substitutiva e a ressurreição literal de Cristo — são minimizados ou reinterpretados.

Por fim, há a priorização de causas sociais, como justiça social, ecologia e inclusão, que, embora legítimas, deixam de ser implicações do evangelho para se tornarem o seu núcleo redefinido. Essa inversão produz uma espiritualidade predominantemente horizontal, centrada no bem-estar coletivo, mas que enfraquece a ênfase bíblica na reconciliação do ser humano com Deus. Como observa Alisa Childers, os progressistas não são apenas cristãos mudando de opinião sobre questões sociais ou políticas — eles frequentemente negam doutrinas essenciais, pregando assim um evangelho inteiramente diferente.

Justiça do Reino: o padrão divino contra os falsos evangelhos

O progressismo cristão sugere que só sua agenda garante compromisso real com a justiça social. Isso é falso. A pergunta não é se devemos lutar por justiça, mas qual justiça — e qual o seu fundamento. A justiça bíblica não nasce de ideologias humanas, mas do caráter santo e imutável de Deus (Salmos 89.14; Isaías 61.8). Não é produto da luta de classes, do relativismo moral ou de políticas identitárias, mas fruto da obediência à Palavra (Malaquias 6.8; Provérbios 31.8-9), que é a verdade (João 17.17). O Reino exige uma justiça teocêntrica: amar o que Deus ama, praticar misericórdia e andar humildemente com Ele (Miqueias 6.8), defender o órfão e a viúva (Isaías 1.17; Tiago 1.27) e cuidar dos “pequeninos” (Mateus 25.31-46). Já o progressismo redefine justiça segundo padrões humanos (Isaías 5.20), relativiza o pecado (Romanos 1.18-32) e submete a moral ao consenso cultural (2 Timóteo 4.3-4). O perigo é vestir a mentira com a linguagem da verdade (2 Coríntios 11.13-15), negar a autoridade da Escritura (João 17.17), trocar a cruz pela aceitação social (Gálatas 1.10) e substituir arrependimento por autoafirmação (Atos 17.30). O Evangelho não é plataforma de engenharia social, mas poder de Deus para salvação (Romanos 1.16). A missão da Igreja é proclamar Cristo crucificado (1 Coríntios 1.23), discipular as nações (Mateus 28.19-20) e viver em santidade (Hebreus 12.14), não diluir a verdade para obter aplausos (João 15.18-19). O cristianismo progressista não é avanço, mas retorno ao Éden caído: o homem se tornando a medida de todas as coisas (Gênesis 3.5), rejeitando o senhorio de Deus e pregando “outro evangelho” (2 Coríntios 11.4).

A verdadeira justiça pregada pelo cristão é decorrente da fidelidade a Cristo, e não à pauta progressista

Uma das teses centrais do progressismo cristão é que a fé não precisa de ortodoxia (crer corretamente), mas apenas de ortopraxia (agir corretamente). Biblicamente e historicamente, tal separação é impossível. Desde os primeiros séculos, a Igreja confessou que a prática só é cristã quando enraizada na verdade revelada (2 Tessalonicenses 2.15; Judas 3). Jesus vinculou o amor à obediência a Seus mandamentos (João 14.15), e João advertiu que quem não permanece “na doutrina de Cristo” não tem Deus, ainda que aparente fazer o bem (2 João 9-11) (KRUGER, Michael J.; KRUGER, Andreas J. 2012, p. 82). Desvincular ortopraxia de ortodoxia cria um cristianismo de fachada — obras sem fundamento, fé sem conteúdo e moralidade moldada pelo espírito da época. A justiça bíblica é inseparável da verdade (Salmos 119.142; Isaías 59.14). Quando praticada segundo padrões humanos, sem submissão à autoridade divina, torna-se rebelião disfarçada (Isaías 5.20; Mateus 7.21-23).

A narrativa progressista sugere que apenas sua pauta responde às demandas sociais, mas isso é falso. A justiça, segundo Deus, não nasce de ideologias, mas do Seu caráter santo e imutável (Salmos 89.14; Isaías 61.8). O cristão não precisa vestir cores partidárias para lutar pelo justo; basta ser fiel à Palavra, que equipa para agir com misericórdia, equidade e verdade (Malaquias 6.8; Provérbios 31.8-9; João 17.17). A Escritura ordena defender o pobre (Provérbios 14.31), proteger o órfão e a viúva (Isaías 1.17; Tiago 1.27), agir com honestidade (Levíticos 19.35-36) e tratar o estrangeiro com dignidade (Deuteronômio 10.18-19). Essa justiça é teocêntrica e visa à glória de Deus (1 Coríntios 10.31), não capital político ou aprovação cultural. Quando definida por categorias seculares — luta de classes, relativismo moral, políticas identitárias —, ela deixa de ser justiça e se torna caricatura ideológica (Colossenses 2.8; Romanos 12.2).

Fora de Cristo, toda tentativa de justiça é parcial e temporária; nEle, é plena, eterna e inseparável da santidade (Jeremias 23.5-6; 2 Coríntios 5.21; Efésios 4.24). O evangelho não é instrumento de engenharia social, mas poder de Deus para salvação (Romanos 1.16), e a missão da Igreja é proclamar Cristo crucificado (1 Coríntios 1.23), discipular as nações (Mateus 28.19-20) e viver em santidade (Hebreus 12.14), confrontando o mundo com a verdade — não diluindo-a para obter aplauso (João 15.18-19).

O Deus que defende os fracos: justiça social sob a perspectiva bíblica

A legislação bíblica apresenta princípios claros de justiça s o c ia l, proteção e dignidade para os mais vulneráveis. Aos pobres e necessitados, proibia-se a exploração econômica e a cobrança de juros abusivos (Êxodo 22.25; Levíticos 25.35-37; Deuteronômio 23.19-20); determinava-se o cancelamento de dívidas no sétimo ano (Deuteronômio 15.1-2); garantia-se o descanso sabático a todos, inclusive servos e estrangeiros (Êxodo 20.8-11; Deuteronômio 5.12-15); assegurava-se o direito de respiga (Levíticos 19.9-10; Deuteronômio 24.19-21) e, no Ano do Jubileu, a restituição de propriedades e libertação de escravos hebreus (Levíticos 25.8-17). Aos estrangeiros, a lei assegurava tratamento igual (Levíticos 24.22; Números 15.15-16), proibia a opressão (Êxodo 22.21; Êxodo 23.9; Levíticos 19.33-34) e permitia participação em festas religiosas mediante compromisso com a aliança (Êxodo 12.48-49). Aos órfãos e viúvas, vedava-se qualquer opressão (Êxodo 22.22-24), garantindo acesso à respiga (Deuteronômio 24.19-21) e justiça nos tribunais (Deuteronômio 24.17; Deuteronômio 27.19) (SEELY, David Rolph; SEELY, Jo Ann H. 2022; KRAMER, 2010). Os trabalhadores tinham direito a salário justo e pago no mesmo dia (Levíticos 19.13; Deuteronômio 24.14-15), descanso semanal inclusive para animais (Êxodo 23.12) e colher alimento diretamente para matar a fome (Deuteronômio 23.24-25). Entre as normas sobre servos e escravos, havia a libertação no sétimo ano com provisões (Êxodo 21.2-6; Deuteronômio 15.12-15), a proibição de violência letal (Êxodo 21.20-21) e a proteção do escravo fugitivo, que não deveria ser devolvido (Deuteronômio 23.15 -16) (R HODES, 2019; BRUEGGEMANN, 1994).

No campo jurídico, determinava-se a proibição de suborno (Êxodo 23.8; Deuteronômio 16.19), a exigência de duas ou três testemunhas (Deuteronômio 19.15) e a punição proporcional para falso testemunho (Deuteronômio 19.16-19). Quanto aos devedores, não se podia tomar como penhor instrumentos de trabalho ou itens essenciais de sobrevivência (Êxodo 22.26-27; Deuteronômio 24.6, 10-13). Por fim, havia cuidado com o meio ambiente e os animais, como o descanso da terra no sétimo ano para benefício de pobres e animais (Êxodo 23.10-11), o respeito ao animal de trabalho (Deuteronômio 25.4) e a preservação da vida animal (Deuteronômio 22.6-7).

A tensão escatológica: o “já” e o “ainda não”

Steve Land (2010, p. 3) adverte que tentar sanar plenamente as tensões sociais apenas com instrumentos humanos é um equívoco fundamental. A fé pentecostal reconhece que vivemos no espaço paradoxal entre o “já” e o “ainda não” do Reino de Deus. Esquecer-se do “ainda não” conduz à ilusão de instaurar o paraíso na Terra pela força de governos, ideologias ou engenharias sociais — como se a plenitude do Reino pudesse ser antecipada por nossas mãos. Por outro lado, negligenciar o “já” produz imobilismo e omissão, negando o chamado de Deus para refletir, aqui e agora, a justiça, a misericórdia e a bondade que já irromperam na história em Cristo (Lucas 4.18-19; Mateus 5.13-16).

Essa tensão é intrinsecamente escatológica e não será dissolvida por estruturas humanas. Ela será finalmente resolvida apenas quando “os reinos do mundo se tornarão do nosso Senhor e do seu Cristo” (Apocalipse 11.15), e Ele reinará para sempre. Até lá, a Igreja é chamada a viver como colônia do Rei no em meio a este mundo (Filipenses 3.20), atuando na transformação da sociedade, mas consciente de que a redenção plena é obra exclusiva de Deus. Esse equilíbrio preserva a esperança, impede o ativismo utópico e protege contra a passividade cúmplice, mantendo-nos enraizados na promessa de que Aquele que começou a boa obra há de completá-la até o dia de Cristo Jesus (Filipenses 1.6).

Conclusão

Agostinho já advertia: “aceitar no Evangelho apenas o que agrada e rejeitar o que confronta é crer em si mesmo, não em Cristo”. Essa lógica sustenta o progressismo cristão, que reinterpreta a Escritura como produto cultural, relativiza doutrinas centrais, desloca o foco da obra redentora para a experiência humana e pluraliza a exclusividade de Cristo. Ontem, no liberalismo teológico; hoje, com a retórica inclusiva e uma “justiça social” dissociada da santidade. Contra isso, a Igreja não negocia a verdade: a justiça que Deus exige nasce do Seu caráter santo e é inseparável da verdade revelada. O evangelho não é manifesto político, mas o poder de Deus para salvação. Cabe-nos rejeitar qualquer “outro evangelho” (Gálatas 1.6-9) e proclamar o Cristo crucificado e ressurreto, vivendo a justiça do Reino no “já” e no “ainda não” — justiça que começa na reconciliação com Deus e se estende ao amor ativo pelo próximo, sem se curvar às modas ideológicas do momento.

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MCGRATH, Alister E. Teologia histórica: uma introdução à história do pensamento cristão. Tradução de Juliana A. F. Bráz. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.

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por Jonas Junior Mendes

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