Magistério cristão

Magistério cristão


Como estimular o surgimento de novos líderes

O texto de Marcos 16.15 é citado e admirado por todos os cristãos, sem exceções: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura”. Ouvimos preleções e mais preleções sobre esse tema e sempre retomamos a nossas casas com o “ide” ecoando em nosso interior.

É maravilhoso sermos exortados a buscar o objetivo primordial do crente: a evangelização dos povos, sejam eles de longe ou de perto, em nossa vizinhança ou de dentro de casa, usando métodos simples ou sofisticados. Mas, paramos para refletir e vem-nos uma pergunta: como poderemos fazer isso da melhor maneira possível? Será que podemos ser autodidatas, no que diz respeito às coisas espirituais, tentando absorver sozinhos as técnicas apostólicas ou as do próprio Jesus, Mestre por excelência?

Naturalmente que devemos buscar certa independência quanto à aprendizagem, mas concluiremos com razoável facilidade que para aprender há que se ensinar, e para se ensinar, há que se aprender. Todos nós, em determinados momentos, senão em todos, precisamos de um mestre, um professor, aquela figura extraordinária empenhada em repassar-nos conhecimentos adquiridos através de estudos, experiências pessoais ou, o que é melhor, de uma combinação desses dois fatores.

Entretanto, a cultura desenvolvida em nossa nação não tem pendido positivamente para a classe dos professores. Parte desse descaso, infelizmente, pode-se notar nos meios eclesiásticos, onde o reconhecimento dos professores nem sempre acontece. Vale ressaltar que em muitas igrejas o setor de formação e aperfeiçoamento de professores tem recebido dedicação especial, atendendo perfeitamente a obra do Senhor.

Mãos à obra

Há exemplos de países em que os ensinadores seculares são quase endeusados, tamanha a reverência dada a eles em função da atividade exercida. Nesses lugares, os dirigentes políticos e cidadãos em geral alcançaram a consciência de que só a educação pode levar uma nação ao desenvolvimento. Tal comportamento tem influenciado agradavelmente os ensinadores cristãos dessas nações. Contudo, sabemos que não podemos ficar aguardando atitudes governamentais, até porque quem deverá prestar contas das almas alcançadas ou não pelo Evangelho seremos nós, os salvos.

Sabemos que somos deficitários quanto à formação de mestres do ensino bíblico, haja vista o cristianismo ser seguido de perto, em escala mundial, pelo islamismo. Isso sem fazer menção às seitas e falsos mestres que lamentavelmente podem ser encontrados com certa facilidade dentre os próprios segmentos cristãos, os quais têm conseguido enganar a muitos, e, como adverte-nos a Palavra, “se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24.24).

O exercício do magistério cristão por parte de abnegados servos de Deus, jovens ou velhos, é nossa arma no combate a essa triste situação, mas muitas vezes somos relapsos e acabamos repassando essa obrigação, que é de todos nós, para alguns aos quais julgamos “mais capacitados que nós”. Podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que todo aquele que um dia levantou sua mão aceitando Jesus como seu Salvador, ou aquele que teve a felicidade de ter nascido em lar evangélico, é capacitado a exercer sua função de evangelizador. Cabe lembrar que estamos alistados em uma milícia que não está em tempo de paz, mas em constante combate contra as forças do inferno.

Um pensador anônimo escreveu certa vez: “Se você não fizer nada e ganhar almas, você fez tudo, mas se você fizer tudo e não ganhar almas, você não fez nada!”. Façamos um esforço e cumpramos o nosso dever!

Enfoque distorcido

Já que o exercício do magistério cristão é uma de nossas principais armas nesses entraves, vejo em nossos departamentos de Escola Dominical a grande oportunidade de nos armarmos, e aqui fazemos analogia a Efésios 6.13: “Portanto, tomai toda armadura de Deus...”.

Podemos, através dessa Escola, cumprir o “ide” de Jesus, conforme já mencionamos. Nossos professores têm a feliz oportunidade de evangelizar enquanto ensinam, bem como fazer o acompanhamento daqueles que já servem ao Senhor. Contudo, o enfoque dado a esse departamento da igreja tem ficado um tanto distorcido na maioria das igrejas. Acabamos por nos esquecer do evangelismo em nossas aulas. Os próprios crentes têm mostrado pouco interesse em comparecer às aulas, menos ainda em levar visitantes carentes.

Alguns se distanciam de suas classes por não serem cativados pelos métodos de seu professor, e o professor, por sua vez, acaba se desestimulando com tudo e com todos. Mas a culpa não é só dele, porque infelizmente nossos professores têm sido escolhidos ao invés de serem preparados.

A partir do momento que nossos líderes se conscientizarem de que os professores devem ser preparados para o magistério, notar-se-á um saudável crescimento e colher-se-á maravilhosos frutos. Vale lembrar que nossos professores não devem ter assessores ou professores auxiliares, mas sim discípulos, a fim de que as classes não se vejam, repentinamente, ao léu, sem um orientador. Para esse preparo deverá haver não só empenho e dedicação pessoal, como também investimento financeiro em cursos, aquisição de materiais e construção de salas.

Atenção especial

Uma das leis do crescimento da Escola Dominical afirma que ela crescerá enquanto houver espaço para as classes, mas, em muitos templos, observa-se em manhãs de ED sua divisão em quadrantes, instalando-se salas improvisadas em cada canto, inclusive nas galerias.

Isso é extremamente devastador, tanto para o aluno como para o professor, pois impossibilita qualquer concentração, apresentações criativas (dramatizações) ou utilização de recursos básicos (quadro-negro, retroprojetores, flanelógrafos, álbuns seriados etc.). Pensemos sabiamente o projeto dos templos para que a Escola Dominical receba a atenção merecida, e atentemos para seus três objetivos gerais: ganhar almas para Jesus, desenvolver a espiritualidade dos alunos e o caráter cristão, e treinar o cristão para o serviço do Mestre.

Diz um provérbio francês que “a transformação é uma porta que só se abre por dentro”. É na Escola Dominical que podemos levar o ouvinte a “abrir” esta porta e transformar-se para Cristo.

Um relatório anual de uma igreja da Filadélfia, Estados Unidos, mostrava que o ano não tinha sido muito bom para a igreja. Ela perdera 27 membros e ganhara apenas 3, que “eram só crianças”. Havia 40 anos que aquela igreja batizara aqueles 3 garotos de 9 anos de idade. Um deles foi Tony Campolo, hoje sociólogo, professor, escritor e conferencista mundialmente conhecido. O outro, Dick White, é missionário, e o terceiro, Bert Newman, atualmente professor de Teologia num seminário africano.

Vale a pena ou não buscarmos crianças e investirmos em seu preparo? Elas poderão, um dia, ajudar a formar vidas para Cristo em todos os rincões da terra, a exemplo dos garotos acima citados!

Escola dinâmica

Membros de todas as faixas etárias têm acesso a entretenimentos propostos em suas escolas seculares, aparelhos de televisão, som, games, brinquedos diversos, viagens, universidades, Internet e tantas outras formas de interação. Mas se ao chegar a ED não encontrar uma escola dinâmica, com professores devidamente preparados, poderão, até certo ponto com razão, sentir-se entediados. Foi o que ouvi de certa criança em relação a sua aula da Escola Dominical: “Não gosto de ir à aula porque a professora não faz nada de interessante, e o que ela ensina eu já sei”.

Isso é lamentável, e sabemos que problemas dessa natureza não são encontrados somente nas classes infanto-juvenis. Também nas classes de jovens e adultos deparamos frequentemente com professores despreparados, fugindo invariavelmente do tema da lição, não por estar recebendo orientação do Espírito Santo para falar sobre outro assunto, mas simplesmente porque faltam-lhe conhecimento bíblico, experiência pessoal, habilidade em falar a plateias, e falta de interesse no preparo do estudo.

Alguns ministram aulas só por imposição de seus superiores ou por força dos cargos que ocupam, o que pode resultar em aulas dadas com má vontade, tirando-lhe o brilho característico das coisas de Deus.

É necessário estimular o surgimento de novos líderes para o exercício do magistério cristão, ainda que entre estes “novos líderes” estejam alguns dos atuais professores. Basta tomarmos consciência da importância e necessidade desse departamento nas igrejas para que nos lancemos a estudar, a nos reciclar, a fazer diferença para a comunidade evangélica. Se for o caso, e só em último caso, cedamos nosso lugar a outrem, passando a buscar algo com o que melhor nos identifiquemos na Casa de Deus. Afinal, o próprio apóstolo Paulo afirmou que: “Ele (Deus) deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4.11-12).

Sublime missão

Está comprovado, então, que nem todos receberam o dom do ensino, mas, com certeza, o terá em alguma outra área onde possa ser útil para o aperfeiçoamento dos santos. Mas ser professor da Escola Dominical é tão bom... é servir de canal para o crescimento da igreja, do aluno, do próprio professor, dos líderes, enfim, é proporcionar um crescimento saudável na Casa de Deus, e não um inchaço, que é um crescimento doentio. É levar os alunos a um amadurecimento espiritual. E isso, por si só, seria justificativa suficiente para impulsionar-nos a lecionar na Casa do Pai.

Torne-se um professor da Escola Dominical! Sinta a transformação imediata que isso ocasionará em sua vida. Você se sentirá extremamente útil. Crianças, jovens e adultos te olharão com um brilho especial no olhar. Enquanto você estiver ministrando, suas vidas serão modificadas por Deus em decorrência do aprendizado por você proferido.

Se você quiser confirmar tudo isso, procure um homem de Deus (normalmente os homens de Deus que se destacam na obra divina foram e são alunos assíduos da Escola Dominical). Pergunte a eles sobre suas lembranças quanto às aulas assistidas quando de sua infância e adolescência. Certamente isso fará com que você veja o futuro e visualize antecipadamente o resultado de seu trabalho. “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1 Coríntios 15.58).

Causa nobre

Se considerarmos as 52 semanas que compõem um ano, veremos que são poucas as horas de aulas em nossas classes, principalmente se as compararmos com a carga horária anual de qualquer outro curso, inclusive das escolas seculares. Como não atender bem essa causa tão nobre?

Estamos falando do momento semanal no qual somos estruturados naquilo que consideramos a base para nossas regras de fé e prática: o conhecimento bíblico! Temos que, urgentemente, valorizá-lo mais, compreender melhor nossos professores, dedicarmos mais atenção a eles e aos seus pleitos, premiar, motivá-los, procurar e eliminar falhas. Sentiremos, assim, a diferença que faz um departamento de ensino bem estruturado. Ele foi o grande responsável pela expansão do protestantismo após a Reforma. Poderemos sentir esse crescimento novamente se atentarmos para este fato. Lembre-se: nem mesmo os anjos podem te substituir na santa tarefa do magistério cristão.

por Marcondes Rocha

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