Hermenêuticas e pós-modernidade

Hermenêuticas e pós-modernidade


Não podemos distorcer o significado de passagens da Bíblia a nosso bel prazer para acomodá-las a nossos pontos de vista e achar que o resultado disso é a verdade e a orientação de Deus para nossas vidas

Para que nós possamos compreender o que é aquilo que tem sido designado como “Hermenêutica Pós-moderna”, é preciso antes discorrermos, mesmo que sinteticamente, sobre a história da Hermenêutica Bíblica.

Hermenêutica é, como sabemos, a técnica ou a ciência de interpretação de textos. Hermenêutica Bíblica, por sua vez, é a técnica ou ciência de interpretação do texto bíblico. Ora, toda ciência usa metodologias; logo, com a ciência de interpretação do texto bíblico não é diferente. Sendo assim, no Cristianismo, quais os métodos usados na interpretação do texto sagrado? Historicamente, são quatro: o Método Alegórico, o Método Histórico-Gramatical, o Método Histórico-Crítico e, mais recentemente, o Método Pós-Moderno, chamado também de Hermenêutica Pós-moderna. Deles, os mais usados no meio protestante são o Método Histórico-Gramatical e o Método Histórico-Crítico.

Aproveitando, e a chamada Hermenêutica Pentecostal? Seria ela um novo método?

A Hermenêutica Pentecostal não se trata de um método absolutamente novo, que rompe totalmente com a abordagem tradicional – isto é, com o Método Histórico-Gramatical –, diferentemente do que ocorre com o Método Histórico-Crítico e com o Método Pós-Moderno, que assim o fazem cada um à sua forma. Por outro lado, a Hermenêutica Pentecostal também não é simplesmente o uso do Método Histórico-Gramatical com pressupostos pentecostais. Ela é, na verdade, um aprimoramento do método tradicional por influência da teologia pentecostal que acaba por implicar a admissão, à luz das Escrituras, dos pressupostos pentecostais. Esse aprimoramento se dá por meio (1º) do abandono de certos pressupostos racionalistas que contaminaram o Método Histórico-Gramatical nos últimos séculos; (2º) da ênfase na importância da observância de certos princípios da matéria de Teologia Bíblica na interpretação do texto das Escrituras; e (3º) do acréscimo ao método tradicional de algumas ferramentas aproveitáveis do Método Histórico-Crítico, usadas de forma desideologizada, e de salutares recursos modernos de Narratologia antes relegados, enriquecendo, assim, a metodologia tradicional.

Ou seja, Hermenêutica Pentecostal não é absolutamente um outro método, mas é, reforçamos, a proposição de uma nova abordagem do método tradicional por parte de exegetas pentecostais. O próprio Manifesto do Conselho de Doutrina e da Comissão de Apologética da CGADB sobre Hermenêutica Pentecostal, publicado em 2021, declara que a Hermenêutica Pentecostal "não é uma negação do Método Histórico-Gramatical", mas, ao contrário, sustenta que o sentido do texto bíblico deve, sim, "sempre guardar coesão com o contexto histórico e gramatical", mas, por outro lado, a Hermenêutica Pentecostal também não se coaduna com a forma como o MHG tem sido empregado pela teologia reformada. Por sua vez, o manifesto assembleiano enfatiza ainda que a Hermenêutica Pentecostal não se rende a determinados "aspectos" dos "métodos histórico-critíco e pós-moderno", explicitando que são aqueles aspectos que, respectivamente, "buscam fragmentar as Escrituras e negar so milagres" e promover "interpretações subjetivistas, focadas no leitor, em detrimento do autor e do texto".

Logo, a Hermenêutica Pentecostal é uma Hermenêutica Evangélica Pentecostal. Sendo assim, alguns têm sugerido até a designação “Hermenêutica Evangélica na Perspectiva Pentecostal”, porém, sem me opor totalmente a tal uso, prefiro "Hermenêutica Evangélica Pentecostal" porque o uso da expressão “na Perspectiva" pode levar ao entendimento equivocado de que a Hermenêutica Pentecostal consiste na simples adoção a priori de pressupostos pentecostais quando se vai ler o texto bíblico, o que, como frisamos, não é o caso. Aliás, se fosse simplesmente isso, a Hermenêutica Pentecostal estaria enquadrada no mesmo caso das chamadas “Hermenêutica Feminista” e “Hermenêutica Negra”, que nada mais são do que a adoção a priori de pressupostos respectivamente feministas e de política de libertação negra na leitura do texto sagrado. Sei que nem todos que usam a nomenclatura “Hermenêutica Evangélica na Perspectiva Pentecostal” o fazem tendo em vista essa equiparação de modus operandi, mas justamente para evitar uma eventual confusão nesse sentido, é preferível se falar de Hermenêutica Evangélica Pentecostal, posto ser uma designação mais precisa.

Por meio dessa nova abordagem do método tradicional proposta pelo pentecostalismo, as afirmações teológicas pentecostais são mais facilmente percebidas no texto sagrado? Sim, porém não porque pressupostos pentecostais foram inseridos na metodologia tradicional para forçar isso, mas porque uma abordagem mais condizente e aprimorada do método reivindicada por teólogos pentecostais e totalmente dentro do propósito do próprio método, que foca na intenção do autor, resultou naturalmente na percepção mais clara das afirmações pentecostais no texto.

Por outro lado, pode-se argumentar que alguns hermeneutas do ramo protestante tradicional já haviam proposto décadas atrás muitos desses ajustes no Método Histórico-Gramatical esposados pelos hermeneutas pentecostais hoje, de maneira que essa nova abordagem não teria a marca pentecostal, pois já haviam sido, de certa forma, incorporados ao método tradicional pioneiramente por esses hermeneutas tradicionais. Logo, não faria sentido se falar de uma “Hermenêutica Evangélica Pentecostal”. Seria apenas os hermeneutas tradicionais revendo espontaneamente seus conceitos, e não algo fruto da influência teológica pentecostal. Entretanto, é preciso lembrar que tais proposições desses teólogos tradicionais – seguidas por muitos hermeneutas protestantes tradicionais hoje – se deveram exatamente à influência da teologia pentecostal sobre eles, levando-os a reconsiderar algumas das afirmações que o pentecostalismo já fazia há muito tempo sobre a interpretação do texto bíblico, as quais esses teólogos tradicionais passaram apenas a, posteriormente, articular ao mundo acadêmico de forma mais erudita. Entre esses autores temos os metodistas I. Howard Marshall (1934-2015) e James Dunn (1939-2020), que eram teólogos protestantes tradicionais que - frise-se - foram impactados pelo movimento de renovação dentro do protestantismo tradicional em meados do século 20 e, após rever aspectos do Método Histórico-Gramatical, reconhecendo algumas deficiências no seu uso por parte do protestantismo tradicional, se tornaram teologicamente carismáticos. Quando Marshall, por exemplo, afirmou, em sua obra Luke: Historian and heologian (1970), que o evangelista Lucas não era apenas um historiador, mas um teólogo também, ele não estava afirmando nada novo para o pentecostalismo, que já tratava Lucas dessa forma desde o início do Movimento Pentecostal. A novidade foi apenas ele articular isso de forma rica e erudita para a academia. Ademais, gerações seguintes de pentecostais aproveitaram essa articulação mais sofisticada desses eruditos e a aprimoraram nos anos seguintes, como é o caso, por exemplo, de Anthony D. Palma, Roger Stronstad e Robert Menzies.

Em suma, as contribuições do pentecostalismo tanto para o surgimento dessa nova abordagem, influenciando-a, como para o seu desenvolvimento posterior são inegáveis, de maneira que é possível falar especificamente de uma Hermenêutica Pentecostal, mesmo que esta não esteja desatrelada da metodologia tradicional. Entretanto, uma vez que ela é um desdobramento dentro da metodologia tradicional – uma abordagem nova, mas ainda dentro dessa metodologia –, não a trataremos como sendo uma nova metodologia.

Em outra oportunidade, podemos descer a mais detalhes sobre esse tema, que merece, por si só, um tratamento à parte mais aprofundado. Por agora, nosso foco é t ratar mos sobre Hermenêutica Pós-moderna, o que passa por entender antes, de forma básica, a Hermenêutica Bíblica. Logo, vejamos a seguir no que consistem cada um desses métodos basilares usados no Cristianismo para podermos entender, então, no que consiste o Método Pós-moderno, que responde também pelo nome de Hermenêutica Pós-moderna.

Os primeiros métodos de interpretação da Bíblia

Nos primeiros séculos da História da Igreja, havia dois métodos de interpretação da Bíblia: o Método Histórico-Gramatical (que só foi receber esse nome muitos séculos depois) e o Método Alegórico. Esses dois métodos tinham como seus principais representantes a Escola de Antioquia da Síria e a Escola de Alexandria no Egito, respectivamente.

O Método Histórico-Gramatical se notabilizava por valorizar o sentido literal do texto bíblico, que deveria ser interpretado levando-se em conta o contexto histórico da passagem e seus aspectos gramaticais, bem como o uso claro de figuras de linguagem na passagem em apreço. Já o Método Alegórico atribuía quatro níveis de sentido ao texto bíblico, sendo o literal apenas o primeiro deles. O nível mais importante e elevado era o chamado sentido espiritual da passagem.

O Método Alegórico nasceu em Alexandria porque ele foi inspirado principalmente em Filo de Alexandria, rabino que criou esse método de interpretação do texto bíblico no fim do primeiro século a.C. Antes de Filo, a teologia judaica primitiva adotava o chamado Peshat – este era o método predominante entre os judeus no que tange à interpretação da Bíblia hebraica no período do 4º século a.C. ao 2º século d.C., e que consistia na interpretação literal do texto bíblico, que era interpretado de forma não-literal apenas quando o texto indicava a necessidade de uma interpretação não-literal. Depois desse período, sob a influência, sobretudo, do surgimento do Método Alegórico aplicado ao texto bíblico pelo rabino Filo de Alexandria no primeiro século da Era Cristã, a Hermenêutica Judaica passou aos poucos a adotar quatro níveis de interpretação do texto bíblico, os quais foram melhor desenvolvidos no período medieval (Eles surgem no final da Antiguidade, época de confecção do Talmude, mas são melhor desenvolvidos no medievo). São eles: o Peshat (como vimos, o sentido literal, que agora passou apenas a ser o primeiro nível); o Remez (o sentido tipológico ou alegórico); o Drash (outros sent idos i n feridos sut ilmente por comparação entre textos ou palavras); e o Sod (o significado oculto, místico). Essa é a chamada Hermenêutica "Pardes" (um acrônimo aportuguesado dessas quatro palavras que designam esses quatro níveis).

A Escola de Antioquia esposava uma interpretação do texto bíblico semelhante à do Peshat, interpretando de forma literal o texto bíblico, a não ser quando o próprio texto indicava claramente a necessidade de uma interpretação não-literal. Deodoro de Tarso (300?-390) e Teodoro de Mopsuéstia (350-428) são dois dos principais nomes dessa Escola, sendo o último considerado “O Príncipe dos Exegetas Antigos”. Eles defendiam expressamente que se tinha que levar em conta na interpretação do texto bíblico o sentido das palavras nas línguas originais em que foram escritas, o estilo literário e o contexto histórico da passagem.

No final da Antiguidade, a Escola de Antioquia acabou perdendo terreno para a Escola de Alexandria, adepta, como dissemos, do Método Alegórico, de maneira que, do final da Antiguidade e durante toda a Idade Média, o método cristão de interpretação da Bíblia que passou a ser usado foi o Método Alegórico. Os exegetas medievais, seguindo Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.), pai desse método dentro do Cristianismo, consideravam o sentido literal das Escrituras como pouco importante e pouco edificante. Eles diziam que o texto bíblico sempre tinha quatro níveis de sentidos: o sentido literal, o sentido anagógico, o sentido escatológico e o sentido moral.

Método Histórico-Gramatical

O Método Alegórico foi predominante na Cristandade até o advento da Reforma Protestante, que resgatou a importância do sentido literal do texto bíblico, combatendo o “misticismo hermenêutico”. Os reformadores enfatizaram que o sentido literal, a intenção do autor, é o único guia seguro para entender a Palavra de Deus. Eles reconheciam as figuras de linguagem empregadas nas Escrituras, mas afirmavam que deveria se fazer distinção clara entre o que era explicitamente figura de linguagem e o que não era. E para se respeitar a intenção do autor, era preciso atentar para o estudo do contexto histórico e o aspecto gramatical da passagem, além da evolução da revelação. O texto bíblico só pode ter um sentido, e não quantos sentidos o leitor desejar.

Em ordem cronológica, John Wycliffe (1328-1384), John Colet (1467-1519), Felipe Melanchthon (1497-1560), Martin Lutero (1483-1546) (por i n f luência de u ma palestra de Melanchton), Ulrich Zwinglius (1484-1531), João Calvi no (1509-1564) e Joh n K nox (1514-1572) foram os responsáveis pelo desenvolvimento do que seria batizado muito tempo depois deles de “Método Histórico-Gramatical”, o qual foi melhor desenvolvido nos séculos seguintes à Reforma e continua sendo aperfeiçoado até hoje.

Método Histórico-Crítico

O Método Histórico-Crítico é um método de interpretação da Bíblia próprio do liberalismo teológico, que é a sua base ideológica original. A gênese desse método está no Iluminismo, quando os homens passaram a achar que a razão é o suficiente para o homem entender o mundo e resolver seus problemas. A filosofia predominante era o racionalismo. Essa influência fez surgir o deísmo e, a partir daí, o liberalismo teológico. O liberalismo teológico e o seu Método Histórico-Crítico nasceram originalmente no deísmo, mas hoje é adotado até mesmo por teólogos agnósticos.

No método histórico-crítico, a interpretação da Bíblia deixou de ser uma tarefa para entender o que o autor queria dizer para ser uma tarefa de questionamento da produção do texto. O objetivo era tirar do cânon formal o cânon normativo. O teólogo alemão Johann Salomo Semler (1725-1791) dizia: “A raiz de todos os males (na teologia) é usar os termos ‘Palavra de Deus’ e ‘Escritura’ como se fossem idênticos”. Segundo ele, era preciso diferenciar e separar a “Palavra de Deus” da “Escritura”. Para Semler, a Bíblia contém erros e contradições ao lado de palavras que talvez proviessem de Deus. Ele rejeitava a infalibilidade das Escrituras. Os teólogos liberais também descriam no sobrenatural na história, devido à influência do racionalismo e do deísmo. Foi a partir desses pressupostos teológicos que o método histórico-crítico foi construído.

As etapas do método histórico-crítico são:

Crítica das Fontes – Partia do princípio de que os textos bíblicos eram edições feitas a partir de várias fontes diferentes, e usavam como pista para identificar essas fontes hipotéticas qualquer aparente diferença de vocabulário ou estilo, bem como repetições de histórias e digressões. Tudo começou com um médico francês chamado Jean Astruc, que em 1753 levantou a tese de duas fontes – a “Eloísta” e a “Javista” – em Gênesis.

Crítica da Forma – Como os liberais passaram a crer na hipótese de que as fontes se baseavam em tradição oral, então consequentemente passaram a crer que todos os textos tinham uma intenção política e eram manipulados. Passa-se, então, a se defender, por exemplo, que uma coisa é o “Jesus Histórico” e outra é o “Jesus da Bíblia”. Bultmann chegará a dizer o disparate de que menos de 10% das falas de Jesus foram realmente proferidas por Ele.

Crítica da Redação – Por fim, os liberais passaram a buscar supostas “edições” na redação do texto bíblico para tentar expurgá-las e assim extrair o que seria real e historicamente confiável nas Escrituras.

As duas primeiras etapas do Método Histórico-Crítico (Crítica das Fontes e Crítica das Formas) eram chamadas de “Alta Crítica” e a última etapa (Crítica da Redação) era chamada de “Baixa Crítica”. Hoje, porém, os termos utilizados para designar essa divisão são respectivamente “Crítica Histórica” e “Crítica Textual”.

Nas últimas décadas, uma vez que o propósito do Método Histórico-Crítico era inatingível, já que o subjetivismo inerente aos critérios utilizados para reconhecer o que hipoteticamente seria de fato Palavra de Deus dentro do cânon bíblico fez com que os resultados daqueles que aplicavam o referido método fossem completamente diferentes, ao ponto de até hoje não existir um consenso do que seria a Palavra de Deus dentro do cânon reconhecido e aceito pelos próprios críticos, então muitos dos adeptos do Método Histórico-Crítico acabaram tomando um de dois rumos:

1) Alguns abandonaram o Método Histórico-Crítico por uma nova proposta, chamada “Abordagem Canônica” ou “Hermenêutica Canônica”, que abandona o trabalho de buscar o cânon dentro do cânon, se preocupando apenas em interpretar o cânon formal, mas ainda sem ver as Escrituras como sendo, no todo, a Palavra de Deus, inerrante e infalível, de maneira que essa abordagem hermenêutica é desprezada tanto pela maioria dos teólogos liberais quanto pelos conservadores;

2) Outros igualmente passaram a abandonar o trabalho de buscar o cânon dentro do cânon e abraçaram os pressupostos da crít ica literária pós-moder na, desenvolvendo a chamada Hermenêutica Bíblica Pós-moderna.

Há, porém, muitos teólogos liberais, como os ligados ao chamado Jesus Seminary, que continuam firmes na aplicação do Método Histórico-Crítico com seus pressupostos originais liberais.

O Método Pós-Moderno

Assim como a Modernidade afetou a metodologia de interpretação do texto bíblico, fazendo surgir o Método Histórico-Crítico, a Pós-modernidade fez o mesmo. Pós-modernidade é o nome dado ao período que sucede a Modernidade e que teria sido inaugurado imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, e que é marcado por transformações sociais, culturais, artísticas e filosóficas caracterizadas por (I) crítica à razão, ao conceito de verdade absoluta e às instituições; (II) relativismo, (III) fragmentação, (IV) diversidade de perspectivas e (V) a defesa da linguagem como construtora da realidade – “Não existem fatos, só narrativas”, como diria Nietzsche.

Jacques Derrida (1930-2004) pode ser considerado, involuntariamente, o pai da “Hermenêutica Pós-moderna”. De origem judaica, Derrida nasceu na Argélia, então colônia francesa, e sofreu muito em sua infância por causa do antissemitismo. Já na juventude, tornou-se discípulo confesso dos escritos dos ateus Friedrich Nietzsche, Jean-Jacques Rousseau e Albert Camus. Inspirado nesses seus ídolos, Derrida fundou o desconstrutivismo, tese que propõe a indeterminação do sentido dos textos. Por descrer em verdade absoluta e ser defensor ferrenho do relativismo, Derrida ensinava que qualquer texto deve ser lido sem nos preocuparmos em achar qualquer intenção do autor por trás dele. Para o francês, devemos ser livres na interpretação de um texto, que pode ter quantos significados sejam necessários, independente do propósito do autor ao escrevê-lo. Caberia a cada leitor, portanto, dar aos textos o significado que achar que tenham. Alguns nomes que, à sua forma, também acabaram contribuindo para a formação da Hermenêutica Pós-moderna são Hans-Georg Gadamer, Martin Heiddeger e Ludwig Wittegenstein.

Com o avanço da crítica literária pós-moderna nas universidades nas últimas décadas, muitos teólogos acabaram abraçando esse método em sua forma de ler e interpretar o texto bíblico. Seguindo os pressupostos desconstrutivistas, alguns teólogos passaram a ensinar que a interpretação de um texto bíblico pode ter vários significados, não sendo possível determinar um único sentido que seja apresentado como sendo o verdadeiro. O foco deixou de estar no texto e no autor e passou a ser posto no texto e no leitor, de maneira que o sentido do texto não estaria mais absolutamente dentro do texto, mas principalmente fora do texto; não seria tanto intratextual, mas sobretudo extratextual. O significado e a interpretação de todos os textos bíblicos seriam, portanto, na prática, relativos, cabendo a cada um extrair dos textos bíblicos, sem preocupar-se com regras rígidas da “hermenêutica moderna” (isto é, Método Histórico-Gramatical e Método Histórico-Crítico), as lições que achasse interessantes, relevantes para si, conforme sua percepção individual.

Um argumento usado em prol desse método é que a igreja seria melhor enriquecida com uma pluralidade de interpretações, com cada uma destas atendendo a uma necessidade do momento. É o que se chama também de “Hermenêutica Generosa”. A verdade, porém, é que a consequência disso é a depreciação do conceito básico de Hermenêutica Bíblica, isto é, para o conceito de valorização da intenção dos autores bíblicos atentando para o contexto cultural de cada livro e passagem, e para a homogeneidade da Bíblia - ou seja, desprezam o princípio de que a Bíblia se explica pela própria Bíblia, de maneira que dificilmente a igreja seria abençoada de fato por meio desse método, pois o conteúdo bíblico não poderia ser usufruído corretamente. Não podemos distorcer o significado de passagens da Bíblia a nosso bel prazer para acomodá-las a nossos pontos de vista e achar que o resultado disso é a verdade e a orientação de Deus para nossas vidas.

Obviamente, não concordamos com essa forma de leitura do texto bíblico. Como pentecostais, adotamos o Método Histórico-Gramatical – embora em uma abordagem mais enriquecida (Hermenêutica Pentecostal) – porque esse método está centrado no autor e no texto, enquanto a Hermenêutica Pós-moderna está centrada no leitor e no texto, desvirtuando o propósito intrínseco e razão de ser das Sagradas Escrituras.

por Silas Daniel

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