Conceituação, história da elaboração do conceito e sua perspectiva bíblica
A Declaração de Fé das Assembleias de Deus do Brasil (2017, p.51), expressa que “a humanidade de Cristo está unida à Sua divindade, pois Ele possui duas naturezas, e essa união mantém intactas as propriedades de cada natureza, o que está claramente expresso no Seu nome Emanuel”.
A confissão de fé supramencionada nos conduz a um ponto central
da essência de Cristo. Na condição de herdeiros do pensamento grego, somos profundamente
cativados pela busca do conhecimento da essência das coisas, a qual elevamos a
um alto patamar de relevância. Assim sendo, a busca pela compreensão da união hipostática
de Cristo é um tema que desperta o interesse dos homens, sejam eles cristãos ou
não, leigos ou especialistas. Independente do tempo e do espaço, este é um assunto
de interesse universal.
Desse modo, a seguir, nos dedicaremos a revisitar alguns elementos
principais desta temática, a fim de propor informações, considerações e vieses
de reflexão que sirvam de contribuição ao leitor não especializado no tema.
Conceituando a união hipostática de Cristo
No contexto da teologia cristã, união hipostática de Cristo
é o conceito técnico que usamos para fazer menção à unidade perdurável das
naturezas divina e humana na pessoa de Jesus Cristo, a hispotásis do Logos eterno.
A fórmula de duas naturezas em uma hipostásis passa a ser corrente nos tratados
cristãos a partir do quarto concílio cristão universal, o Concílio de
Calcedônia, realizado de 8 de outubro a 1 de novembro do ano de 451.
Hipostásis: definição e evolução do uso do termo
O substantivo grego ὑπόστασις
(hypostasis) é a forma substantival do verbo ὑφίστημι – "colocar debaixo”. Esse substantivo origina-se
da junção do prefixo ὑπό-
(hipo- = "debaixo de”) ao adjetivo verbal στατός (statos = "estável,
algo que denota equilíbrio”) mais o sufixo σις (sis = "ação”). Desse modo,
pode-se afirmar que, etimologicamente, o vocábulo hipostásis significa “o que está
abaixo, ou seja, uma base, fundamento, sedimento, natureza substancial, essência”.
Um olhar acurado sobre o vocábulo hipostásis nos revela que estamos
diante de uma palavra polissêmica, visto que já desde sua etimologia não nos
confrontamos com uma palavra de significado restrito. No período antigo, o uso
do vocábulo hipostásis era corrente em distintos campos das ciências, em
especial nos estudos dos astros e na medicina, assim como também nos campos da filosofia
grega e judaica, e no ambiente da teologia judaica e cristã.
No mundo antigo, vemos hipóstases sendo aplicada com distintos
sentidos, tais como para fazer menção a um fundamento físico sólido, uma base
econômica ou de bens de valor, um momento ou posição especial na vida, ou mesmo
uma substância ou essência. Podia-se também encontrar essa palavra sendo aplicada
no contexto das atitudes humanas que expressavam as ações de resistência, tenacidade,
coragem, confiança e atitudes de risco. No mundo filosófico grego, embora essa
palavra fosse correntemente aplicada com o sentido de realização, essência e
existência – em especial nos escritos de Aristóteles –, é com os estoicos, os
médioplatonistas e os neoplatonistas que hispostásis adquire uma compreensão,
sistematização e aplicação de caráter mais filosófico, e isso proporcionou significativos
elementos de contribuição para a reflexão teórica posterior sobre a união
hipostática.
Por sua vez, tanto entre os judeus da fase do Segundo
Templo, como também no texto da Septuaginta, a complexidade do termo hipóstases
é bastante evidente, haja visto os distintos sentidos com os quais o vocábulo é
empregado. Sobre a palavra hipóstases, afirma Hollander (2004, p. 1750): “Na
LXX ocorre 20 vezes para 12 equivalentes hebraicos diferentes. Se com razão se
entende hipóstases na base, não em hebraico, mas em grego, verifica-se que o uso
que é feito na LXX corresponde exatamente ao uso no grego clássico”. Segundo
Harder (2020), que amplia o leque de uso de hipóstases na LXX, há 15 equivalentes
hebraicos. Nesse período, esse vocábulo havia se tornado uma palavra da moda, comparável
com a palavra “existência” nos tempos modernos, e sua aplicação pode ser sistematizada
em dois segmentos: primeiro, um uso de caráter geral que era dado à
palavra – uma das grandes razões de sua polissemia –; e segundo um uso
mais específico de sentido filosófico. Filon de Alexandria, por sua vez, usa hipóstases
em seus tratados teológicos e filosóficos, fazendo alusão à existência real e à
realidade intangível.
A leitura corrente da Versão dos Setenta (Septuaginta) entre
os primeiros cristãos, bem como a presença do pensamento helenístico nas fontes
de construção teologal de alguns dos primeiros escritores cristãos, se
constituíram em um dos fatores determinantes no uso que os escritores
neotestamentários fazem de hipóstases. No texto do Novo Testamento, a palavra hipóstases
aparece por cinco vezes, sendo duas na segunda carta de Paulo aos Coríntios (2
Coríntios 9.4 e 11.17) e três na coleção de sermões ou epístola aos Hebreus (Hb
1.3; 3.14; 11.1). O apóstolo Paulo, em 2 Coríntios 9.4, usa hipóstases com o
sentido de iniciativa, empreendimento; já em 2 Coríntios 11.17, ele lança mão
desse vocábulo dando a ele o sentido de firmeza, audácia. Por sua vez, o
escritor de Hebreus que usa hipóstases com uma perspectiva mais filosófica e
teológica que Paulo, em Hebreus 3.14, assim como Paulo em 2 Coríntios 1.17, aplica
hipóstases com o sentido de confiança, ousadia, resolução, como um
posicionamento tomado pelo homem; já em Hebreus 11.1, a palavra é usada em
referência a uma impressão segura, uma percepção mental de garantia objetiva;
e, por fim, em Hebreus 1.3, é aplicada com um sentido de realidade, essência,
subsistência, referindo-se à essência de Deus, uma realidade transcendente. Assim
sendo, como vemos no texto de Hebreus, o uso do vocábulo hipóstases vai evoluindo
no ambiente textual do Novo Testamento, passando a ser usado mais estritamente
com um sentido ontológico e direcionado às temáticas cristológicas.
Como se pode ver através da evolução do uso do termo hipóstases,
este vocábulo vai deixando o seu caráter polissêmico e de aplicação transversal,
e vai se configurando em um vocábulo de significado mais específico, se
tornando quase que um termo técnico do ambiente filosófico e teológico usado para
se referir a uma realidade substancial.
Essa nova perspectiva assumida por hipóstases no período dos
escritos neotestamentários é recepcionada pelo vocabulário teológico patrístico.
A partir dessa herança do texto do Novo Testamento, o sentido corrente de hipóstases
entre os cristãos é o ontológico, começando pelas menções feitas pelo discípulo
de Justino, o Mártir – Taciano, o Sírio (c. 120), que em sua escola filosófica
cristã em Roma usa esse termo para se referir a, segundo Köster (2002),
“realidade absoluta de Deus tal como se manifesta no cosmos, para a realidade que
se encontra atrás da existência e que é visível somente para Deus, para a
realidade dos demônios ou dos elementos, ou para as realidades da natureza que permeiam
os elementos”. Embora esse vocábulo esteja presente nas discussões filosóficas-teológicas
de Orígines (c. 185-253) e Basílio, o Grande (c. 329 – 379), sobre a Trindade, no
que diz respeito específico à Cristologia, é somente no Concílio de Calcedônia (451)
que esse termo aparece de maneira mais central, quando se discutiu aquilo que
os teólogos alexandrinos chamaram de “a união hipostática”.
O Concílio de Calcedônia e a união hipostática
Desde os primeiros séculos da história da igreja, vemos que as
controvérsias em torno das naturezas divina e humana de Cristo, e a união de ambas,
fazem parte das muitas discussões cristológicas existentes entre as escolas de
pensamento teológico que existiam no Cristianismo antigo. Por um lado, tínhamos
o apolianarianismo, o eutiquismo e o docetismo, que colocavam em relevo a natureza
divina, negando a plena humanidade de Jesus; e em outra via, nós encontramos o ebionismo,
o arianismo e o adocionismo, que negavam a divindade de Cristo; e, ademais, também
havia o nestorianismo, que por sua vez negava a união mística do Logos eterno.
Os concílios ecumênicos, que assim são chamados devido à
palavra grega oikomune, significando "toda a terra habitada” – ou
seja, eram concílios universais –, desenvolveram um papel fundamental no
processo de resolução das controvérsias sobre a divindade, humanidade e uni
personalidade de Cristo. No primeiro concílio universal, em Nicéia (325), se define
que Jesus é verdadeiro Deus; no segundo, em Constantinopla (381), se compreende
que Jesus é verdadeiro homem; e, por sua vez, no terceiro em Éfeso (431), se
garante que mesmo sendo Deus e homem, Jesus é uma só pessoa. Todavia, é
somente no Concílio de Calcedônia (451) que se discute o
tema da união das duas naturezas de Cristo.
O Concílio
No outono de 451, no período de 8 a 31 de outubro e 1 de novembro,
aconteceu, na cidade de Calcedônia, uma cidade da região da Bitínia, na Ásia
Menor – onde atualmente se encontra o distrito de kadiköy, em Istambul, Turquia
–, o quarto concílio ecumênico. Sob a convocação de Marciano, imperador
oriental que governou de 450 a 457, se reuniram 520 bispos, além de 18 oficiais
do império, inclusive o casal imperial, na Basílica de Santa Eufêmia, para tratar
controvérsias que seguiram existindo após o Concílio de Éfeso, realizado em
431.
Neste concílio, foi reafirmada a fé conforme confessada em
Nicéia e Constantinopla, bem como foram reconhecidas as duas cartas de Cirilo de
Alexandria. O concílio também ouviu e aprovou o escrito dogmático de Leão
Magno, e deliberou sobre a união hipostática de Cristo, que se tornou a confissão
formal, conhecida por Credo de Calcedônia.
O documento de Calcedônia, após passar pela elaboração de um
grupo sob a responsabilidade de Anatólio de Constantinopla, chega à sua redação
final com um posicionamento muito claro de esclarecimento da fé cristã, no qual
rejeita o posicionamento de Nestor, que cria-se defender duas pessoas e duas
naturezas; e o monofisismo de Êutico de Constantinopla, que cria que a natureza
divina de Cristo absorvera a natureza humana, de modo que Cristo teria uma
única natureza, a divina, e, assim sendo, Cristo não teria um corpo como o
nosso, mas, sim, um corpo divinizado. O concílio também posicionou-se afirmando
que Jesus Cristo é uma Pessoa, perfeito em divindade e perfeito em humanidade; verdadeiro
Deus e verdadeiro homem – uma pessoa que tem duas naturezas. Segundo Padovesi
(1999, p. 58), "o mérito de Calcedônia está em ter afirmado essa fé e em
haver construído barreiras contra o adocionismo, o monarquismo, o arianismo, o
apolonarismo, o nestorianismo e o monofismo”.
O Credo de Calcedônia
Seguindo os santos Pais, todos nós, unanimemente, ensinamos que
há de se confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual é perfeito
em divindade e perfeito em humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem,
de alma racional e de corpo [contra Apolinário]; consubstancial com o Pai segundo
a divindade [contra Ário], e consubstancial a nós segundo a humanidade [contra
Êutico]; semelhante a nós em tudo, mas sem pecado; gerado segundo a divindade
pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade,
por nós e para a nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus [Θεοτόκος]
[contra Nestor], segundo a humanidade; um e o mesmo Cristo, Filho, Senhor,
Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas
[contra Êutico e Dióscoro], inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis,
inseparáveis; e sem que desapareça a distinção das duas naturezas por razão da
união, antes é preservada as propriedades de cada natureza, e unindo-as em uma pessoa
e hipóstases [posição de equilíbrio do concílio]; não separado nem dividido em duas
pessoas [contra Nestor], mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus,
o Senhor Jesus Cristo, conforme foi dito sobre Ele pelos profetas desde o
princípio, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos
transmitiu".
A união hipostática desde a perspectiva bíblica
neotestamentária
Sabendo-se que já é de conhecimento do leitor as evidências bíblicas
sobre a divindade e humanidade de Cristo, então nos enfoquemos na união dessas
duas naturezas em uma só pessoa.
O texto de Calcedônia constitui-se para nós uma Norma
Normata ("A norma que é regida"). Neste e em qualquer outro assunto,
as Escrituras Sagradas serão sempre nossa Norma Normans ("A norma
que rege"). Dada essa condição de Norma Normans da Bíblia, torna-se
imprescindível que conheçamos o que as Escrituras nos ensinam sobre a união
hipostática de Cristo.
Em razão das delimitações deste texto, enfocaremos
exclusivamente a união das duas naturezas de Cristo dentro do contexto do Novo Testamento.
Embora saibamos que os escritos neotestamentários não foram produzidos com a
intenção de abordar os seus temas de maneira sistemática e exaustiva, pode-se, a
partir de uma harmonização dos textos cristológicos do Novo Testamento, se compreender
a essência, a natureza, a pessoa e a união hipostática de Cristo.
A condição de Jesus Cristo como um ser teantrópico
(Deus-Homem) fica evidente nos textos neotestamentários. Encontramos afirmações
que Jesus faz de si e que são alusivas à Sua divindade (João 8.58; 17.5), bem
como encontramos menções que Ele faz de Sua pessoa que se referem à Sua
natureza humana (João 19.28). Em outros textos, são feitas menções de caráter teantrôpico,
ou seja, são textos em que ocorrem uma ação das duas naturezas (Efésios 1.7; Hebreus
1.2). O primeiro capítulo do Evangelho de João, com uma profícua habilidade, nos
resume este tema evidenciando que o divino Logos eterno (Pessoa divina) assumiu
uma condição de Emanuel (Deus conosco) quando Ele tabernaculou entre nós (humanidade),
se unindo a uma natureza humana, a fim de realizar a redenção, uma obra divino-humana
(teantropia), realizada pela Pessoa Jesus Cristo.
Um olhar sobre estes textos nos conduz à compreensão de que
tudo aquilo que Jesus fez – sejam ações que expressem a Sua humanidade ou aquelas
que evidenciam a Sua divindade, ou mesmo o Seu ser teantrôpico – foi feito por
uma só pessoa – Jesus Cristo, o Deus-Homem.
Uma nota teológica
No processo de união das duas naturezas de Cristo, ocorre uma
Koinonia idiomatum, ou seja, a comunhão de atributos, na qual a pessoa é
possuidora de todos os atributos dos dois elementos, onde cada um deles tem
suas propriedades, mas a Pessoa é sujeito de todos eles – de modo que não houve
nenhuma mescla ou confusão entre ambas as naturezas, pois não existiu um processo
de communicatio idiomatum, isto é, uma comunicação (ou seja, transferência
ou compartilhamento) de propriedades, visto que, se houvesse, esta
transferência de atributos de uma natureza a outra invalidaria a integridade da
natureza receptora.
A ação messiânica do Emanuel seria impossível se Ele não fosse
este ser com duas naturezas distintas, mas não separadas, este ser teantrôpico,
pois somente uma Pessoa Deus-Homem poderia levar a cabo a missão de redenção do
kosmos. O hino cristológico cantado pela cristandade primitiva, textualizado
por Paulo com as suas devidas inserções teologais em Filipenses 2.6-11, com
precisão relata o processo de Kenosis de Cristo, isto é, de humilhação na
encarnação (vv. 6-8) e de exaltação (vv.9-11), sendo que este arco da exaltação
alude à Sua ressurreição e ascensão, ao Seu atual posicionamento de honra nos
céus e à Sua Parusia.
Doxologia
Somente Cristo Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem,
com a perfeitas hipóstases em uma só Pessoa, poderia ser capaz de executar o
plano eterno de redenção do homem, perdoando pecados, ouvindo e respondendo às
orações na condição de mediador entre Deus e os homens, e tornando-se o objeto
de fé e culto dos filhos de Deus.
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por Jesiel Paulino
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