Epístola aos Colossenses foi escrita pelo apóstolo Paulo em um contexto marcado por intensa pressão cultural, filosófica e religiosa sobre a jovem comunidade cristã da cidade de Colossos. Situada na Ásia Menor, Colossos estava inserida em um ambiente plural, no qual conviviam elementos do judaísmo legalista, do misticismo oriental e da filosofia greco-romana. (1) Diante desse cenário, Paulo escreve com o objetivo central de afirmar a supremacia e a suficiência de Cristo, bem como de advertir a igreja contra doutrinas que, embora sofisticadas em aparência, desviavam os crentes da verdade do Evangelho.
É nesse contexto que se insere uma das advertências mais contundentes
do Novo Testamento contra sistemas ideológicos que se apresentam como
libertadores, mas que, na prática, escravizam a mente e o coração: “Tende cuidado,
para que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas,
conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo
Cristo” (Cl 2.8).
As falsas doutrinas: de Paulo aos nossos dias
Desde os dias apostólicos, a Igreja sempre conviveu com ideologias
concorrentes em relação ao Evangelho. Essas doutrinas raramente se apresentavam
como abertamente anticristãs; ao contrário, surgiam travestidas de espiritualidade,
racionalidade ou progresso moral. (2) Paulo identifica esse fenômeno ao
denunciar uma filosofia que misturava especulação humana, tradição religiosa e elementos
místicos, mas que, no fundo, esvaziava a centralidade de Cristo.
Essa realidade não apenas persiste, como se intensificou na contemporaneidade.
As ideologias modernas — especialmente as de matriz humanista e secular —
tornaram-se mais agressivas, dogmáticas e intolerantes à fé cristã histórica. O
que antes era apresentado como alternativa intelectual hoje assume contornos de
imposição cultural, buscando redefinir moral, identidade, família e verdade. (3)
Advertência paulina: liberdade aparente, escravidão real
O alerta de Paulo é profundamente pastoral e, ao mesmo
tempo, teologicamente rigoroso. O verbo grego sylagōgeō (ἐσυλαγωγέω), traduzido como
“enredar” ou “fazer presa”, possui o sentido de capturar como despojo de
guerra. (4) Paulo, portanto, não trata essas filosofias como neutras, mas como
forças que escravizam espiritualmente aqueles que delas se tornam reféns.
A gravidade da advertência está no fato de que essas
ideologias se fundamentam:
1. Na tradição dos homens e não na revelação divina;
2. Nos rudimentos do mundo, isto é, em princípios meramente humanos
e temporais;
3. Na negação prática da suficiência de Cristo.
Trata-se, portanto, de um discurso de liberdade que promete emancipação
do “dogma religioso”, mas que conduz à escravidão do relativismo moral, da
autonomia absoluta e da negação da verdade objetiva. (5)
A atualidade da advertência: ideologias contemporâneas em
conflito com a fé cristã
A advertência paulina ecoa com força no cenário atual.
Ideologias como o secularismo militante, o marxismo cultural, o relativismo
moral, a ideologia de gênero e certas formas de humanismo ateu compartilham um
denominador comum: a exclusão de Cristo como fundamento último da verdade e da
ética. (6)
Esses sistemas apresentam-se como libertadores — da
religião, da moral “tradicional”, da família e até da própria natureza humana
—, mas produzem confusão identitária, fragmentação social e vazio espiritual.
Como observou Francis Schaeffer, uma cultura que abandona a verdade absoluta inevitavelmente
mergulha no caos moral. (7)
Aprimoramento doutrinário e resistência cristã
Diante desse quadro, a exortação de Paulo não é à fuga
cultural, mas ao aprimoramento doutrinário e ao discernimento espiritual. A
Igreja é chamada a aprofundar-se na Palavra, fortalecer sua formação teológica
e exercer uma apologética fiel, amorosa e intelectualmente honesta.
Combater as ideologias contemporâneas não significa
hostilidade, mas fidelidade à verdade. Significa reafirmar que a verdadeira
liberdade não nasce da autonomia humana, mas da submissão a Cristo, “em quem
estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses
2.3).
A advertência de Colossenses 2.8 permanece como um farol
para a Igreja em todos os tempos. Paulo nos lembra que nem toda proposta de
liberdade conduz à vida, e que nem toda filosofia é compatível com o Evangelho.
Em um mundo cada vez mais hostil à fé cristã, o chamado apostólico é claro:
vigiar, discernir e permanecer firmes em Cristo, rejeitando todo sistema de
pensamento que, ainda que sofisticado, não tenha sua origem e seu fim nEle.
Notas
(1) WRIGHT,
N. T. Colossians and Philemon. Leicester: IVP, 1986, p. 23–25.
(2) BRUCE,
F. F. The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians.
Grand Rapids: Eerdmans, 1984, p. 69–71.
(3) SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. São
Paulo: Cultura Cristã, 2005, p. 45–47.
(4)
O’BRIEN, Peter T. Colossians, Philemon. Waco: Word Books, 1982, p. 92.
(5) SPROUL, R. C. A Santidade de Deus. São Paulo:
Cultura Cristã, 2014, p. 161–163.
(6) PIPER, John. Cristo é superior. São Paulo: Shedd
Publicações, 2018, p. 88–90.
(7) SCHAEFFER, Francis A. Como Devemos Então Viver?
São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 204–206.
por Esdras Cabral de Melo
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