(Este artigo é a continuação do segundo texto da série publicado na edição de julho desta seção)
2. Semipelagianismo – O Semipelagianismo é uma corrente teológica associado principalmente a João Cassiano (360-435), um monge que viveu em Marselha, na França. Ganhou destaque durante o debate entre o Agostinianismo e o Pelagianismo acerca da natureza da graça e do livre-arbítrio.
Como já dito, Agostinho de Hipona (354-430) defendia a depravação
total do homem e a graça irresistível de Deus, enquanto Pelágio (c. 360-418)
ensinava que o ser humano poderia iniciar sua própria salvação sem a
necessidade da graça divina. O Semipelagianismo, por sua vez, buscou um meio-termo
entre essas posições.
Os principais ensinos do Semipelagianismo são: (1)
(I) A depravação humana é parcial. Acreditam que o
homem, apesar da Queda, ainda conserva certa capacidade de buscar a Deus.
(II) A iniciativa para a salvação parte do homem. O
ser humano pode, por sua própria vontade, dar o primeiro passo na busca por
Deus. O Concílio de Orange (529) condenou o Semipelagianismo, reafirmando a
necessidade absoluta da graça para a salvação, mas sem adotar um determinismo
extremo. (2)
3. Calvinismo – O Calvinismo é uma corrente teológica
reformada formulada pelo teólogo francês João Calvino (1509-1564), um dos
líderes da Reforma Protestante. Nascido na França, Calvino estudou Filosofia e Direito,
mas acabou dedicando sua vida à teologia. Ao se converter às ideias reformadas,
refugiou-se na Suíça, onde escreveu sua obra mais influente, as Institutas da
Religião Cristã (1536).
A teologia calvinista se consolidou na Confissão de Fé de Westminster
(1646) e se espalhou pela Europa e América através de igrejas reformadas,
presbiterianas e puritanas. Seu ensino sobre a soberania de Deus e a
predestinação influenciou profundamente a ética protestante e o desenvolvimento
de sociedades reformadas.
O ensino calvinista pode ser resumido nos Cinco Pontos do Calvinismo,
conhecidos pelo acrônimo em inglês TULIP:
(I) Depravação Total. O homem está espiritualmente
morto em pecado e incapaz de buscar a Deus por conta própria. A fé é um dom
divino (Jeremias 13.23; Romanos 3.10-12; 1 Coríntios 2.14).
(II) Eleição Incondicional. Deus escolheu, antes da
fundação do mundo, quem será salvo, não baseado em méritos humanos, mas em Sua
vontade soberana (Efésios 1.4,5; Romanos 8.29).
(III) Expiação Limitada (ou particular). Cristo
morreu apenas pelos eleitos, garantindo sua redenção eficaz (João 17.6,9,10; Efésios
5.25).
(IV) Graça Irresistível. Os eleitos, ao ouvirem o
chamado de Deus, não podem resistir à Sua graça salvadora (João 3.3; 2 Coríntios
5.17; Efésios 1.19,20).
(V) Perseverança dos Santos. Os eleitos permanecerão
na fé, pois Deus os preservará até o fim. Nenhum verdadeiro eleito pode perder
a salvação (João 6.51; Romanos 8.28,32,34-39).
Esses princípios contrastam com o Arminianismo, que enfatiza
a livre resposta do homem à graça de Deus, e com o Semipelagianismo, que ensina
que o homem tem um papel inicial na busca por Deus.
4. Arminianismo – O Arminianismo é uma corrente
teológica cristã que surgiu no final do século XVI como uma reação ao
Calvinismo. Seu principal formulador foi Jacob Armínio (1560-1609), um teólogo holandês
que inicialmente foi discípulo das ideias de João Calvino (1509-1564), mas
posteriormente desenvolveu uma interpretação distinta da doutrina da salvação.
Armínio estudou na Universidade de Leiden e aprofundou seus
conhecimentos teológicos em Genebra, onde foi influenciado pelo pensamento
reformado. No entanto, ao se tornar professor de teologia na própria Leiden, começou
a questionar alguns dos principais pontos do Calvinismo, especialmente a
predestinação incondicional e a graça irresistível. Para ele, a soberania de
Deus deveria ser conciliada com a responsabilidade humana e a livre resposta do
homem à graça divina; Após sua morte, seus seguidores, conhecidos como remonstrantes,
sistematizaram sua doutrina e apresentaram em 1610 os Cinco Artigos da
Remonstrância, onde expunham sua oposição ao sistema calvinista. (3)
Estes pontos são descritos em inglês, por meio do acrônimo
em inglês FACTS, que em português é traduzido como: Feito livre pela graça
(para crer); A todos a Expiação; Condicional Eleição; Total Depravação; e
Segurança em Cristo. Nessa compreensão, a Declaração de Fé das Assembleias de
Deus no Brasil apresenta a posição doutrinária e teológica da denominação da
seguinte forma: “A salvação está disponível a todos os que creem (...) sendo
condicionada à fé em Cristo Jesus, estando relacionada à presciência de Deus.
(...) A graça de Deus é manifestada salvadoramente (...) entretanto não é irresistível
(...) Foi Deus quem tomou a iniciativa na salvação (...) É por meio da graça
que Deus capacita o ser humano para que ele responda com fé ao chamado do
evangelho (...) Os seres humanos, influenciados pela graça que habilita a livre
escolha, são livres para escolher (...) Deus proveu a salvação para todas as
pessoas, mas essa salvação aplica-se somente àquelas que creem (...) Não há
dúvidas quanto à possibilidade do salvo perder a salvação”. (4)
Percebe-se, portanto, nitidamente, em nossa soteriologia, a presença
da mecânica da salvação dos remostrantes. Desse modo, apresentamos uma síntese
dos cinco pontos da soteriologia arminiana presente em nossa doutrina pentecostal:
(I) Depravação Total. Na teologia arminiana, a
depravação humana é entendida como total em abrangência (extensão), e não necessariamente
total em intensidade. Assinala que todo ser humano está debaixo da condenação
do pecado (Romanos 3.23). O pecado afetou todas as áreas do ser humano: mente, vontade,
emoções e corpo. Portanto, o homem está totalmente incapacitado de salvar-se
por si mesmo. Porém, Deus concede a graça preveniente, que restaura a
capacidade de resposta ao evangelho.
Em síntese, a depravação é total em alcance, mas não máxima
em grau, e só pode ser superada pela graça de Deus.
(II) Expiação Ilimitada (A todos a expiação). Este
ponto também é conhecido como “Expiação Universal Qualificada”. O termo se
refere à intenção, extensão e aplicação da morte de Cristo em favor dos pecadores.
A palavra “expiação” tem significado abrangente, tais como reconciliação,
propiciação, regaste, redenção e libertação. Trata-se do alto preço que Cristo
pagou pelo nosso resgate (Hebreus 9.12). As Escrituras asseveram que “fomos comprados
para Deus” (Apocalipse 5.9), ou seja, o resgate foi pago para Deus e não para
Satanás. O preço de tal redenção foi pago em favor de todos e não apenas em
favor de alguns, pois Cristo “deu a si mesmo em preço de redenção por todos” (1
Timóteo 2.6). E ainda, em Tito 2.11, as Escrituras dizem: “Porque a graça
salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens”.
O texto bíblico faz alusão à graça, mas não de qualquer
graça, mas de uma graça salvífica disponível para todos os homens.
Não obstante, convém ressaltar que não pregamos e nem
defendemos que todos sem exceção serão salvos (universalismo), mas ensinamos
que Cristo morreu por todos e por cada um, porém nem todos serão salvos. Deus
não quer que alguém pereça, mas que todos se arrependam (2 Pedro 3.9). Assim,
Armínio ensinou que “as Escrituras dizem de maneira extremamente clara e em
muitas passagens que Cristo morreu por todos, pela vida do mundo, e isso pela
ordem e pela graça de Deus Pai”. (5)
O Senhor morreu para salvar a todos os homens (1 Timóteo
2.4), porém a salvação só ocorre conforme as condições que Ele próprio estabeleceu,
ou seja, os homens somente serão salvos mediante a fé que lhes é concedida por
meio da graça (Efésios 2.8,9).
Assim, ratifica-se que “a morte de Jesus faz provisão para o
perdão de todos os pecados, mas ela não estabelece o perdão até que o pecador
se entregue em fé a Deus” (6). A expiação é universal e qualificada, isto é,
Cristo morreu por todos (intenção e extensão universais), mas somente os
crentes serão salvos (aplicação particular).
(III) Graça Resistível (Feito livre pela graça para crer)
A graça de Deus sempre tem a intenção de salvar, mas os homens a podem resistir
(Tito 2.11; 3.4,5; Mateus 23.37). Esta graça é preveniente. Refere-se à ação de
Deus na busca de salvar o homem. Deus prepara o caminho para o homem crer,
obedecer e se converter. Mas, Deus não força ninguém a crer. Ele não violenta a
liberdade humana concedida pela Sua graça e soberania (7), não se sobrepõe à vontade
das pessoas. Os que se achegam a Ele não são coagidos, mas atraídos (João
12.32).
Por este motivo, essa graça divinamente oferecida pode ser resistida:
“Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre
resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais” (Atos 7.51). Ao
rejeitar o apelo divino, o homem não experimenta a regeneração e torna-se
culpado diante de Deus (Romanos 1.22-24).
A graça concede a capacidade e a possibilidade de o homem
receber ou rejeitar a Cristo. Ratifica-se que a graça tem propósito salvífico
para todos. Negamos que Deus deseja salvar somente algumas pessoas. Cremos que
Ele quer salvar todos, mas nem todos serão salvos. O próprio Deus decidiu
soberanamente que o convite ao evangelho pode ser negado. Objetamos que Deus exerça
uma graça irresistível sobre as pessoas à revelia da sua própria vontade. (8)
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) BROWN, Peter. Santo Agostinho de Hipona: Uma
Biografia. Editora Vozes, 2016.
(2) KELLY, J. N. D. Doutrinas Centrais da Fé Cristã.
São Paulo: Paulus, 2000.
(3) OLSON, Roger E. Arminianismo: A Verdadeira História
da Graça de Deus. Reflexão, 2019.
(4) CGADB, 2017, p. 109-115.
(5) ARMÍNIO, vol. 3, 2015, p. 330.
(6) VAILATTI, Carlos A. Expiação Ilimitada. São
Paulo: Reflexão, 2015, p. 49.
(7) DANIEL, Silas. A mecânica da Salvação: uma exposição
histórica, doutrinária e exegética sobre a graça de Deus e a responsabilidade
humana. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 375.
(8) GEISLER, 2010, p. 389.
por Douglas Roberto de Almeida Baptista
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