Ainda é possível considerar recentes os ataques desferidos por Israel contra o Irã, no dia 13 de junho de 2025, numa ofensiva em ondas sucessivas envolvendo caças F-35, carregados com superbombas, que atingiram usinas e estruturas nucleares subterrâneas por doze dias. Daquela data até hoje, e não necessariamente em decorrência direta do ataque, a sociedade iraniana passou por mudanças severas de ordem econômica e política, encontrando-se no limite de uma guerra civil.
A crise tomou impulso após a grande desvalorização do Rial, moeda
oficial do país. Atualmente, um milhão e quatrocentos e cinquenta mil riais
correspondem a apenas um dólar. Lojas, mercados e diversas transações comerciais
mal se sustentam diante da situação econômica. Há fome, desemprego e desesperança.
Enquanto as geladeiras esvaziam-se, as ruas enchem-se. Manifestantes
marcam sua presença corajosa em praças, áreas comerciais, campi universitários e
espaços públicos, aos gritos de “Morte ao ditador”, em referência ao líder, o
aiatolá Ali Kammenei, sucessor do aiatolá Kommeini, que liderou o país
ditatorialmente desde a Revolução de 1979, quando a dinastia Pahlavi foi deposta
e o Irã transformado em uma teocracia, sob rígidas leis que alcançam todas as
áreas da vida de seus cidadãos. O desejo por uma mudança encontra eco nos
gritos que também podem ser ouvidos nas ruas, gritos de “Longa vida ao Xá”,
numa referência ao filho do soberano destronado pela revolução. Hoje, Reza
Pahlavi vive exilado nos Estados Unidos, mas já enviou à população iraniana a
mensagem: “Estou com vocês”.
Uma alteração política dessa natureza seria impensável há
alguns anos, mas o quadro político e as alianças que fortaleciam o governo de
Kammenei alteraram-se substancialmente. Os parceiros – os conhecidos grupos
terroristas Hamas, Hezbollah e Houthis – não possuem mais a antiga força. Os
Houthis, do Iêmen, deviam sua formação às equipes militarizadas do Hezbollah,
do Líbano. O enfraquecimento de um levou ao enfraquecimento do outro. Além disso,
a Arábia Saudita não vê com simpatia a presença de um grupo terrorista forte,
atuando contra embarcações de diversas bandeiras, vizinho ao sul de seu território.
Os Houthis perderam também o apoio da Síria, agora com maioria sunita (os
Houthis são de maioria xiita, embora com presença sunita). O Hamas, na Faixa de
Gaza, por sua vez, sofreu severas baixas. Quanto à Rússia, aliada do Irã,
encontra-se absorvida pelos esforços da guerra contra a Ucrânia, o que envolve grandes
investimentos. Politicamente, portanto, o Irã vive um momento de fragilidade e de
revolta.
A revolta surpreende mais do que a fragilidade. As manifestações
são repelidas de forma violenta, com mortes e prisões, atraindo olhares
internacionais e possíveis ações intervencionistas. Segundo o professor de Relações
Internacionais Gunther Rudzit, as atuais manifestações “são protestos que não
estão divididos em faixa etária, não está dividido em gênero, [mas] está em
todas as camadas sociais do Irã” (entrevista à CNN).
O quadro ganha cores mais intensas se considerarmos que o
atual líder, o aiatolá Ali Kammenei, tem mais de 80 anos, e não apresentou um
sucessor. Diante disso, e diante da possibilidade de uma intervenção norte-americana,
o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf declarou que Teerã considerará
as bases e as instalações militares dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio
como “alvos legítimos” de possíveis ataques. De fato, sua referência não é
feita a Israel como nação, mas utiliza a expressão “territórios ocupados”, numa
tentativa de negar a existência do Estado judeu. São suas as palavras: “Sejamos
claros: no caso de um ataque ao Irã, os territórios ocupados, bem como todas as
bases e navios dos Estados Unidos serão nosso alvo legítimo”.
O governo Trump também se pronunciou sobre o caso, ameaçando
uma intervenção militar no caso de perseguição, aprisionamento e morte dos manifestantes.
As colocações do presidente norte-americano, no entanto, podem produzir fruto diverso
ao esperado. Isso porque os sentimentos antiamericanos ainda são fortes na
população iraniana, desde a participação daquele país na derrubada do governo
que antecedeu a dinastia Pahlevi em 1954. Num país de tradições fortes, uma intervenção
por parte dos Estados Unidos poderia levantar antigos antagonismos e provocar uma
reação a favor do atual regime. Um pouco de cautela seria bem-vinda nesse
quadro de instabilidades político-financeiras.
Ameaçado, Israel precisa manter-se em alerta, além de fortalecer
alianças com países próximos. No dia 26 de dezembro último, Israel tornou-se o primeiro
país a reconhecer oficialmente a Somalilândia como país independente. Este
reivindica sua independência desde 1991, quando se separou da Somália. Durante
todo esse tempo, nenhuma nação ofereceu o reconhecimento, agora manifesto oficialmente
pelos israelenses. A Somalilândia e a Somália localizam-se na região conhecida como
“chifre da África”, área estratégica para o comércio dos países da Europa, Ásia
e, muito especialmente, para o Oriente Médio.
Com os esforços para manter uma fortaleza de vigilância em sua
fronteira Norte, sem descuidar das ações de ataque e defesa na região de Gaza,
além de lidar com dissensões políticas internas, que tentam derrubar moral e
politicamente a liderança de Netanyahu, Israel precisa acompanhar, mesmo que a
certa distância, as transformações pelas quais passa o sempre ameaçador Irã, numa
expectativa, ou melhor, esperança, de que a paz naquelas terras anuncie um
tempo de relações amigáveis e prósperas para todos.
O quadro das nações altera-se, recompõe-se, poderosos são
abatidos e fracos são exaltados, demonstrando que, quando um povo ou país
decide erguer suas forças para destruir Israel, varrendo-o do mapa, algo acontece,
circunstâncias mudam, poderes são derrubados, forças de alianças são
enfraquecidas, e vemos, uma vez mais, o Senhor se levantando para livrar o povo
que Ele decidiu chamar de seu. Israel vive, porque o Deus de Israel vive.
por Sara Alice Cavalcanti
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