O capítulo 2 do evangelho de João narra um dos episódios mais curiosos do Novo Testamento. Para muitos, as “bodas de Caná da Galileia”, mais do que uma festa nupcial comum em Israel, foi uma oportunidade de Cristo ratificar sua divindade entre os homens e afastar-se das limitações humanas que os laços familiares com Maria poderiam lhe cominar.
Sem dúvida, é curioso pensar que a reação de nosso Senhor
para com Maria, no que diz respeito ao atendimento das necessidades da festa,
fosse tão ríspida como se lê na narrativa das bodas de Caná. “Mulher, que tenho
eu contigo?” É uma expressão que alimenta as mais terríveis imaginações e
críticas dos dias atuais no tocante aos direitos das mulheres, ao
posicionamento da figura feminina na sociedade, e às atribuições do papel
feminino no contexto bíblico. Jesus estaria concordando com o rigor do judaísmo
de seus dias quanto ao tratamento para com as mulheres? Afinal de contas, o
Mestre, apesar de ser divino, também não era filho de Maria e, portanto, não é
devida a honra aos pais como cumprimento ao primeiro mandamento com promessa
conforme ensinam as Escrituras? Antes de tirarmos qualquer conclusão a respeito
deste assunto é preciso considerar alguns aspectos que envolvem a dinâmica dos
fatos.
As bodas em Caná da Galileia
O casamento em Israel nos tempos de Jesus era marcado por
muita bebida e alegria. Diferentemente dos casamentos dos dias atuais a festa
durava cerca de uma semana (sete dias). Uma festa com mais de um dia de
duração, certamente carecia da provisão de comida e bebida em abundância. Como
o vinho era a bebida mais exigida para a festa, a primeira rodada era servida
pela família dos noivos que, naturalmente, apresentava um nível maior de
qualidade. As demais eram servidas especialmente pelos convidados mais próximos
à família dos noivos (1). Ao que tudo indica o vinho servido nos demais dias
era misturado com maior quantidade de água, o que resultava num vinho de menor
qualidade. Esse procedimento poderia ser adotado sem problemas, tendo em vista
que os convidados já estavam saciados de beber vinho nos primeiros dias da
festa.
Acontece que naquela ocasião os familiares proveram o melhor
vinho no início, mas este acabou e a festa ficou à mercê de servir um vinho
mais inferior. Alguns autores acreditam que Jesus e Maria seriam parentes dos
noivos e, por esse motivo, o Mestre teria comparecido com seus discípulos à
festa. O fato que reforça essa ideia é justamente Maria notificar Jesus acerca
da necessidade de vinho. A água transformada em vinho torna evidente que o
Mestre assumiu o seu papel de convidado e forneceu a parte que lhe cabia. O
mestre-sala do casamento confirma a provisão quando diz: “Todo homem põe
primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então, o inferior; mas tu
guardaste até agora o bom vinho (cf. João 2.11).
O casamento judaico
Na cultura judaica os noivos eram acompanhados de pessoas
que ajudavam na preparação dos mínimos detalhes da festa. A noiva era
acompanhada pelas virgens que eram responsáveis pelo banho e ornamentação. Ela
deveria estar bela como uma verdadeira rainha, coberta de pedras preciosas e os
cabelos bem trançados. O noivo deveria se vestir também de maneira elegante,
adornado com joias e acompanhado pelo seu amigo íntimo, conforme ilustra João
Batista (cf. João 3.29). Os casamentos na cultura judaica eram arranjados e
acordados entre as famílias. Um amigo e o pai do noivo negociavam um valor com
o representante do pai da noiva. A compensação com trabalho (o mohar)
também podia ser combinada com a família da noiva e como dote ao pai da noiva.
A quantia deveria ser guardada para a mulher no caso dela ficar viúva ou se
ocorresse o divórcio. Como parte do contrato, o pai da noiva deveria dar um
presente à filha (Gênesis 24.59-61; Juízes 1.12-15. Vale ressaltar que esta
prática não significava que os pais ignorassem por completo os sentimentos dos
filhos, pois na maioria das vezes a negociação tinha influência direta do amigo
do noivo que intercedia em seu favor. Em muitos casos o sentimento entre o
casal se despertava com o tempo e isso trazia maior estabilidade para as
relações (2).
“Que tenho eu contigo?”
O que Jesus quis dizer com isso? Antes de qualquer coisa é
preciso investigar a motivação da pergunta de Maria. Como já mencionado
anteriormente, a provisão do vinho não era responsabilidade exclusiva da
família dos noivos. RICHARDS (2007) discorre que os convidados teriam de
participar revezando os turnos para compra da bebida a fim de que a festa não
fosse interrompida. E Jesus estivesse tentando dizer “Mulher, o que isso tem a
ver conosco?” Ou seja, ainda não era a sua vez de contribuir com o suprimento
do vinho. Partindo desse pressuposto, a pergunta de Maria não se tratava de
qualquer motivação relacionada à natureza messiânica de Jesus, e sim uma
pergunta natural num contexto em que os convidados teriam de assumir a
responsabilidade com a provisão do vinho. A resposta do Mestre deveria ser na
mesma naturalidade: “ainda não é chegada a minha vez”. No entanto, Jesus
responde que ainda não é chegado “o seu tempo”, o que revela haver alguma
intenção no teor da sua resposta no que diz respeito à sua missão como Filho de
Deus (3).
Alguns autores contestam a afirmativa que assinala para a
naturalidade dos fatos e apontam para outras possibilidades. Há quem afirme que
Jesus estivesse demonstrando à Maria e aos demais discípulos uma prova da sua
natureza divina, desvinculando-se dos laços maternos e dizendo à sua mãe que a
hora e o momento para a realização do milagre não era competência dela, e sim
do Filho de Deus. Seria uma demonstração da sua autoridade divina a fim de
mostrar à Maria que a manifestação do milagre exigia, a partir de então, que
sua mãe não interferisse nas ações de Jesus como Messias. RICHARDS (2007)
argumenta ainda que esta opinião se associa à linha protestante tendo em vista
que é uma resposta ao argumento católico de que Maria seja a intercessora junto
à Cristo para que Ele conceda alguma beneficência àqueles que rogam por sua
misericórdia.
Uma abordagem evangelística
A natureza do evangelho de João, diferentemente dos demais
sinópticos, apresenta Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. João tinha a
preocupação em consolidar os fundamentos da fé a respeito divindade de Jesus em
contraste com os falsos ensinamentos que rodeavam as igrejas daquela época. O
evangelho foi escrito com vista em atender às necessidades dos irmãos para que
tivessem a convicção de que Jesus era, de fato, o prometido e aguardado
Unigênito Filho de Deus (cf. João 20.31).
É mais provável que o registro do apóstolo sobre a festa
nupcial em Caná da Galileia tenha como objetivo apresentar os aspectos da
divindade de Cristo do que esclarecer ocasiões que resultaram em discussões
quanto à influência ou não de Maria às ações milagrosas de Jesus. Os escritos
joaninos revelam que o propósito da vida de Jesus era mostrar ao mundo o amor
do Pai e a figura representativa da água transformada em vinho é um símbolo do
Novo Testamento marcado pelo sangue do Cordeiro vertido na cruz (cf. Mateus 26.27-29).
João não discute apenas as implicações do tratamento de
Jesus à Maria, embora na língua original grega a expressão “mulher” não se
trata de uma repreensão, e sim de uma forma de tratamento normal da época,
exemplificado no momento da cruz quando Jesus diz a João que recebesse Maria
como sua mãe, e à Maria que recebesse a João como seu filho (cf. João 19.26,27).
Além disso, o apóstolo é feliz
ao citar os elementos do judaísmo como a talha das purificações onde o vinho
novo, isto é, o elemento central do Novo Testamento é inserido. João apresenta
aos seus leitores que um novo relacionamento será inaugurado no momento certo,
na hora certa, indicada por Jesus na representação da água transformada em
vinho (4).
Considerações finais
Finalmente, haja vista os argumentos dissertados neste
artigo, não é possível chegar a um denominar comum. Até onde o texto nos
permite compreender o que mais se aceita é que Maria, mesmo tendo consciência
da natureza divina de seu Filho e tomada de preocupação quanto aos detalhes
materiais da festa, acreditava que Jesus podia trazer a solução para aquela
situação um tanto embaraçosa para a família dos noivos.
Maria foi até a pessoa certa procurar o auxílio, embora a
resposta de Jesus revele a limitação da compreensão humana (de Maria) acerca do
plano divino. A intervenção do Senhor, seja em favor dos seus servos ou mesmo
para trazer juízo sobre as más obras, ocorre no tempo demarcado por Deus. Ainda
que a intenção de Maria fosse louvável o Criador tem seus propósitos e toda
realização miraculosa visa que o seu Nome seja glorificado e os homens possam
entender que os critérios para a realização dos milagres são de ordem
particular do próprio Deus. Ele é quem conhece o coração dos homens e sabe a
hora certa de intervir.
Talvez o que mais nos choca é a resposta de Jesus diante do
argumento de sua mãe. Entretanto, vale ressaltar que a sua resposta e a forma
miraculosa como provê o vinho de qualidade elevada estão atrelados
preferencialmente ao propósito dos escritos de João no tocante à divindade de
Cristo, do que necessariamente discutir as formas de tratamento dos tempos
bíblicos que, diga-se de passagem, já esclarecido anteriormente, expõe apenas
um tratamento normal da época que não possui nenhuma conotação pejorativa.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) GOWER,
Ralph. Novo Manual dos Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 61.
(2) Idem, pp. 61,62.
(3) RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-cultural
do Novo Testamento. Rio de Janeiro:
CPAD, 2007, p. 200.
(4) Eds. In
ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico
Pentecostal: Novo Testamento. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 504).
por Thiago Santos
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