Compreender o que é de fato o sermão e a sua importância levam o pregador a desenvolver as disciplinas espirituais e o incremento de sua vida intelectual
A edificação da igreja depende diretamente do ministério da exposição bíblica, isto é, da pregação (Efésios 4.11,12). Do mesmo modo, a salvação dos que creem se dá por meio da proclamação do evangelho (Romanos 1.16; 1 Coríntios 1.21). (1) Diante disso, fica clara a vital importância da pregação bíblica, não só para a Igreja de Cristo, mas também para a humanidade, pois que “a obra da pregação é a mais elevada, a maior e mais gloriosa vocação para a qual alguém pode ser chamado”, além do fato de que “a mais urgente necessidade da igreja cristã, na atualidade, é a pregação autêntica [...] Evidentemente ela é também a maior necessidade do mundo”. (2)
Com base no exposto acima, afirma-se que o tema da pregação,
além de ser imprescindível para a igreja na atualidade, é também imperioso com
vistas a munir os pregadores para que permaneçam fiéis na entrega da mensagem e
treinem a igreja a ser capaz de discernir entre a verdade e a mentira, mui especialmente
pelas grandes e rápidas mudanças que ditam o ritmo deste tempo. Além disso, refletir
sobre o ministério da pregação é desafiador principalmente porque trata-se de
um assunto amplo e que pode ser analisado sob diferentes pontos de vistas, como
o da pregação em si, o do pregador, o da mensagem, o do público-alvo, além de
tantos outros, razão pela qual este texto se restringe a uma abordagem sobre a complexa,
porém prazerosa, relação do preparo espiritual e intelectual do pregador na
elaboração do sermão.
A esta altura, é indispensável ressaltar que, embora seja
possível – e, em certo sentido, necessário – analisar o trabalho da elaboração do
sermão à parte do pregador, é preciso lembrar que ambos são inseparáveis, como bem
afirmou Macartney: “Podemos imprimir o registro escrito do que o pregador
disse, mas não a luz dos olhos, o brilho da face, a curva que a mão descreve, a
atitude do corpo, a musicalidade da voz”. (3) Portanto, com os devidos
cuidados, a proposta aqui é a de propor uma reflexão sobre o preparo espiritual
e intelectual na elaboração do sermão, e isso está disposto da seguinte forma: I)
uma definição para sermão; II) o preparo espiritual do sermão; III) o preparo
intelectual do sermão.
Sermão: uma breve definição
Antes que seja dada u m a definição para “sermão”, é preciso
considerá-lo como parte de um todo ou ainda como um dos fundamentos da
pregação, e isso pode ser bem compreendido na explanação que John A. Broadus faz
sobre este ministério, na qual se pode identificar o sermão como elemento
fundamental: "A pregação cristã poderia ser definida da seguinte maneira:
Pregar é proclamar a mensagem de Deus, por meio de uma personalidade escolhida,
para atender às necessidades da humanidade". Essa definição apresenta três
elementos básicos da pregação: a mensagem de Deus, a personalidade ou pregador
escolhido, e as necessidades dos seres humanos. (4)
O âmago da pregação é a mensagem, ou seja, o conteúdo do sermão
a ser transmitido pelo pregador, cujo objetivo é o de apontar a saída providenciada
por Deus para o dilema no qual o ser humano se encontra em virtude de seu
estado de pecado. Por esta razão, Von Allmen afirma que no sermão “Deus não é
apenas o objeto como também a verdadeira fonte da pregação cristã. Portanto,
pregar é falar por Deus em vez de falar sobre Deus”. (5) Desse modo, o sermão consiste na estrutura
sobre a qual todo o conteúdo da mensagem a ser entregue está fundamentado, o
que o torna parte elementar no ministério da pregação. Dito de outra forma, em
certa medida, não há ministério da pregação sem o sermão; ou ainda, este é uma
condicional para aquele.
Com vistas à ampliação da compreensão acerca do que vem a
ser o sermão e o seu lugar no ministério de um pregador cristão, na prática, o
sermão é a mensagem a ser pregada, é a base das ideias que deverão ser apresentadas
de tal forma que fiquem gravadas na mente e no coração dos ouvintes. Aqui a necessidade
de preparo nas áreas abordadas neste texto é sublinhada, já que o preparo espiritual
possibilita a aplicabilidade da mensagem ao coração dos ouvintes pelo Espírito
Santo, enquanto o intelectual toca-lhes a mente.
A preparação espiritual do sermão
Conforme destacado anteriormente, na dinâmica do ministério da
pregação, o pregador e o sermão são inseparáveis, e isso implica na afirmativa
de que, inevitavelmente, a preparação espiritual do sermão passa pelo preparo
do pregador. Atente para a leitura do texto de Paulo em 1 Coríntios 2.4: “A
minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria
humana, mas em demonstração do Espírito e do poder”. Leia ainda o que está
registrado em 1 Tessalonicenses 1.5: “Porque o nosso evangelho não foi a vós
somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo...”.
Embora haja outros textos que poderiam ser aqui apresentados,
estes dois são suficientemente capazes de apontar para a natureza da mensagem que
Paulo recebeu de Deus para proclamar, dos quais algumas lições podem ser extraídas,
tais como: I) Paulo fala de “palavra” (conteúdo) e de “pregação” (ato de
pregar), e que ambos estiveram firmados no poder do Espírito; II) o apóstolo
não menospreza a importância das “palavras”, pois ele as menciona, mesmo porque
elas são imprescindíveis para que os ouvintes compreendam a mensagem; III) a ênfase,
porém, não está nas palavras e nem mesmo no ato de pregar, mas na natureza
espiritual deste ministério; IV) Paulo era consciente de que o segredo dos efeitos
da mensagem que ele pregava estava no poder do Espírito Santo e não – em
hipótese alguma – em sua própria capacidade ou performance pessoal.
Partindo do princípio de que a pregação do evangelho possui uma
natureza espiritual e de que os seus resultados dependem direta e
exclusivamente da ação do Espírito Santo, é preciso acentuar e enfatizar a
necessidade de o pregador manter uma espiritualidade saudável, tanto em sua
vida pessoal como na elaboração do sermão a ser entregue. Requer-se uma atenção
especial à espiritualidade cristã do pregador como elemento indispensável na
elaboração e na entrega do sermão.
Mas, afinal de contas, o que se quer dizer com a expressão espiritualidade?
Alister McGrath fornece a resposta a esta questão, ao escrever que espiritualidade
"é o reflexo de todo o empreendimento cristão em alcançar e sustentar o relacionamento
com Deus, que inclui tanto o culto público quanto a devoção particular, e os resultados
destes na vida cristã propriamente. Espiritualidade cristã refere-se à busca
por uma existência autêntica e satisfatória, envolvendo a união das ideias
fundamentais do cristianismo com toda a experiência de vida baseada em e dentro
do âmbito da fé cristã". (6)
Tomando como base que a espiritualidade cristã é o trabalho
de um cristão em estabelecer e manter um “relacionamento com Deus” e de que o pregador
é desafiado a desenvolver uma espiritualidade saudável, resta sublinhar o
compromisso permanente e inegociável que o pregador deve ter com a sua vida com
Deus, influenciando assim a sua vida espiritual, pessoal, e seus relacionamentos
interpessoais. A espiritualidade cristã se desenvolve por meio de disciplinas
espirituais, capazes de promover mudanças significativas na forma com que o cristão
vê a Deus, a si mesmo, a vida e o próximo; e, no caso do pregador, as práticas espirituais
de comum hão com Deus moldarão o seu ministério e, consequentemente, a sua
forma de pregar, tocando-lhes em suas motivações, que devem ser puras; no
método usado, que deve ser de acordo com o modelo bíblico; no objetivo, que
deve ser a glória de Deus; e na forma de se relacionar com os ouvintes, que
deve ser com respeito.
As disciplinas espirituais são meios pelos quais o crente tem
de participar e cooperar com a obra exclusiva de Deus em transformar a sua vida.
Do mesmo modo, essas práticas espirituais devem fazer parte da vida de um pregador,
inclusive na elaboração do sermão, tendo em vista a necessidade vital da
indispensável presença do Espírito Santo, tanto em sua vida quanto no exercício
de seu ministério. Antes de apontar algumas práticas espirituais na elaboração
do sermão, é preciso enfatizar que a perseverança n isso passa, inevitavelmente,
pela consciência que o pregador deve ter de que ele é servo e que está a
serviço de Deus e de Seu povo. Isso mesmo: o ministério da pregação é um serviço,
cujo foco deve ser a glória de Deus e o benefício da igreja. Com a consciência
de servo, o pregador não terá dificuldades em se dedicar a práticas como a
oração, a consagração e a leitura bíblica como basilares para a sua vida
pessoal com Deus e no cumprimento de seu ministério, inclusive ao laborar na
construção de um sermão.
Começando pela oração, e de forma bem objetiva e direta, considere
a razão pela qual um crente, mui especialmente um pregador, deve orar: consiste
no fato de que “Jesus valorizou a oração o suficiente para passar muitas horas
nessa atividade. Se eu tivesse de responder numa frase à pergunta: 'Por que
orar?', diria: 'Porque Jesus providenciou a oração'”. (7) A oração é uma expectativa
do próprio Senhor Jesus em relação aos Seus discípulos (M\teus 6.5-7,9; Lucas
11.9; 18.1) e uma exigência bíblica aos crentes em geral (Colossenses 4.2; 1 Tessalonicenses
5.17). O crente – leia-se “o pregador” – é convocado a orar em todo o tempo, o que
implica dizer que o pregador deve orar: I) antes de elaborar o sermão; II)
enquanto elabora o sermão; III) enquanto entrega a mensagem; IV) depois de a
mensagem ter sido entregue. Além de total dependência de Deus, essa atitude do pregador
lhe dará sensibilidade, coragem, em certa medida preparará o coração dos
ouvintes e cooperará com Deus nos resultados da mensagem pregada.
Concluindo essa abordagem sobre a oração, destacamos que, em
paralelo a isso, o pregador deve regar a sua vida e a elaboração do sermão com uma
vida de consagração, que envolve a santidade pessoal e a prática do jejum
bíblico.
No que concerne à leitura bíblica, é preciso destacar que o
pregador deve ser alguém que tenha contato com as Escrituras. Como bem escreveu
Whitney, “a absorção bíblica é a disciplina espiritual mais importante, como também
a mais ampla”, e ele segue explicando que “ela consiste em várias subdisciplinas”.
(8) Nesse caso, é preciso que o pregador seja disciplinado em sua relação com a
Palavra de Deus, nutrindo práticas como: I) ouvindo-a (Lucas 11.28; 1 Timóteo
4.13); II) lendo-a (Salmo 1.2; Mateus 4.4; 1 Timóteo 4.7; 2 Timóteo3.16; Apocalipse
1.3); III) estudando-a (Esdras 7.10; Atos 17.11; 2 Timóteo 4.13). O contato com
as Escrituras dá ao pregador o sustento para a sua vida espiritual pessoal, consistência
e conteúdo bíblico em suas mensagens e autoridade, condições para dirigir-se aos
seus ouvintes como portador de uma mensagem da parte de Deus. Ou seja, a
leitura bíblica constante é vital para a vida de quem prega e na elaboração do
sermão.
A preparação intelectual do sermão
Há muita coisa que pode ser dita a respeito da relação entre
a elaboração do sermão e a intelectualidade do pregador, contudo a abordagem
inicial a este respeito é consideravelmente importante, e, nesse caso, é
preciso reafirmar que a capacidade intelectual inerente ao ser humano é obra divina,
e isso implica dizer que, assim como as outras partes da constituição humana, como
as suas estruturas física e emocional, a intelectual possui o mesmo valor.
Afinal, a fonte criadora é a mesma. Embora haja um grande movimento anti-intelectualista
vigente, é preciso enfrentar esse problema com coragem e respeito no intuito de
mostrar que a capacidade intelectual de um pregador pode e deve ser uma forte aliada
no exercício de seu ministério, inclusive na elaboração do sermão.
Ao contrário do que muitos possam dizer ou pensar, a Bíblia
não condena, mas incentiva o uso da intelectualidade como meio de glorificar a
Deus e cooperar com a difusão do conhecimento de sua verdade (Romanos 12.1; 2 Coríntios
10.5; 1 Pedro 3.15). Cabe aqui uma breve apresentação da característica dos ouvintes
atuais a quem os pregadores são responsáveis de lhes transmitir a mensagem do
evangelho. Sobre isso, Marinho diz que “o grande desafio hoje é entender a mentalidade
dessa geração e apresentar mensagens relevantes para esse ouvinte desencantado,
apático, relativista, subjetivo e independente de qualquer ideologia ou
instituição”. (9) No livro Respostas aos Céticos, Geisler e Brooks configuram
com precisão o perfil dos ouvintes da atualidade, apontando, assim, para a necessidade
de uma capacidade intelectual dos pregadores do evangelho, como se lê abaixo:
"Em geral, as objeções que os incrédulos levantam não
são triviais. Muitas vezes, suas perguntas atingem o âmago da fé cristã e
desafiam os seus fundamentos. Se os milagres não forem possíveis, então por que
deveríamos acreditar que Cristo era Deus? Se Deus não puder controlar o mal, Ele
é realmente digno de adoração? Encare o seguinte: se essas objeções não puderem
ser respondidas, nós poderemos muito bem crer em contos de fadas também. Estas
são perguntas razoáveis, que merecem respostas razoáveis". (10)
Diante de tais perguntas e da necessidade de respostas, é preciso
identificar quem são os responsáveis por fornecê-las aos ouvintes atuais, e não
restam dúvidas de que os pregadores são protagonistas nesse processo e que o preparo
intelectual é imprescindível para isso. Com vistas a uma abordagem resumida e eficaz,
destaca-se que o preparo intelectual na elaboração do sermão deve ocorrer a curto
prazo (fundamentar o sermão nas Escrituras e em boas obras literárias), a médio
prazo (uma boa e fundamental formação teológica do pregador) e a longo prazo (dentro
do possível, o avanço nos estudos acadêmicos para o aprofundamento dos conhecimentos
teológicos). (11) Portanto, o pregador deve buscar a capacidade de equilibrar o
preparo espiritual com o intelectual, com vistas à fidelidade e à eficácia de
seu ministério, e ao seu compromisso em transmitir a mensagem salvadora do Evangelho
de Cristo.
Referências
(1) “O meio prescrito por Deus para salvar, santificar e
fortalecer sua Igreja é a pregação” (MACARTHUR, John. Ministério Pastoral: Alcançando
a excelência no ministério cristão. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das
Assembleias de Deus, 2007, p. 261.
(2) LLOYD-JONES, D. Martyn. Pregação e Pregadores. São
José dos Campos: Editora Fiel, 2010, p. 15.
(3) MACARTNEY, Clarence
E. Grandes Sermões do Mundo. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias
de Deus, 2003, p. 7.
(4) BROADUS, John A. Sobre a Preparação e a Entrega de
Sermões. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 4.
(5) Ibid. 2009, p. 4.
(6) MCGRATH, Alister E. Uma Introdução à Espiritualidade
Cristã. São Paulo: Vida, 2008, p. 37.
(7) YANCEY, Philip. Oração: Ela faz alguma diferença?
São Paulo: Vida, 2007, p. 60.
(8) WHITNEY, Donald S. Disciplinas Espirituais. São
Paulo: Editora Batista Regular, 2021, p. 35.
(9) MARINHO, Robson M. A Arte de Pregar. São Paulo:
Vida Nova, 2008, p. 51.
(10) GEISLER, Norman L. e BROOKS, Ronald M. Respostas aos
Céticos: Saiba como responder questionamentos sobre a fé cristã. Rio de
Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2016, p. 8,9.
(11) Fica aqui a sugestão de duas boas e necessárias
leituras sobre o uso da intelectualidade a favor do Reino de Deus, trata-se da
obra “Hábitos da Mente: A vida intelectual como um chamado cristão” de
James W. Sire publicado pela Edições Vida Nova e “Razões para Crer” de Norman
L. Geisler e Chad V. Meister publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de
Deus.
Bibliografia
MACARTHUR, John. Ministério Pastoral: Alcançando a
excelência no ministério cristão. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das
Assembleias de Deus, 2007.
LLOYD-JONES, D. Martyn. Pregação e Pregadores. São
José dos Campos: Editora Fiel, 2010.
MACARTNEY, Clarence E. Grandes Sermões do Mundo. Rio
de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2003.
BROADUS, John A. Sobre a Preparação e a Entrega de
Sermões. São Paulo: Hagnos, 2009.
MCGRATH, Alister E. Uma Introdução à Espiritualidade
Cristã. São Paulo: Vida, 2008.
YANCEY, Philip. Oração: Ela faz alguma diferença? São
Paulo: Vida, 2007.
WHITNEY, Donald S. Disciplinas Espirituais. São
Paulo: Editora Batista Regular, 2021.
MARINHO, Robson M. A Arte de Pregar. São Paulo: Vida
Nova, 2008.
GEISLER, Norman L. e BROOKS, Ronald M. Respostas aos
Céticos: Saiba como responder questionamentos sobre a fé cristã. Rio de
Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2016.
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