Como lidar com PNEE

Como lidar com PNEE


Integração e qualidade de ensino aos portadores de necessidades educacionais especiais

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Federal 9.394), aprovada em 20 de dezembro de 1996, consolida e amplia o dever do poder público para com a educação em geral e, em particular, para com o Ensino Fundamental.

No Artigo 22 dessa Lei, é assegurada a todos uma “formação comum indispensável para o exercício da cidadania”. Essa preocupação, os direitos sociais do cidadão, atingiu uma parcela da população, confinada às residências ou aos atendimentos ambulatoriais (nível de reabilitação), sem acesso à escola. Assim, as Escolas Especiais (atendimento segregativo) devem desenvolver currículos que possibilitem a inserção das pessoas nas complexas relações sociais, democratizando oportunidades de conhecer, participar e transformar as relações com o mundo.

Somente sentindo e pensando as relações com o meio físico e social, esses alunos serão capazes de criar alternativas com suas possibilidades.

Trabalhar com Portadores de Necessidades Educacionais Especiais (PNEE) é possibilitar-lhes a construção do conceito de identidade de si mesmos e dos grupos sociais dos quais participam. Uma construção feita através do trinômio sentir/pensar/criar – lenta para portadores de deficiência agravada com uma educação inibidora, sem respeitar as diferenças.

Vale ressaltar a função da Escola Especial de promover a aprendizagem de conteúdos e habilidades escolares e de contribuir para o processo de desenvolvimento, através de ações eminentemente educacionais. Outrossim, cumpre dizer que os alunos de Educação Especial são portadores de reais necessidades educacionais, e não alunos vitimados pelo fracasso escolar.

A prática pedagógica com Portadores de Necessidades Educacionais Especiais deve possibilitar um novo saber à luz dos conhecimentos científicos das diversas áreas de saber; a partir das possibilidades dos alunos, os quais internalizarão conhecimentos, papéis e funções sociais (constituindo conhecimentos e a própria consciência), onde o professor exercerá o papel de interlocutor principal – numa visão prospectiva.

“A educação deve se basear na organização especial de suas funções e em suas características mais positivas” (Vygotsky, 1987), procurando com os alunos construir as vias de acesso à constituição de conhecimentos e valores.

Tendo a educação a preocupação de democratizar o ensino, Portadores de Necessidades Educacionais Especiais precisam sentir-se oportunizados em suas relações, saindo do nível de reabilitação em ambulatórios ou do confinamento do lar. Oportunizar traduz em conhecimento, participação e transformação do meio físico e social; leva-nos ao favorecimento da construção da identidade e da cidadania.

Quando se fala em oportunizar relações, exclui-se a educação com práticas inibidoras, onde não se respeitam diferenças, tornando-se mais lento o processo da identidade de cada um. Segundo Célentiain Freinet, a “escola é um local de trabalho prazeroso, lúdico e deve assegurar uma verdadeira formação...”

E a igreja? Precisamos garantir uma igreja com ensinamento prazeroso, onde se aprende a Palavra de modo facilitador, agradável, acessível ao entendimento dos nossos alunos, assegurando-lhes uma verdadeira e sólida formação cristã.

Recursos específicos

A fim de que o nosso aluno em questão vivencie possibilidades e limites de sua atuação (tarefas, emoções, pensamentos e soluções), é condição precípua o respeito às diferenças na construção da identidade. Logo, em nossas igrejas, as classes (quer sejam infantis, juniores, adolescentes ou jovens) devem levar em conta as características de cada um.

Considerando que deva ser garantida a apropriação de conhecimentos e valores importantes para a integração efetiva desse aluno na sociedade e não havendo por que pensar em currículos específicos vale ressaltar que, sempre que necessário, recursos específicos devem ser empregados de modo a terem garantido o seu direito a uma educação de qualidade. Então, por que não usarmos recursos específicos para evangelizarmos os nossos irmãos Portadores de Necessidades Educacionais Especiais, numa multiplicidade, buscando a unidade ao resgatar para Cristo crianças, adolescentes e jovens tão distintos entre si?

Tais recursos incluem material didático apropriado, através de cartazes, símbolos, articulação correta das palavras, em audível, figuras ou desenhos significativos (alusivos ao assunto), teatro de fantoches ou bonecos, flanelógrafos, filmes, transparências...

É bom quando há interação com o que ouve. Assim, o nosso aluno pode e deve não somente ser ouvinte ou mais um na frequência, mas participar, expressando-se com desenhos (tenha ao seu alcance lápis cera, papel, tesoura...), pintura, colagem... Deixe que se expresse, incentive-o.

Por certo, os Deficientes Visuais (DV) lucrariam mais se conseguíssemos a transição para o braille ou ampliação de textos para aqueles de visão subnormal. Por outro lado, os Deficientes Auditivos (DA) agradeceriam se o seu professor usasse um tom de voz mais adequado ou se simplesmente estivessem sentados mais apropriadamente na classe, mais próximos do professor. Esses são apenas alguns exemplos de como poderíamos ajudar e facilitar a aprendizagem em nossas igrejas, aos Portadores de Necessidades Educacionais Especiais.

Muitas vezes não se consegue o resultado esperado só porque os alunos não ouvem de maneira clara (ou de maneira nenhuma) ou não veem o que lhes é mostrado.

Igualdade assegurada por Deus

Devemos levar em conta que as pessoas portadoras de necessidades educacionais têm direito à participação efetiva na sociedade e em suas igrejas.

Levando em conta que a integração desses portadores permite trocas valiosas tanto para esses alunos quanto para os demais, busquemos em nossas igrejas a riqueza da diversidade. Lancemos a rede! Jesus ama as pessoas. Ele ama os portadores de necessidades educacionais.

Certamente, crescemos no conhecimento da Palavra, quando a apregoamos e ensinamos, indistintamente, que um mesmo é o Senhor de todos (Romanos 10.12), sem acepção de pessoas (Romanos 2.11). É importante compreender que não se defende uma escola igual para todos, um conceito de homogeneidade, mas uma escola que começa diferenciada, visando atender às diversidades. Assim, integrar não significa ajustar os alunos a uma realidade pronta e acabada. Faz-se necessário um mecanismo criativo que possibilite a aproximação eficiente e significativa entre quem está evangelizando e o aprendiz. Esse mecanismo é um conjunto de técnicas e práticas pedagógicas, com a finalidade de oportunizar o conhecimento de Deus.

A participação no estabelecimento das regras de convívio nas Escolas Especiais favorece o conhecimento dos direitos do cidadão e levanta a questão da luta pelo respeito e pela observância dos direitos das minorias, permitindo ao aluno da Escola Especial:

·         Reconhecer-se como indivíduo participante de grupos sociais;

·         Expressar-se de forma a ser compreendido;

·         Adquirir conhecimentos e habilidades que promovam a independência pessoal, a participação e cooperação dos quais faz parte.

A participação desse aluno em nossa igreja possibilita para ele conhecer o convívio como cidadão do Céu (direitos e deveres) e, consequentemente, levanta a questão da luta pelo respeito e pela observância dos seus direitos na Casa do Senhor: cantar, orar, sentir-se parte integrante da nova comunidade, a igreja; sentir-se abençoado e amado pelo grupo, saber-se feliz por estar ali.

A igreja é uma comunidade e, como tal, é lugar onde há uma participação comum não só de ideias, mas também de interesses. Assim, nossos Portadores de Necessidades Educacionais Especiais estarão inclusos em classes de jovens, crianças ou adolescentes, participando efetivamente do processo de ensino, da aprendizagem da Palavra do Senhor, trocando, interagindo, crescendo.

O ensino religioso integra o processo educativo, contribuindo para a formação do aluno. Promove a interação fé e vida, respeitando a tradição familiar, a liberdade, a crença e o direito do aluno. Ele propõe, através da vivência de valores, a fraternidade, justiça, respeito e solidariedade. O aluno, então, estará se desenvolvendo para a formação de um mundo melhor.

A funcionalidade dos currículos

A funcionalidade dos currículos nas Escolas Especiais deve permitir o desenvolvimento da capacidade de autonomia no cotidiano. Refiro-me à capacidade para resolver situações práticas da vida: ir ao banheiro, alimentar-se, vestir-se, despir-se, preparar alimentos, respeitar regras dos grupos.

A funcionalidade da adequação em nossas igrejas a esses alunos deve permitir o desenvolvimento da capacidade de autonomia na relação casa/igreja, Deus/mundo. Eles precisam conhecer o aspecto físico de suas igrejas, suas dependências, amizades e principalmente, reconhecer Jesus Cristo como o seu Salvador.

A aprendizagem precisa ser vivenciada, significativa, tendo o professor como mediador do processo, avaliando-o todo o tempo.

O currículo funcional é aquele que não facilita isolamentos. Ele estará planejado para facilitar a igualdade nas diferenças, a troca na inclusão, o crescimento na inter-relação, a interação na participação.

A inclusão opõe-se à segregação. Precisamos juntar, unir. Não há troca nem riqueza de relacionamentos quando se divide ou separa grupos por quaisquer conceitos. Quanto mais heterogêneas as relações, mais diversificadas serão as práticas pedagógicas para atingirem objetivos e maior será o crescimento de todos.

Se essa verdade já acontece nas Escolas Especiais (há turmas regulares possibilitando a integração), o que diremos da prática pedagógica em nossas igrejas?

Integração = Inclusão = Satisfação

Jesus Cristo veio para unir, e não para dividir; ajuntar, e não espalhar.

Se, para a Escola Especial, o currículo deve favorecer o desenvolvimento cognitivo e social, para a igreja, a preocupação com o ser humano leva-nos à essência: amar o próximo como a nós mesmos. Significa fazer o melhor para que o outro esteja melhor.

O Portador de Necessidades Educacionais Especiais estará sendo bem conduzido se, numa classe, junto aos outros, perceber-se respeitado nas suas limitações e individualidades. Sobretudo, sentir-se amado, cativado.

Planejamento e objetivos

Um aluno que apresenta dificuldades maiores que os demais têm necessidades educacionais e especiais. Para ele, há que se fazer um planejamento especial com adaptações curriculares para alcança-lo. Tais adaptações começam no acesso e locomoção desse aluno. Ele é independente? Necessita de ajuda? É DV? É DA? Isso passa pelo aspecto físico da sua sala de aula (espaço para circulação fácil, material visual adequado – tamanho de figuras, letras, cartazes adequados), chegando ao preparo do professor (relacionamento, aptidão, o que faz, como faz e quando faz). As atividades deverão ser prazerosas, motivadoras, incentivadoras! Portanto, faz-se necessário planejar.

O planejamento é um compromisso com a ação. Para planejar, é necessário refletir sobre o que se pretende atingir e a maneira pela qual se chegará aos objetivos. E preciso refletir sobre o mundo e a relação homem mundo, bem como sobre a prática pedagógica para fins específicos.

Planejar é algo pessoal. Planejar é prever uma flexibilidade, uma maleabilidade no desdobramento das atividades, de tal maneira que se possa atingir diferentes interesses em variados ritmos de aprendizagem.

O planejamento evita a improvisação e a rotina. Para fazê-lo, são necessários fundamentos teóricos sobre o que se quer realizar e os objetivos a alcançar. Planejar para transformar, para promover o homem e o grupo social, é antecipar recursos facilitadores para o aluno e, por que não dizer, para o professor? Significa antever metas a serem vencidas, a melhor maneira para atingi-las e prever tempo para execução e avaliação.

Diríamos que para planejar precisamos de: conhecimento do mundo (dimensões, espaço, tempo); conhecimento do alunado (interesses, problemas, aptidões); estabelecimento das relações conteúdos e objetivos, técnica e atividades, seleção de usos e recursos; e avaliação.

Ao planejar, o educador busca novas estratégicas, se necessário, e propõe-se em constante processo de revisão – atualiza-se e aperfeiçoa-se. Não se acomoda.

Ele também deve planejar para incluir. O planejamento deve viabilizar o “estar bem” uns com os outros, a participação, interagindo a todo instante para uma aprendizagem real. Aos portadores, são importantes o nosso olhar consciente e a nossa visão de longo alcance, vendo-os seres humanos ativos, conscientes de seus direitos e deveres, que respondem cada um a seu modo, com voz e vez.

Devemos incluir para crescer. Todos devemos acolher, aconchegar, respeitar e valorizar. Assim, teremos uma troca feliz em um ambiente saudável, incentivador, rico em experiências! Planejar não somente como ensinar e avaliar, mas o que ensinar e avaliar, para adequar conteúdos e atividades.

Na igreja, a aprendizagem para o conhecimento da Palavra deve ser para todos. Um aprendizado vivo, participativo, interessante e sob a direção do Mestre. Devemos prever recursos necessários para o alcance dos objetivos a serem atingidos na evangelização.

Pais de alunos portadores de necessidades educativas especiais, a Escola Especial é um espaço de aceitação onde ele estará protegido, sem os olhos do “diferente”. E muito mais ele será na igreja, onde falamos do amor e da graça do Senhor, onde anunciamos sermos todos filhos do Altíssimo. Precisamos fazer da igreja um bem de todos.

Segundo Ana Teberosky, psicóloga argentina, a criança com dificuldade exige mais esforço do professor. “Mas esforçai-vos, e não desfaleçam as vossas mãos, porque a vossa obra tem uma recompensa” (2 Crônicas 15.7). Falar do amor de Cristo aos portadores de necessidades educacionais especiais é portar-se, necessariamente, de modo especial com a Palavra.

Portanto, professor, peça ao Senhor a sabedoria necessária para que o aluno alcance a mensagem do Senhor Jesus Cristo. Sede, pois, especiais para Deus.

por Sueli Rodrigues de Jesus

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