Por que o Espírito Santo, ao vir sobre Jesus, desceu como uma pomba? Não poderia ser outra ave? Sendo Ele uma pessoa, não poderia ter vindo em forma humana?
Para responder às questões, precisamos primeiro definir que afirmar que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Trindade não significa dizer que Ele possua natureza humana ou um corpo como o de uma pessoa humana. Em outras palavras, afirmar que o Espírito Santo é uma pessoa significa dizer, dentro da tradição cristã conservadora, que Ele é um ser distinto, com mente, sensibilidade, emoções e vontade própria. Além disso, essa afirmação salvaguarda a Sua natureza divina, coeterna com o Pai e o Filho, opondo-se às declarações heréticas que O enxergam como mera força ativa, energia ou influência impessoal de Deus. Ele é Deus, assim como o Pai e o Filho são Deus. Logo, “pessoa”, neste caso, não tem o sentido de humanidade, mas de essência, personalidade e pessoalidade. O único na Trindade que assumiu a natureza humana foi a Pessoa do Filho. O Espírito não é revelado na Bíblia por encarnação, mas por manifestação.
No batismo de Jesus, os quatro Evangelhos nos informam que o
Espírito de Deus desceu sobre Ele em forma corpórea de pomba (Mateus 3.16; Mc
1.10; Lucas 3.22; João 1.32,33). Por que o uso da pomba? São raras as
associações do Espírito com uma pomba nas Escrituras hebraicas ou nos textos
judaicos anteriores. Contudo, a partir do episódio batismal no rio Jordão, a
pomba tornou-se símbolo frequente do Espírito Santo no Cristianismo.
Em Gênesis, no início da criação, é-nos dito que o Espírito
de Deus “pairava por sobre as águas” (Gênesis 1.2 – ARA). A palavra hebraica
usada aqui, rachaph, tem o sentido de “mover-se, pairar ou tremular”.
Ela é utilizada por Moisés para descrever uma águia pairando sobre os seus
filhotes (Deuteronômio 32.11). Em Gênesis 1, a cena apresentada é a do Espírito
Santo pairando sobre as águas como uma ave que sobrevoa seus filhotes. Embora
nenhuma ave seja citada explicitamente no texto, a alusão existe. Assim,
podemos dizer que o Espírito sobrevoava a criação como uma ave, talvez
preservando ou preparando o ambiente.
Ainda em Gênesis, temos a presença de outra ave, agora na arca
de Noé. Após os quarenta dias de dilúvio (Gênesis 7.17), as águas prevaleceram
cento e cinquenta dias sobre a terra (Gênesis 7.24), cobrindo os mais altos
montes. Depois desse período, Deus lembrou-se de Noé e enviou um vento que fez
as águas baixarem gradativamente. Noé, na esperança de já encontrar terra seca,
soltou uma pomba por três vezes. Na segunda vez, ela voltou trazendo no bico
uma “folha nova de oliveira” (Gênesis 8.11 – ARA). Era o prenúncio de uma nova
era. Na terceira vez, a pomba foi e não voltou mais. Isso nos mostra que, na
Bíblia, a pomba também indica o início de um novo tempo, apontando para um novo
começo.
Isso nos leva a compreender que, ao descer sobre Jesus no
batismo, em forma corpórea de pomba, o Espírito Santo anunciava o início de uma
nova era: a Era do Messias. Era o começo de um novo tempo, assim como no início
da criação e no episódio do dilúvio. Portanto, a descida do Espírito como pomba
no batismo de Jesus alude aos episódios de Gênesis 1 e 8. Outro fator que ajuda
a entender por que a pomba foi usada como símbolo do Espírito está na própria
natureza da ave. O Senhor Jesus nos disse que devemos ser “símplices como as pombas”
(Mateus 10.16 – ARA), isto é, simples, puros, inocentes, mansos e singelos como
elas. Mansidão, pureza e singeleza são características associadas à atuação do
Espírito Santo, o que também justifica o uso da ave.
O Espírito Santo poderia ter usado outra ave? Sim, poderia. Entretanto,
o uso da pomba é intencional, apontando para seu caráter singelo e puro, bem
como para os episódios de Gênesis, nos quais a alusão ou presença de aves antecede
momentos inaugurais da história da salvação (Criação, Dilúvio e Messias). Ali,
no rio Jordão, iniciava-se um novo tempo. Aquele simples galileu, Jesus Cristo,
estava sendo capacitado pelo Espírito Santo para dar início a uma nova criação,
agora em Sua própria pessoa. A pomba descendo visivelmente sobre Ele demonstrava
a todos que Cristo era, de fato, o Messias de Jeová, o Ungido do Senhor.
por Melquesedec Damaceno
Compartilhe este artigo. Obrigado.

إرسال تعليق
Seu comentário é muito importante