Todos os seres humanos precisam de três tipos de ajuda, que se completam: a ajuda externa (parentes, amigos etc.), a ajuda interna (autoajuda) e a ajuda superna (ajuda divina)
Lembro-me de quando comecei a escrever, em 1993. Aos 23 anos, eu era presbítero na Assembleia de Deus em São Paulo e dava aulas de evangelismo na FAESP (Faculdade Evangélica de São Paulo), no Belenzinho. Naquela época, eu tinha muitos sonhos (projetos), mas nunca tinha passado pela minha cabeça de que pudesse, um dia, ser um escritor da CPAD. Acordei, então, numa madrugada com grande vontade de escrever um artigo a partir de uma apostila de evangelismo que havia preparado. Eu não tinha a menor pretensão de publicá-lo! E, até então, jamais tivera o sonho de ser escritor!
Imprimi aquele modesto texto e o guardei em minha pasta. Na mesma
semana, houve uma reunião geral de obreiros na Assembleia de Deus da Lapa, sede
do setor onde me congregava. O pastor setorial, Valdir Nunes Bícego (in
memoriam), famoso conferencista e comentador das Lições Bíblicas da
CPAD, já estava pregando quando cheguei ao templo, e uma surpresa me estava reservada.
Como o recinto já estava lotado, sentei-me na galeria, espremido entre os irmãos,
mas prestando bastante atenção em cada palavra daquele homem de Deus.
De repente, o pregador, que discorria sobre a chamada de Deus
e os dons, olhou para a minha direção e disse: “Deus tem chamado a muitos para
escrever. E você, irmão, que recebeu do Senhor o talento para escrever, mande
esse artigo para o Mensageiro da Paz”. No momento em que ouvi essa palavra, não
a encarei como uma profecia, pois não considerava “aquele texto” um artigo.
Muito menos pensava que pudesse ser publicado no mais importante periódico da
CPAD!
Eu realmente não sonhava em ser um escritor. Mas aquela palavra
do pastor Valdir Bícego ficou “martelando” no meu coração durante alguns dias. Decidi,
então, fazer uma revisão no texto e enviá-lo à nossa Casa. Pensei comigo: “O máximo
que posso receber é um não”. Passados uns três meses, numa tarde de sábado,
após eu ter ministrado seis extenuantes aulas na FAESP, dirigi-me à antiga loja
da CPAD, na rua Conselheiro Cotegipe, no Belenzinho, para conferir as novidades.
E lá estava o Mensageiro da Paz.
Confesso que já havia me esquecido do texto que enviara à redação
desse jornal. Mas, na sua capa, um título me chamou a atenção: “Adestrando pescadores
de homens”. E, quando fui conferi-lo, era ele! Sim, aquele meu despretensioso
escrito estava lá! Por que fui despertado para escrever naquela madrugada? Por que
o inesquecível pastor Valdir Bícego disse aquelas palavras proféticas? Por que
a CPAD, que recebe inúmeros artigos, de várias partes do Brasil, resolveu
publicar “aquele texto”? A resposta para todas essas perguntas é uma só: Ajuda
do Alto!
Ninguém pode vencer na vida vivendo isolado de tudo e todos.
Desde a intrauterinidade, carecemos de ajuda para sobreviver. Todos os seres
humanos precisam de três tipos de ajuda, que se completam: a ajuda externa
(parentes, amigos etc.), a ajuda interna (autoajuda) e a ajuda superna (ajuda
divina). O evangelho da autoajuda é falso na medida em que supervaloriza a
ajuda interna, priorizando o pensamento positivo, a autoestima elevada, em detrimento
da Ajuda do Alto, contrariando o que nos ensina a Palavra de Deus (cf. Hebreus
13.5,6).
De uns tempos para cá, conceitos antropocêntricos — comuns em
livros de autoajuda — têm sido propagados em nosso meio por cantores e pregadores,
principalmente em grandes eventos. E o pior: tais conceitos vêm sendo
confundidos com o Evangelho, que é centrado na ajuda superna de Cristo (Filipenses
4.11-13). A ideia da bondade inata do ser humano já é aceita por muitos cristãos
que ignoram as verdades bíblicas da indignidade humana, da condenação ao pecado
e da necessidade do arrependimento (Efésios 2.1-10). Esse evangelho coach, pelo
qual se propala uma psicologia egocêntrica e humanista, travestida de
Cristianismo, está em pleno desacordo com as Escrituras.
O Senhor escolheu Moisés porque este tinha autoestima
elevada? Não! Esse libertador estava longe de ter “cara de vencedor”, pois,
sendo o mais manso da terra, considerava-se incapaz (Números 12.3). Isaías
também não confiou em sua autoestima ante a contemplação da glória do Senhor (Isaías
6.5). Jó, por sua vez, reconheceu, diante da grandeza do Criador, a sua miserabilidade
(Jó 42.6). Embora a priorização do “amor próprio” pareça legítima, é
apresentada como um dos problemas dos fins dos tempos, e não como uma virtude a
ser cultivada (2 Timóteo 3.1,2).
Pensamentos humanistas — resultantes da mescla de conceitos
de autoajuda e versículos bíblicos fora de contexto — fazem o crente se sentir
um pequeno deus andando na terra, capaz de atrair para si o que quiser, através
do pensamento positivo. Basta pensar “grande”, ter ousadia ao sonhar, para atrair
coisas positivas. Um dos maiores gurus de muitos cristãos em nossos dias,
considerado “o homem mais sábio do mundo”, disse a seguinte frase, supostamente
bíblica: “Normalmente, o que acontecer na sua mente um dia acontecerá
realmente”. É falaciosa essa ideia de que a autoestima elevada é a solução para
todos os problemas.
Existe uma tendência de se pensar que todo e qualquer sonho
(projeto) provém do Senhor. Mas a Palavra de Deus afirma que enganoso é o
coração (Jeremias 17.9). A salvação não tira do ser humano, em definitivo, a
sua inclinação natural para o mal (Romanos 7.19,20). A obra salvífica, no
presente, implica libertação do poder do pecado, e não da presença do pecado. A
partir do momento em que alguém entrega a sua vida a Jesus, o seu coração se
torna morada do Senhor (João 14.23). E, embora isso faça muita diferença (cf. Gálatas
5.22), a Palavra de Deus alerta: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de
vós um coração mal e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hebreus 3.12).
Há quem confunda seus sonhos com a vontade de Deus, como se
tais projetos e aspirações fossem implantados, injetados pelo Senhor, dentro dos
nossos corações. Pregadores do evangelho da autoajuda dizem: “Ouse sonhar! Você
não morrerá antes que os sonhos de Deus se cumpram”. Essa afirmação e outras similares
não resistem a uma análise bíblica, pois priorizam a autoajuda, em detrimento
da Ajuda do Alto. Elas visam a despertar nas pessoas o interesse pelo grande potencial
que supostamente há dentro delas, ignorando que em nós, em nossa carne, não habita
bem algum (Romanos 7.18).
Em Provérbios 16.1 e 19.21 aprendemos que é o Senhor quem
dirige a nossa vida. Não é pecado sonhar, mas nem sempre nossos projetos, planos
e ambições estão de acordo com a vontade de Deus. Adeptos do evangelho da autoajuda
ignoram isso e afirmam que José, filho de Jacó, foi lançado numa cova e vendido
ao Egito porque tentaram matar seus sonhos. Sugerem que ele, durante a sua trajetória,
sonhou o tempo todo, de olhos abertos, em ser o governador do Egito. Não é isso
que diz a Palavra de Deus (cf. Gênesis 37–50). José teve sonhos — sonhos mesmo!
—, pelos quais o Senhor lhe revelou que faria coisas grandes em sua vida.
O título de “sonhador” não se aplica a José. Foram seus irmãos
que, com inveja, zombaram dele, dizendo: “Eis lá vem o sonhador-mor!” (Gênesis 37.19).
Ao examinarmos as Escrituras, vemos que podemos ter bons pensamentos, sentimentos
e vontades, segundo a direção de Deus. Mas também podemos, mesmo sendo salvos, ter
maus pensamentos, sentimentos e vontades. Aliás, mesmo os bons projetos do nosso
coração precisam ser confrontados com a vontade divina.
Voltando à história inicial deste artigo, Deus não plantou o
sonho de escrever em meu coração, mas Ele me despertou para o ministério ao
qual me havia chamado. O mesmo ocorreu quanto à minha chamada para pregar, pois,
nos meus primeiros anos de conversão, voltei-me inteiramente para a música, e o
meu sonho era cantar e tocar guitarra na igreja. Para ser sincero, o único sonho
que chegou a passar pelo meu coração — e eu até orei a Deus quanto a isso — foi
o de ensinar e pregar a Palavra de Deus em várias partes do mundo.
Sabe por que eu tive tal sonho? Porque, desde a minha
infância, o Senhor usou seus servos para me dizer que o ministério para o qual
me chamara envolveria itinerância. Não é pecado ter aspirações e projetos.
Aliás, a Bíblia diz: “Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja” (2 Timóteo
3.1). Mas o melhor mesmo é buscar a Deus, pedindo-lhe que dirija nossa vida em
tudo. E, se confiarmos no Todo-poderoso (Salmos 37.4-7), não precisaremos ser
sonhadores, nem pensar “grande”, tampouco nos preocuparmos com a “morte dos
nossos sonhos”. Afinal, “sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para
o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Romanos
8.28).
É inegável que em pregações e canções de autoajuda há
palavras que animam e motivam. Como também não se pode negar que os livros de
autoajuda exercem influência motivadora sobre as pessoas. Entretanto, qual é a
diferença entre a autoajuda propagada por pessoas evangélicas e a disseminada no
meio secular? Será que os conceitos antropocêntricos, no contexto evangélico, tornam-se
aprovados por Deus e tão eficazes quanto o Evangelho?
Os nossos sonhos não são de Deus só porque somos do Senhor!
Lembra-se de Davi? Homem segundo o coração de Deus. Alguém diria: “Um homem assim
tem os sonhos de Deus plantados em seu coração. Tudo o que ele pensa ou faz provém
do Senhor. É um perfeito sonhador!”. Quem conhece a biografia desse rei sabe que
seu projeto de que levantaria o Templo não estava de acordo com a “resposta da boca”
nem com o “conselho do Senhor” (2 Samuel 7).
Se todos os sonhos de Davi tivessem se concretizado,
seguindo à “profecia de autoajuda” de Natã (2 Samuel 7.3), esse rei não teria
cumprido a vontade de Deus, embora seu plano fosse bom. Felizmente, o Senhor usou
o próprio profeta Natã — que errara, ao dizer a Davi que devia fazer tudo o que
estava em seu coração — para desfazer o seu erro (vv. 3-17). Aquele profeta
pode ser considerado, portanto, o precursor de todos os cantores e pregadores
da atualidade no que tange à transmissão de mensagens de autoajuda.
Outro bom exemplo de “sonhador” é o apóstolo Paulo.
“Imitador de Cristo (1 Coríntios 11.1), certamente tinha os ‘sonhos de Deus’
implantados em seu coração”, alguém diria. Projetando viajar à Ásia e à Bitínia
para pregar o evangelho — Que sonhos maravilhosos! —, foi impedido pelo Espírito
Santo (Atos 16.6-10). Por quê? Seus projetos não eram bons? Sim, mas a vontade de
Deus está acima das “preparações do coração”, e Paulo foi para a Macedônia.
Resultado: a mensagem pentecostal atingiu toda a Europa e (dando um salto na
história) de lá se propagou pela América do Norte, de onde veio para o Brasil e
nos alcançou!
O evangelho da autoajuda, apesar de sua roupagem espiritual,
apresenta a mesma mensagem contida em livros como Nunca Desista de seus Sonhos ou
Você é Insubstituível. Essas obras têm o seu relativo valor e podem gerar nos
leitores uma grande vontade de vencer. Mas basta surgir um problema para todo o
entusiasmo produzido pela autoajuda ir por água abaixo. Por isso, devemos priorizar
a Ajuda do Alto, que é duradoura e nos faz exclamar como Habacuque, em meio a
duras provações: “Todavia, eu me alegrarei no SENHOR, exultarei no Deus da
minha salvação. JEOVÁ é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e
me fará andar sobre as minhas alturas” (Habacuque 3.18,19).
Em Filipenses 4.13, o apóstolo Paulo disse: “Posso todas as coisas”.
Um cristão influenciado pelo evangelho da autoajuda completaria essa frase assim:
“Posso todas as coisas porque nasci para vencer”; ou “Posso todas as coisas
porque tenho cara de vencedor”; ou ainda: “Posso todas as coisas porque sou um sonhador”.
Mas Paulo, que dependia da Ajuda do Alto, afirmou: “Posso todas as coisas
naquele que me fortalece”. Os salvos em Cristo não pertencem a uma geração de sonhadores
que se autoajudam. Fazemos parte da geração dos que buscam a Ajuda do Céu.
Que Deus nos ajude a enxergarmos as verdades centrais da fé cristã,
que, a cada dia, estão perdendo espaço para a supervalorização do ser humano. Somos
tão importantes assim, a ponto de um culto coletivo ser todo voltado para o
nosso eu? Os cânticos que entoamos devem ser em louvor a Deus (Salmo 136.1-3;
138.1,2), e a nossa pregação deve ser cristocêntrica (1 Coríntios 1.22,23;
2.1-5; Filipenses 3.18). O que passar disso com certeza faz parte do plano
diabólico de, nos últimos dias, desviar os crentes da sã doutrina (1 Timóteo
4.1; 2 Timóteo 4.1-5).
Segundo o evangelho da autoajuda, somos bons e precisamos olhar
para dentro de nós, a fim de contemplar nossas potencialidades. Palavras de autoajuda,
sem dúvida, agradam-nos. Quem não gosta de ouvir elogios e palavras animadoras?
É muito bom ouvir um “louvor” que nos motiva a usar toda a “nossa força” para
vencer na vida. Contudo, as palavras de Ajuda do Alto agradam a Deus. Por meio
delas, louvamo-lO e reconhecemos que somos seus dependentes (1 Pedro 5.6; Salmo
138.6; Efésios 6.10). Quando priorizamos a ajuda superna, vemos que nada somos,
já que em nossa carne habita bem nenhum, e nos lembramos de que a nossa cidade
está no Céu (Filipenses 3.20,21).
Nesses tempos em que se mistura o Evangelho com a autoajuda,
os sonhos de cada crente não são apenas projetos. Têm status de promessas
divinas irrevogáveis e incondicionais. E quem se deixa influenciar por esse
evangelho antropocêntrico vai mais além. Para alguns pregadores, o Senhor só voltará
depois de cumprir todos os nossos sonhos. Eles perguntam ao povo: “Quem espera
a volta de Jesus? Quem tem certeza de que Ele vai voltar?”. E, vendo muitas mãos
levantadas, fazem outra pergunta: “Quem tem promessas de Deus?”. A mesma
quantidade de mãos é alçada, e eles bradam: “Então, Jesus não vai voltar
enquanto as promessas não se cumprirem em sua vida”.
Essas pregações giram em torno de prosperidade e vitória. Tais
pregadores da autoajuda dão ao povo o que ele deseja ouvir, e não o que precisa
ouvir. Ao dizerem que o Senhor Jesus só voltará depois de cumprir todas as
promessas individuais, tiram dos ouvintes o peso da responsabilidade de
vigiarem em todo tempo, haja vista a iminência do Arrebatamento da Igreja (cf.
Mateus 24.42-44; 25.1-13; Lucas 21.36). Leva-os a se esquecerem da
“bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor
Jesus Cristo” (Tito 2.13). Não é, pois, necessário recorrer a muitas passagens
bíblicas para dizer que é uma falácia pensar que nossos sonhos são promessas
irrevogáveis.
Nenhuma promessa individual relativa a esta vida anula a maior
e mais esperada de todas as promessas: a do Arrebatamento da Igreja (1 Tessalonicense
4.16-18). Ao se pensar biblicamente em uma promessa, é preciso considerar a sua
origem, a sua modalidade, a sua especificidade, bem como a sua
condicionalidade. O crente que se preza não vive pensando, de modo egoísta, em promessas
para esta vida, as quais devem ser valorizadas, mas não priorizadas. Somos peregrinos
e forasteiros (Hebreus 11.13; 1 Pedro 2.11). Estamos hospedados neste mundo. A nossa
morada está no Céu, donde esperamos o Senhor Jesus Cristo (João 14.1-3).
Cumpram-se ou não os nossos sonhos, o Senhor voltará. E isso acontecerá a
qualquer momento, pois o Arrebatamento é iminente.
A doutrina bíblica da iminência abarca três características:
(1) certeza, (2) incerteza e (3) desnecessidade de cumprimento de sinais. Ou seja,
é certo que Jesus vem; é incerto o momento exato de sua chegada; e — embora
haja sinais que apontem para o fim dos tempos (cf. Mateus 24.3-14) — o
Arrebatamento, como evento desencadeador da agenda escatológica, não depende do
cumprimento deles. Confiemos, pois, na última e mais importante promessa (e profecia)
para a Igreja, registrada na Bíblia: “Certamente, cedo venho”. O crente fiel,
em resposta a ela, não ora de modo interesseiro: “Não vem não, Senhor! Primeiro
cumpra todas as promessas em minha vida”. Sua resposta é: “Amém! Ora, vem,
Senhor Jesus!” (Apocalipse 22.20).
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