A leitura recente de um texto do pensador Tzevan Todorov chamado “Os dilemas da memória” despertou algumas importantes considerações sobre essa dádiva maravilhosa de Deus. O autor fazia uma clara distinção entre o que comumente chamamos memória, incluindo no conceito até mesmo a condição técnica de um computador de armazenar dados, e o que verdadeiramente constitui a memória humana. De fato, a memória suplanta em muito o simples arquivamento de fatos. Memória é seleção, é arquivamento, mas também é esquecimento, por vezes até recalque, além de ser hierarquização (pois concedemos a eventos, lugares ou pessoas diferentes valores) e estratégias de organização e relacionamento entre as lembranças, resultando nas várias narrativas internas que compõem nossa história pessoal e os discursos mentais sobre aquilo que vivenciamos.
Deixando Todorov, é agradável pensar na memória como uma bênção
especial que permite convidar o passado a assentar-se conosco à mesa, juntamente
com o presente e o futuro. Ali a voz do passado pode ecoar como uma importante ferramenta
para que o hoje e o amanhã se estabeleçam. Quando saudável, a alma terá se ocupado
em selecionar tudo aquilo que lhe pode dar esperança, terá guardado os ensinos
do Senhor com a ajuda do Espírito Santo, terá procurado se lembrar de onde caiu,
para não repetir seus erros, terá arquivado os benefícios da parte de Deus de
que foi alvo, sem se esquecer de nenhum deles, terá priorizado as lembranças positivas
e deixado para os recônditos do esquecimento tudo o que não edifi ca. Quando assim
se procede, o passado assenta-se à mesa comedidamente, sem ofuscar os outros
tempos da existência, sem mutilar o presente com seus amargores e sarcasmos e sem
sufocar até quase impedir a existência de um futuro. Mas há que se cuidar! O
passado busca sempre espaços maiores do que os que lhe são oferecidos e, ao
encontrar uma alma doente e ressentida, alimenta a voz da vitimação e da falta
de perdão. O passado precisa conhecer limites para que cumpra o papel que deve
ter na construção do tempo. O passado não deve morrer, mas deve saber viver e,
para isso, a memória precisa ser santifi cada, da mesma forma que o homem, como
um todo, deve buscar a santifi cação. O rei Davi conheceu um processo especial
de tratamento da memória ao entregar-se nas mãos do Todo Poderoso dizendo: “Sonda-me
ó Deus!”. O fi lho de Jessé sabia que o Criador tem poder até mesmo para revelar
dados doentios ocultos em nossa mente que poderiam vir a manchar, difi cultar ou
mesmo impedir aspectos de sua caminhada e de suas relações.
Algumas circunstâncias negativas, porém, mesmo curadas as
primeiras impressões e tratadas as consequências mais desastrosas, permanecem
registradas sabiamente em nós como alertas contra possíveis erros. Não se trata
de uma memória reativa, ultra sensibilizada, mas de uma sensibilidade adquirida
pelo aprendizado, fruto da experiência que marcou, foi curada, mas modifi cou uma
forma de ver e de sentir. Passa a ser, nesse caso, não mais uma lembrança, mas um
saber. Claro que esse saber, para constituir-se como tal, precisa ser socorrido
pelo auto-exame em oração e pela iluminação das Escrituras Sagradas, com o objetivo
de não resvalar para o caminho do preconceito.
São essas chaves de pensamento que permitem compreender como,
nos últimos dias, Israel decidiu passar do sistema de governo parlamentar
liberal para o sistema parlamentar restrito. Isso se deu após uma semana de negociações,
quando parecia já decidida a dissolução do parlamento, e a poucas horas antes
da medida passar à aprovação em última instância. Foi quando o Primeiro Ministro,
Benjamin Netanyahu e o General Shaul Mofaz, líder da oposição, chegaram a um acordo
contra todas as expectativas. Israel caminha, agora, para um governo de coalizão
nacional, com a inclusão do maior partido do país ao governo. Com o Kadima
anexado, Mofaz passa à posição de Vice Primeiro Ministro e garante-se a obrigatoriedade
do Serviço Militar ou do Serviço Nacional a todos os israelenses.
A mudança chega como um abalo inesperado, mas possível de ser
rapidamente absorvido pela população, uma vez que o parlamentarismo restrito,
muito similar ao presidencialismo, pode propiciar à nação uma maior rapidez diante
das decisões que se façam necessárias na política, especialmente quando se
prenunciam tempos difíceis. Se esses são ou não esperados pelos governantes,
nada se sabe, mas a incógnita do governo pós-Sarcozy, a crise econômica na Europa,
a baixa, quase que generalizada, nas bolsas de valores de vários países, e as
dificuldades pendentes nas relações internacionais com as nações árabes certamente
funcionam como prenúncios que exigem cautela, guardadas as experiências do
passado. Por outro lado, quando o futuro falar, nos esclarecerá se a medida não
veio a se tornar um caminho para o estabelecimento de um regime excessivamente centralizado
– o que não causará espanto para a escatologia.
Até que o futuro chegue, e enquanto isso, Israel vive o período
que antecede a festa de Shavuot (Semanas, Pentecoste), tendo enfrentado no
último dia 5 de maio (2012) os efeitos de um terremoto cujo epicentro foi a ilha de
Chipre e que alcançou 5.7 da escala Richter. Às vinte e duas horas, todo o país
sentiu o abalo. Mesmo não tendo havido vítimas, o susto despertou os especialistas
em sismologia, que insistiram em lembrar os israelenses sobre o estudo que
aponta um grande terremoto para aquela região e que deve ocorrer nos próximos dez
anos e para o qual medidas já estão sendo tomadas. Assim, entre as celebrações
do passado e os abalos do presente, dilemas perpassam a cena israelense exigindo
posturas preventivas quanto ao futuro.
por Sara Alice Cavalcante
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