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Certa feita, ao ministrar uma aula, pedi à turma sugestões de um tema para ser comentado. Foi aí que um aluno, tímida e ousadamente, sugeriu: “Evangelismo para excepcionais!” Um súbito silêncio começou então a “gritar” entre nós. Sentindo as interrogações que borbulhavam no ar e um tanto constrangido, o jovem explicou: “Nunca ouvi ninguém falar a respeito...”
Usei este acontecimento para, a partir de um exemplo real,
registrar a importância, a seriedade e a urgência de abordarmos certos assuntos
em nossas igrejas e, é claro, incluo a deficiência mental na Escola Dominical.
Por quê?
Deus não faz acepção de pessoas. Nós também não deveríamos
fazer. A Bíblia diz que Deus amou o mundo (João 3.16), não apenas alguns.
Embora saibamos essa verdade, nem sempre a praticamos. Nos julgamos melhores ou
mais capazes ou, ainda, mais inteligentes que “uns e outros”. “Reconheço, por
verdade, que Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10.34).
Amar o próximo significa aceitarmos o outro como ele é. Não
como gostaríamos que ele fosse.
Se eu cultivo esse amor, respeito as pessoas que cruzam meu
caminho. Todavia, nem sempre isso acontece com o deficiente, que quase sempre é
visto como o “doentinho”.
Será que nós, seres humanos, dotados de raciocínio e
inteligência, feitos à imagem e semelhança de Deus, algum dia vamos conseguir
entender e praticar o amor ao próximo?
O fato de poder abordar um tema como este, numa revista
evangélica, criada para somar esforços a fim de “construir” uma Escola
Dominical abrangente, preocupada com os que, por diversas razões, vivem à
margem, significa que estamos progredindo e que existem homens e mulheres de
Deus sensíveis à sua voz e preocupados em alcançar os excluídos através do
ensino da Palavra do Mestre.
É preciso atender ao “ide” de Jesus, mas é igualmente
necessário que nos preocupemos com “toda criatura”.
O deficiente está incluso na expressão “toda criatura”. O
que o diferencia das demais pessoas é seu grau de comprometimento mental
evidenciado por suas necessidades especiais.
Escola Dominical acessível a todos
Crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos e portadores
de uma ou várias deficiências. Acesso a todos não deveria ser sinônimo de “entrada
franca”, mas sim, de preocupação em receber, acomodar e acompanhar bem toda e
qualquer pessoa, inclusive aquela que é deficiente.
Deus é pleno; somos limitados
O canhoto tem limitações. Ao aprender a dirigir, passar a
marcha com a mão direita, sente dificuldades porque é complicado para alguém
que usa preferencialmente a mão esquerda, precisar fazer uso da direita. Apesar
disso, não é difícil encontrar motoristas canhotos.
É claro que até se tornarem habilitados terão que treinar,
em termos motores, muito mais que os destros. Isso, de forma alguma o condena à
incapacidade de dirigir. É apenas uma questão de treino.
A exemplo do canhoto, o deficiente mental (DM) precisará de
mais treino, o que, provavelmente, requererá mais tempo.
De modo algum estará “condenado” a não conseguir. Ele tem
seus valores, suas habilidades e capacidades, como qualquer ser humano. Precisa
somente de oportunidade e de espaço. Não do favor dos “normais”. O DM precisa
de respeito e acesso. Precisa de uma chance!
Deficiência mental não é necessariamente sinônimo de
ignorância ou incompetência
O DM (deficiente mental) vai aprender no seu tempo, depois
de superadas suas dificuldades.
Desenvolvi um projeto na rede municipal de ensino do Rio de
Janeiro com alunos portadores de deficiência mental que estavam agrupados em
uma “classe especial”.
O projeto constava em confeccionar uma cesta de jornal
(trabalho artesanal), onde o objetivo é, a partir de folhas de jornal, trançar
uma “malha”, semelhante a palha ou vime, e montar uma cesta, que poderá ser
usada como fruteira, para colocar flores etc.
Alunos “normais” e com a mesma idade, entre 12 e 15 anos,
realizariam em, no máximo três dias, com uma carga horária de quatro horas e
meia por dia, num trabalho independente, sem requerer ajuda em todos os passos.
Meus alunos especiais, embora necessitando de ajuda passo a passo, fizeram a
cesta e levaram três semanas. Parece muito? Não é, se compararmos com a outra
alternativa, que seria a de nunca ter, sequer, tentado. Demoraram um pouco mais
que os “normais”, mas chegaram lá.
Nós, que não somos deficientes, quantas vezes demoramos mais
do que esperávamos para atingir certos objetivos. Assim, não adianta impor ao
portador de deficiência mental um ritmo que ele não possa acompanhar, isso só
vai trazer frustração e sentimento de incapacidade.
Precisamos agir com calma para que o DM, aos poucos,
sinta-se seguro e confiante, capaz de experimentar e realizar!
É difícil, compreendo, anunciar o Evangelho, discipular um
deficiente mental, ensinar-lhe as verdades contidas na Bíblia. Mas não é
impossível.
Humanamente falando e lançando mão de um raciocínio
estritamente pedagógico, existem várias maneiras de tornar o ensino ao
deficiente mental mais eficaz e efetivo, haja vista que, em termos didáticos,
nada é isolado, é sempre um processo. E, nesse processo ensino-aprendizagem, o
deficiente pode, e com êxito, encaixar-se, desde que lhe sejam oferecidas
oportunidades. Espiritualmente falando, haveria alguma coisa difícil ou
impossível para Deus?
Temos uma Escola Dominical eficaz quando entendemos que
modernizar não significa mundanizar. Dessa forma, por que não lançarmos mão de
aulas informatizadas, recursos audiovisuais, e suportes técnico, pessoal,
financeiro e administrativo?
Então, como funcionaria uma ED inclusiva, ou seja, equipada,
também, para atender ao deficiente mental? Esta ED cumpriria os seguintes
passos.
Conscientização dos pais dos alunos normais
Às vezes, encontramos resistência da parte dos pais dos
alunos intitulados normais com relação à integração e convivência com os
deficientes. Chegam a alegar que seria uma influência ruim para seus filhos.
Não percebem que o que faz mal a seus filhos é o preconceito, o rótulo e o
orgulho ostentado por eles.
Um indivíduo portador de deficiência (seja ela qual for –
física, auditiva, visual ou mental) é um ser humano que, embora tenha certas
dificuldades, também tem direito a uma vida plena, participativa, interativa e
prazerosa.
Seguindo este raciocínio, nós, cristãos, não podemos deixar
de lembrar que eles não têm direito apenas à vida, mas que poderão ter também
direito à vida eterna. Precisamos alcançá-los, ganhá-los para Jesus e ajudá-los
na caminhada cristã. Não é esse o propósito da Escola Dominical?
Devem entender que não precisam “esconder” seu filho; não
têm do que se envergonhar. É clara a complicação de ter que conviver com a
realidade de um filho deficiente. Parece que o chão falta, que não se vai
conseguir, mas é necessário caminhar de “cabeça erguida” e investir e
acreditar.
Conscientização e sensibilização dos alunos e professores
Os corpos discente e docente de qualquer escola funcionam
como realizadores do processo educativo.
Na Escola Dominical não deve ser diferente. Em outras
palavras, a implantação da matrícula de alunos PNEE (portadores de necessidades
educacionais especiais) na Escola Dominical deve ser algo discutido, conversado
e assimilado por seus membros para que não haja divergência ou incompreensão.
Oferecer capacitação aos professores e demais agentes
direta ou indiretamente envolvidos
Não segregar os alunos especiais
O mundo já está preocupado e mobilizado com uma educação
inclusiva. E por que não a Igreja do Senhor? Particularmente, sou contra a
abertura de “classes especiais” porque, de acordo com minha modesta
experiência, se eu separo os “alunos especiais” dos “normais”, estes perdem o
mais rico, que é a convivência, a interação e a socialização advindos do
contato com aqueles que não têm a mesma deficiência. Por exemplo, se uma pessoa
(independentemente de ser deficiente ou não) que não pronuncia corretamente uma
determinada palavra, conviver e interagir com pessoas que apresentam o mesmo
erro, provavelmente, jamais o corrigirá. Se todos falam assim, então, não
preciso consertar; não há sequer o despertamento para detectar o erro – ele
passa despercebido.
Em contrapartida, se esta mesma pessoa convive com pessoas
que pronunciam a mesma palavra corretamente, mais cedo ou mais tarde é
despertada para o erro e buscará o acerto. Para isso, é preciso:
– Ter salas acessíveis e receptivas ao PNEE;
– Criar um grupo responsável pela recepção e encaminhamento
do PNEE para avaliar as reais necessidades e possibilidades do aluno;
Por que tanta preocupação com necessidades e possibilidades
e tão pouco interesse na idade cronológica? Exatamente porque, tratando-se de
deficiente mental, todos sabemos que existe uma discrepância entre sua idade
mental e sua idade cronológica.
Uma vez “encaixado” em uma determinada classe, deverá haver
um trabalho de apoio a esta turma, aos professores, demais alunos e
responsáveis.
– Cuidar para que a turma onde o PNEE estiver matriculado
tenha uma redução de pelo menos 30% no número de alunos para não sobrecarregar
o professor, em função da maior atenção que ele precisará oferecer.
– No trabalho com DM, a utilização de materiais como massa
de modelar, argila etc., pode ser mais útil que um cartaz ou gravura. Por
exemplo, o uso de:
a) Lápis preto com diâmetro maior do que o utilizado
normalmente (como um “gizão” de cera), é importante tendo em vista a comum
dificuldade do DM em executar os movimentos que envolvem os pequenos músculos,
como o que fazemos para escrever;
b) Folhas de papel pardo, já que às vezes é difícil para um
DM escrever em uma folha de papel de tamanho ofício, devido à dificuldade de
localização espacial;
c) Livros coloridos, de fácil visualização. A equipe de
coordenadores e professores da Escola Dominical podem confeccionar livros de
pano para apoio visual às lições. Estes podem ser confeccionados a partir de
uma técnica simples: o “mata-borrão”, que usa basicamente papel, tecido,
lápis-de-cera e ferro de passar.
É claro que haveria outro caminho a seguir para trabalharmos
com o aluno especial, que seria a abertura de classes especiais as quais teriam
as seguintes características:
– Somente alunos portadores de necessidades educativas
especiais;
– No máximo oito alunos;
– Mista (sexo feminino e masculino) ou homogênea
(preferencialmente homogênea);
– Dois professores – para que se revezem na ministração das
aulas, mas que estejam sempre presentes para que o grupo não tenha um ou outro como
estranho.
É imprescindível um bom entrosamento entre professor e
aluno. Convém ressaltar que esse entrosamento é salutar e recomendável para
toda e qualquer classe. No caso do aluno portador de deficiência mental é
fundamental para que ele se sinta seguro e à vontade com seu professor (orientador
da aprendizagem).
– Uso unânime dos materiais citados anteriormente;
– Providenciar um intervalo maior que o das outras classes, a
fim de dosar o número de informações trabalhadas.
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