Evangélicos a cada vez mais a atenção do mercado celular
Por muito tempo os cristãos, especialmente os evangélicos, foram um grupo inferiorizado e até marginalizado pela sociedade brasileira. Gradativamente uma transformação socioeconômica e demográfica foi virando o jogo, até o ponto o qual nos encontramos hoje. Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente os evangélicos representam 20% da população nacional, ou seja, somam aproximadamente 40 milhões de pessoas. E a mudança não para por aí. As classes sociais que mais tiveram crescimento econômico nos últimos dez anos no país foram justamente a C e a D, cujos evangélicos tem maior representatividade. Isso explica porque empresas de diferentes seguimentos estão investindo fortemente em produtos e serviços exclusivos para a classe. Os evangélicos, hoje, são o que costumam chamar de um novo e lucrativo “nicho de mercado”.
Robson Rocha, chefe do setor de Marketing da CPAD, formado em
Publicidade pela Universidade Federal Fluminense (UFF), explorou como tema de
seu trabalho científico no MBA em Marketing pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ): “o Mercado da Fé e Fé no Mercado – como a comunidade evangélica
no Brasil se tornou um mercado consumidor”. Ele explica que a mudança começou a
se tornar perceptível “a partir da década de 90, com a crescente penetração das
igrejas evangélicas nas classes média e alta da sociedade. Nesse momento novos
produtos e serviços foram sendo agregados como forma de fortalecer esta
identidade cristã.” Até aí, tudo bem, certo?! Porém, a notícia correu rapidamente
no meio corporativo e o “nicho” passou a ser considerado a “galinha dos ovos de
ouro”, tanto para o mercado cristão, quanto para o secular.
O economista Gabriel Martins, membro da Assembleia de Deus no
Rio Grande do Norte diz que um aspecto importante que se deve considerar para o
mercado secular estar de olho no mercado evangélico “é a inadimplência baixa que
se espera desse público, uma vez que as pessoas evangélicas preservam valores
que não lhes permite deixar de honrar seus compromissos”.
Grifes de roupas especializada em “moda gospel”, gravadoras seculares
repletas de cantores cristãos em seu cast, cruzeiros e pacotes turísticos voltados
para o público, itens de educação ou entretenimento para crentes, produtoras
audiovisuais, assim como empresas de buff et exclusivas para eventos eclesiásticos
e uma infinidade de outros negócios focam agora nos evangélicos.
No mundo virtual a questão não é diferente. Se comprar pela internet
está em alta, após a febre dos sites de e-commerce no país, popularmente conhecidos
como sites de “compra coletiva”, é claro que os evangélicos são alvo de mercado
lá também. Diversificadas lojas do ramo gospel tem oferecido seus serviços e produtos
com descontos de até 70% (possibilitados pela grande quantidade de compradores)
no Clube Ovelhas, por exemplo - primeira versão crente do ramo.
E o que dizer do mercado musical, mergulhado numa crise, não
só no Brasil, como no mundo?! No auge da pirataria e dos downloads na internet,
os cristãos constituem o grupo social de melhor consumidor fonográfico, já que
sua maioria só compra CDs originais. Hoje a música gospel é o segundo gênero
mais consumido em todo o país. É devido a essa abrangência tão significativa, que
gravadoras multinacionais passaram a investir pesado no segmento. A Som Livre e
a Sony Music, por exemplo, foram as primeiras gigantes a embarcarem na
empreitada.
Diante do tamanho lucro com os evangélicos, em 2004, o Grammy
Latino, maior premiação musical do continente, foi “forçado” a criar uma
categoria especial para álbum gospel em português. Até o cantor secular, Latino,
conhecido por um repertório de letras totalmente promíscuas, já declarou à imprensa
que pretende lançar um álbum gospel, reforçando que “sem abraçar a religião”.
Em outras palavras, “só visando lucro mesmo”. Certamente, Latino foi o único
que teve coragem de dizer, mas muitos outros artistas seculares pensam constantemente
nessa ideia, mesmo que só como um “sonho de consumo”, literalmente.
“As empresas e os artistas estão utilizando técnicas de
marketing e de neurolinguística para atrair o povo de Deus ao consumo, como por
exemplo: os vendedores falam a linguagem do cristão, evitam referência a
qualquer tipo de vício, e muitas vezes são contratados de acordo com suas preferencias
religiosas”, pontua o economista Gabriel Martins.
Outro importante indicativo do poder e representatividade do
grupo de cristãos na sociedade é a sua presença na televisão. Três dentre as cinco
principais emissoras nacionais possuem horários de sua grade para igrejas e programações
evangélicas. Até a maior de todas elas se “rendeu” ao público. Isso mesmo. Apesar
da TV Globo não alugar horários como as demais, não iria deixar de tirar proveito
desse “nicho” vantajoso, não é mesmo? Ela criou o “Festival Promessas”, um dos maiores
eventos da música gospel nacional, oportunamente televisionado com
exclusividade pela emissora, que teve recorde de audiência no horário da transmissão.
Em 2012, inclusive, já está confirmada a realização do evento em quatro
cidades.
Para o escritor e comentarista de Lições Bíblicas da CPAD, pastor
José Gonçalves, a questão da valorização dos evangélicos, ou desse mercado
precisa ser visto com um olhar mais crítico e pautado nas Escrituras Sagradas.
Segundo ele “nós não podemos cair nessa conversa e banalizarmos a fé considerando-a
como um produto disponível nas prateleiras, e nem podemos viver uma graça
barata”.
Fato preocupante, para o escritor, é que está existindo uma onda
de profissionalização da fé com um carreirismo ministerial, em todos os setores
evangélicos com pessoas sem chamada alguma da parte de Deus, que vem sufocando e
substituindo a verdadeira chamada por jogo de interesses pessoais.
“É necessário que estejamos atentos a quem está por trás dessas
empresas ou empreendimentos ditos como evangélicos e quais seus verdadeiros
interesses em relação ao Povo de Deus. Vigiemos irmãos! Nós não somos massa de manobra”,
alerta o pastor.
por Edilberto Silva e Renata Santos
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