A cena descrita pelo apóstolo João em seu Evangelho, no capítulo 17, é única. Ao ler essa passagem das Sagradas Escrituras, somos convidados a entrar no Santo dos Santos da intimidade entre o Pai e o Filho. Não existem multidões, milagres ou parábolas; existe apenas oração. E que oração! É a súplica do Cristo, que sabe que em breve seria entregue nas mãos dos pecadores, intercedendo por aqueles que ainda continuariam caminhando neste mundo.
No centro dessa oração, está um pedido que ecoa pelos
séculos: “Para que todos sejam um” (João 17.21). Não é desejo do Mestre que
Seus discípulos tenham uma mera unidade institucional, forçada ou política. Ele
pede ao Pai que essa unidade seja natural, enraizada na própria Trindade: “como
Tu, ó Pai, o és em mim, e eu em Ti” (v.21). Não é apenas uma unidade
sociológica; é uma unidade espiritual.
A unidade desejada por Cristo nasce do fato de que o Pai
enviou o Filho, e o Filho deu aos Seus discípulos a mesma glória, isto é, a
mesma participação da vida divina que recebeu do Pai (João 17.22). É como se
pudéssemos ouvir o nosso Senhor pedir ao Pai: “Que eles participem do nosso
amor, da nossa comunhão, da nossa intimidade”. Por esse motivo, a unidade
cristã não deve ser apenas um acordo superficial, mas um compartilhamento da
vida no Espírito (João 14.17; 1 Coríntios 12.13).
Todo o Novo Testamento ensina de maneira clara essa verdade:
Paulo afirma que “há um só corpo e um só Espírito” (Efésios 4.4); Pedro afirma
que somos edificados como pedras vivas em um mesmo templo (cf. 1 Pedro 2.5); o
apóstolo João, mais tarde, afirmará que a nossa comunhão é com o Pai e com o Filho
(cf. 1 João 1.3). A unidade, então, não é algo criado pela Igreja, mas algo do
qual ela participa.
Jesus estabelece que essa unidade deve estar ligada ao
evangelismo: “Para que o mundo creia que Tu me enviaste”. A apologética cristã não
deve ser apenas argumentos, mas o testemunho de vidas transformadas e
reconciliadas com Deus. O apóstolo dos gentios afirma que fomos chamados para
viver em paz (cf. Romanos 12.18) e que essa paz demonstra que somos novas
criaturas (cf. 2 Coríntios 5.17-20). Onde há divisão constante, o mundo enxerga
apenas um agrupamento humano; onde há unidade espiritual, o mundo percebe algo
sobrenatural.
A Igreja, em seu nascedouro, experimentou um crescimento que
foi resultado da demonstração pública dessa união. As Sagradas Escrituras
afirmam que os crentes “estavam juntos e tinham tudo em comum”, e essa unidade
fazia parte de sua adoração, pois perseveravam “unânimes todos os dias no
templo e, partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de
coração”. Esse comportamento foi o diferencial evangelístico que fez com que os
crentes caíssem “na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor
à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2.47).
A verdadeira unidade, espiritual e estabelecida por Cristo,
tem como base a verdade: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”
(João 17.17). As Sagradas Escrituras nos ensinam que a unidade cristã não pode
existir apartada da sã doutrina. Quando todos os crentes se submetem à mesma
Palavra e o processo de santificação coletiva é construído, alcança-se um
ambiente no qual os pensamentos, afetos e desejos se alinham ao caráter de
Deus. Por esse motivo, o que leva os apóstolos a combaterem os falsos ensinos
não é um zelo doutrinário frio, mas o desejo de preservar a unidade da fé (Efésios
4.13,14; Judas 3). A unidade cristã exige que o amor seja acompanhado da
verdade, pois amor sem verdade é sentimentalismo, e verdade sem amor é dureza.
Paulo desenvolve a doutrina da unidade, citada por Jesus em sua
oração sacerdotal, afirmando que somos muitos membros, mas um só corpo (1 Coríntios
12.12). Unidade não significa uniformidade, mas atitude coordenada pela mesma vida
que habita em cada um: o Espírito Santo. Por esse motivo, a diversidade de dons
não deve ser vista como uma ameaça à unidade. Pelo contrário, a riqueza dessa diversidade
a fortalece. Por isso, qualquer divisão causada por dons, estilos, ministérios
ou preferências sempre foi considerada, no Novo Testamento, um escândalo espiritual
(1 Coríntios 3.1–3).
O apóstolo é enfático ao ensinar que a unidade é expressão
da obra interior do Espírito. Sentimentos como mansidão, longanimidade, perdão
e amor — “que é o vínculo da perfeição” (Colossenses 3.14) — manifestam-se nos
corações daqueles que experimentam a verdadeira união, a qual não é mantida
pela força, mas pela cruz. Vivenciá-la significa morrer para o ego, para
preferências e para vinganças. Significa levar “as cargas uns dos outros” (Gálatas
6.2), suportar uns aos outros (Efésios 4.2) e amar até os que nos ferem (Romanos
12.20,21). João, o mesmo apóstolo que ouviu e registrou a oração do Mestre,
dirá mais tarde: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos
os irmãos” (1Jo 3.14), pois ele mesmo ouviu Cristo dizer: “Nisto todos
conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João
13.35). A unidade é o ambiente onde o amor se manifesta e se torna visível.
O apóstolo do amor é enfático ao ensinar que a falta de
unidade entre os irmãos compromete a unidade com Deus, fazendo com que aquele
que age dessa maneira vivencie um falso evangelho: “Se alguém diz: Eu amo a
Deus e aborrece a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao
qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento:
que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 João 4.20,21).
Por esse motivo, amor e unidade são inseparáveis, estando entrelaçados
nos corações transformados pelo Espírito Santo de Deus. O amor que vem de Deus leva
a Igreja a vivenciar de forma prática, e não apenas teórica, a unidade que
Cristo deseja que Seus discípulos vivam: “Meus filhinhos, não amemos de
palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 João 3.18).
por Sérgio Sodré
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