A Bíblia e as discussões da COP30

A Bíblia e as discussões da COP30


Em novembro de 2025, em Belém do Pará, o Brasil sediou a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). O encontro reuniu um grupo de líderes globais, cientistas e ecologistas, indígenas, organizações civis e representantes religiosos com o objetivo de discutir medidas para enfrentar a crise climática, a preservação da biodiversidade e a construção de políticas sustentáveis para o futuro do planeta.

Para além do debate científico e político, a COP30 oferece uma oportunidade para refletir sobre o papel das tradições religiosas, em especial a fé cristã, no cuidado com a criação divina. De Gênesis a Apocalipse, a Bíblia apresenta um profundo ensino sobre responsabilidade ambiental, justiça social e preservação da vida. Assim, torna-se legítimo perguntar: qual é a contribuição da fé cristã para os desafios ambientais de nosso tempo? Nessa perspectiva, o presente artigo busca analisar como os princípios bíblicos dialogam com as temáticas fundamentais da COP30. O propósito é apresentar uma construção consistente, à luz das Escrituras, de um futuro mais justo e sustentável, evitando que o debate ambiental seja reduzido a discursos ideológicos, politicamente instrumentalizados ou incompatíveis com os valores cristãos.

O mandato da criação e o conceito de ecologia

A primeira referência à responsabilidade ecológica na Bíblia surge logo na criação, quando Deus colocou o homem no Éden “para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2.15). O verbo “cultivar” implica promover vida, e o termo “guardar” significa proteger seu meio-ambiente. Assim, depreende-se que o homem recebeu a incumbência de cuidar de uma terra rica em fertilidade (Gênesis1.11) e abundante em recursos minerais (Gênesis 2.11). (1) Portanto, o ser criado não é dono da criação, mas seu mordomo, responsável pelo equilíbrio ecológico.

A palavra “ecologia” deriva do grego oikos (casa). Significa que toda a criação é uma grande “casa comum” e que seus habitantes devem zelar pelos recursos materiais divinamente criados. Isso implica conservação da natureza, preservação do ecossistema e eliminação da poluição, “visando a que as gerações futuras possam vir a encontrar vida sustentável na terra”. (2) O mandato da criação estabelece que o cuidado da terra é parte da mordomia cristã e não mero tema político ou ambientalista (Gênesis 1.28–31).

Resoluções e o papel do Brasil nas conferências do clima

As Conferências das Partes (COP) iniciaram-se em 1995, após a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). (3) Desde então, representantes de países e territórios signatários têm se reunido anualmente para discutir e apresentar resoluções para a preservação ambiental. Dentre elas, destacam-se: a COP3 (1997), que prevê a redução das emissões dos países desenvolvidos; e a COP21 (2015), que estabeleceu o compromisso global de limitar o aquecimento a 1,5°C.

A COP30 é histórica porque ocorre na Amazônia, o bioma mais importante para o equilíbrio climático global. Nesse quesito, o Brasil assume papel protagonista, pois carrega potencialidades, tais como a maior floresta tropical do mundo, maiores reservas de água doce, vasta biodiversidade e relevância agrícola e energética. Assim, excluindo as críticas à organização e a ausência de vários líderes mundiais no evento, a realização da COP30 abre espaço para a reflexão bíblica sobre o cuidado e a justiça com o meio ambiente.

Parâmetros bíblicos para a uma consciência ambiental

Com base nas Escrituras, podemos destacar quatro princípios essenciais para o equilíbrio climático: (I) a mordomia responsável, em que o cristão cuida da criação como quem presta contas a Deus (Salmos 24.1); (II) a justiça social, na qual a defesa da vida abrange atenção aos vulneráveis (Provérbios 31.8,9); (III) a parcimônia no uso dos recursos naturais, observando limites éticos para evitar exploração predatória (Deuteronômio 20.19,20); e (IV) a valorização do conhecimento, onde o saber humano é aplicado ao bem comum (Provérbios 2.6).

A Escritura revela que “toda a criação geme e está juntamente com dores de parto” (Romanos 8.22). Arrington esclarece que “em seu estado presente, não completamente redimido, os cristãos, com o restante da criação, gemem pela reversão da maldição final”. (4) Isso revela que os danos ecológicos são resultados da desobediência a Deus. Assim, cuidar da criação é um ato de obediência, e preservar a dignidade humana é parte essencial, uma vez que as mudanças climáticas afetam a saúde, a economia e o bem-estar.

Perspectiva bíblica contra o sincretismo e a sacralização improdutiva

A crescente preocupação ambiental no século XXI tem reacendido discussões sobre a relação entre o ser humano e a terra. Esse debate tem sido acompanhado por ideias espiritualistas e sincréticas que passam a divinizar a criação, chamando-a de “mãe terra”, “Gaia”, “entidade viva” ou “ser sagrado”. Tais expressões entram em conflito com a fé bíblica, na qual a terra é criação de Deus e não uma divindade autônoma (Gênesis 1.1).

A Bíblia ensina que a criação deve ser cuidada e preservada, mas jamais adorada (Romanos 1.25). A adoração às forças da natureza é uma forma de idolatria, pois desloca para a criatura aquilo que pertence exclusivamente ao Criador. Nesse sentido, a fé cristã estabelece uma distinção fundamental: a terra é dom de Deus, obra das mãos divinas, mas não é uma deusa e nem um objeto de culto.

Nesse aspecto, a Escritura rejeita a ideia de que o solo deva ser considerado tão sagrado a ponto de impedir seu manejo ou o uso racional dos recursos naturais. A Bíblia condena a exploração predatória (Deuteronômio 20.19–20), mas autoriza e ordena o cultivo responsável (Gênesis 2.15). A sacralização da natureza que proíbe a intervenção humana é tão prejudicial quanto sua destruição irresponsável. Tal postura inviabiliza a produção de alimentos, o desenvolvimento sustentável e a sobrevivência da própria espécie humana.

O mandato divino, à luz da fé cristã, se coloca exatamente nesse equilíbrio: o cuidado racional que rejeita o abuso e também a divinização da Terra. Esse cuidado envolve ética, responsabilidade, ciência e fé, mas evita todo tipo de sacralização pagã que transforme o ambiente em objeto de culto ou em realidade intocável. Assim, a verdadeira espiritualidade enxerga a Terra como tesouro confiado por Deus, um espaço de vida, mas não como mãe divina ou entidade espiritual.

Considerações finais

A COP30 deve representar para o cristão muito mais do que um evento global. Deve ser avaliada como um chamado moral, espiritual e ético. Como vimos, a Bíblia oferece fundamentos sólidos para a construção de uma consciência ambiental. A participação cristã no debate climático é parte essencial do testemunho do Evangelho, que proclama vida, preservação e sustentabilidade. A narrativa de Gênesis revela a criação como algo ordenado. Deus contempla o mundo criado e o declara “muito bom” (Gênesis 1.31). A Terra não é mero recurso material, mas obra que manifesta a glória divina (Salmos 19.1). Desse modo, ser cristão e cuidar da Terra não são missões separadas, mas compromissos complementares que expressam amor a Deus, ao próximo e às futuras gerações.

Notas

(1) KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 33.

(2) FERGUSON, Sinclair B. Novo Dicionário de Teologia. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 684.

(3) UNFCCC. Report of the Conference of the Parties on its First Session. Berlin, 28 March – 7 April 1995.

(4) ARRINGTON, L. F. (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 1.044.

Referências

ARRINGTON, L. F. (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

BÍBLIA Sagrada. Almeida Revista e Corrigida. Rio de Janeiro: CPAD, 2020.

FERGUSON, Sinclair B. Novo Dicionário de Teologia. São Paulo: Hagnos, 2011.

KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2001.

UNFCCC. Report of the Conference of the Parties on its First Session. Berlin, 28 March – 7 April 1995.

por Douglas Roberto de Almeida Baptista

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