Carta ou Epístola no Novo Testamento

Carta ou Epístola no Novo Testamento


A distinção entre “Carta” e “Epístola” tem sido debatida desde o início do século 20, especialmente após a teoria de Adolf Deissmann, que procurou diferenciar escritos ocasionais de composições literárias. Haveria base para tal distinção? Este artigo analisa o uso desses vocábulos em contextos hebraicos, gregos e latinos, a fim de verificar se há fundamento para a diferenciação do gênero.

Palavras para cartas na Antiguidade bíblica e greco-romana

O primeiro termo observado aqui é o substantivo hebraico תֶרֶּגִא (igeret1), que significa “epístola”, carta”, “missiva”, carta real ou formal. Em 2 Crônicas 30.1, refere-se às “cartas” ( תוֹרְּגִא igerot) enviadas pelo rei Ezequias a Efraim e a Manassés. Esse texto, na Septuaginta, foi traduzido por πιστολή (epistolê), que significa carta” ou “epístola”.

No Novo Testamento, a expressão mais comum é a palavra πιστολή (2) (epistolê), a qual tem como significado “carta” ou epístola”, não havendo distinção entre os termos. Segundo Johannes P. Louw e Eugene A. Nida (1), (3) epistolê refere-se a um objeto que contém um texto dirigido a uma ou várias pessoas uma carta, geralmente escrita em papiro (cf. At 23.25; 23.33).

Frank Pack, (4) por sua vez, comenta que o termo epistolê refere-se a uma correspondência, seja ela particular ou pública. O vocábulo tornou-se a designação mais formal para uma carta no contexto literário greco-romano, sendo, consequentemente, adotado no uso do Novo Testamento, onde ocorre 24 vezes. (5)

O termo χάρτης (6) (chártēs – papiro) aparece somente em 2 João v.12 no Novo Testamento, (7) mas é relevante nos estudos de manuscritos antigos, especialmente ao tratar da forma física das epístolas. Essa palavra não designa um tipo de escrito distinto, em oposição a epistolê; ao contrário, chártēs (8) refere-se a uma folha de papiro [carta], usada para a escrita. (9) Assim, a expressão diz respeito ao material em que as cartas eram escritas, e não ao tipo de gênero literário, o qual é indicado pelo termo πιστολή (epistole).

Entre as expressões em latim, há o vocábulo charta, (10) que significa folha de papel, papiro, folha escrita, documento, livro ou arquivo. Refere-se ao material sobre o qual as cartas ou documentos eram escritos, e não ao conteúdo. Seu equivalente grego é o termo χάρτης (chártēs).

A palavra principal para “carta” na literatura latina é epistŭla, (11) cujo significado básico é “carta” ou “epístola”. Ela é derivada do grego πιστολή  (epistole). Sem sombra de dúvidas, essa é a expressão mais comum para designar uma carta no contexto latino do primeiro século, bem como nas traduções posteriores da palavra πιστολή (epistolê) nos textos do Novo Testamento.

Após analisarmos os vários termos em hebraico, grego e latim, percebemos que a palavra πιστολή (epistolê) é a mais específica para o gênero epistolar, sendo o principal termo usado no grego do Novo Testamento.

É uma carta ou epístola?

Esta é a questão principal para compreendermos o gênero epistolar como um todo. As expressões mencionadas acima referem-se a dois gêneros diferentes ou a duas maneiras de se reportar ao mesmo gênero literário, que assume estilos e finalidades específicas em cada texto escrito?

Pensando nisso, buscaremos refletir sobre a questão, trazendo à memória a teoria levantada no início do século XX por Adolf Deissmann, (12) o qual procurou fazer uma distinção entre “cartas” e “epístolas”, alegando que os escritos do apóstolo Paulo se classificam como cartas. De acordo com o mencionado autor, cartas eram escritos ocasionais, que tratavam de situações específicas, ao passo que as epístolas eram composições literárias destinadas à posteridade. No entanto, essa opinião é questionada atualmente, pois, segundo Andreas J. Köstenberger e Richard D. Patterson, (13) as cartas de Paulo são de natureza tanto ocasional quanto literária. Na opinião dos referidos autores, o defeito da teoria de Deissmann resulta de uma identificação excessivamente estreita das cartas de Paulo com papiros ou cartas privadas helenísticas, diferentes das cartas oficiais ou públicas. (14)

Segundo Broadus D. Hale,(15) Deissmann usou palavras do escritor romano Cícero, que viveu entre 106 e 43 a.C., para demonstrar tal diferença entre carta genuína e epístola. Diante disso, é preciso analisar a declaração de Cícero referente à questão e observar se nela há fundamento para tal teoria. Vejamos a fala de Cícero segundo Hale: “Vocês veem, eu tenho uma maneira de escrever o que acho que será lido por aqueles a quem envio minha carta, e outra maneira de escrever o que acho que será lido por muitos” (negritos meus). (16)

Observamos, aqui, que Cícero tinha “uma maneira” de escrever cartas para uso particular e “outra maneira” de redigir o que seria lido por um público maior. Entretanto, isso não significa que, pelo fato de haver variações estilísticas opcionais na forma de redação das cartas, elas devam ser classificadas como gêneros distintos, conforme sugerido por Deissmann. Ademais, em momento algum Cícero emprega os termos “carta” e “epístola” para distinguir seus escritos como gêneros diferentes, mas apenas afirma que escreve de maneiras distintas para públicos distintos (particular e público). Dessa forma, apesar dos esforços para diferenciar cartas de epístolas, não se encontra na fala do orador romano fundamentação suficiente para sustentar tal teoria.

Corroborando nossa exposição, Grant R. Osborne (17) demonstra que “a maioria” dos comentaristas contemporâneos concorda que o posicionamento de Deissmann é demasiadamente “simplista”, pelo menos por duas razões: primeiro, porque poucos classificariam as cartas de Paulo como não literárias; segundo, porque existiam outros padrões epistolares helenísticos e judaicos que Deissmann desconsiderava.

Assim, concluímos com as palavras assertivas da historiadora Carolline da Silva Soares, (18) a qual afirma: “Os escritores antigos não estavam preocupados com essa questão e não faziam diferenciação entre cartas, epístolas, litterae e outras formas de correspondência”. A seu ver, “tal inquietação, isto é, distinguir o que era carta, epístola e litterae no mundo greco-romano, é muito mais uma necessidade dos estudiosos do mundo atual do que dos indivíduos da Antiguidade”. Portanto, como afirma Romi Auth,19 “essa distinção não existe”.

Notas

(1) Cf. SCHÖKEL, Luis Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2010, p. 26. DAVIDSON, Benjamin. Léxico analítico hebraico e caldaico. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 138.

(2) Cf. GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento grego/português. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 83; e LOPES, José. As 100 palavras gregas mais importantes do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2025, p. 161.

(3) LOUW, Johannes P.; NIDA, Eugene A. Léxico Grego-Português do Novo Testamento baseado em domínios semânticos. São Paulo: SBB, 2013, p. 56 e 353. Consulte ainda: PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everett F. (eds.). Dicionário Bíblico Wycliffe. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2023, p. 652.

(4) Apud PFEIFFER, p. 652.

(5) πιστολή (epistolê) ocorre em: (At 9.2; 15.30; 23.25; Rm 16.22; 1Co 5.9; 2Co 3.1-3; 7.8; 10.9-10; Cl 4.16 [2x]; 1Ts 5.27; 2Ts 2.2; 3.14,17; Hb 13.22; 1Pe 5.12; 2Pe 3.1; 2Jo 1.10; 3Jo 1.9; Ap 2.1,8,12,18; 3.1,7,14). Cf em: Nestle-Aland. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart, Alemanha: Deutsche Bibelgesellschaft, 2018.

(6) Χάρτου (chartou, genitivo de chártês, 2 Jo 1.12) é traduzido como “papel” ou “folha” – material de escrita. Cf. em: Nestle-Aland. Novum Testamentum Graece, 2018, p. 728.  

(7) Consulte VINCENT, Marvin Richardson. Vincent: estudo no vocabulário Grego do Novo Testamento. Vol II. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 328.

(8) Cf. GINGRICH, op. cit., p. 222.

(9) Consulte: LOUW, 2013, p. 56.

(10) REZENDE, Antônio Martinez de; BIANCHET, Sandra Braga. Dicionário de Latim Essencial. 2. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Autêntica Clássica, [s.d.]. p. 66, [em PDF]. ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 14. ed, Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 416.

(11) REZENDE, p. 139, [em PDF].

(12) Apud KÖSTENBERGER, Andreas J; PATTERSON, D. Richard. Convite à interpretação Bíblica: a tríade hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 424.

(13) KÖSTENBERGER e PATTERSON, Idem.

(14) Idem.

(15) Cf. HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. 2 ed. Rio de Janeiro: JUERP,1986, p.195. 

(16) Apud HALE, Idem;

(17) OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica.  São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 402; cf. PFEIFFER, op. cit., p. 653.

(18) SOARES, Carolline da Silva. O gênero epistolar na Antiguidade: a importância das Cartas de Cipriano para a história do cristianismo norte africano (século III d.C.). História e Cultura, v. 2, n. 3 (Especial, Dossiê “Debates historiográficos sobre a Antiguidade e o Medievo”), p. 199–215, 2013. DOI: 10.18223/hiscult.v2i3.1104. (No artigo veja a p. 201).

(19) AUTH, Romi. Introdução ao estudo das formas literárias do Segundo Testamento: a palavra de Deus em linguagem humana. São Paulo: Paulinas, 2021, p. 31.

por Éder Machado

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