A mensagem emitida no púlpito deve atender aos sedentos de salvação e fortalecer os crentes ao longo de seu desenvolvimento
A pregação da Palavra de Deus é o ponto central da religião cristã evangélica. Não é à toa que os nossos belos e bem elaborados móveis de madeira nobre ou mármore chamados púlpitos ficaram durante séculos (e devem continuar) ao centro da plataforma dos nossos templos, que na antiguidade se chamava presbitério.
As palavras empregadas para o anúncio da Palavra de Deus no
Novo Testamento são essencialmente quatro: evangelizesthai, que
significa anunciar as boas novas e repete-se por 55 vezes; kataggélein,
que traduzindo é proclamar, pregar as boas novas, que aparece 19 vezes; kerrússein,
cuja tradução é anunciar, proclamar como um arauto, junto com seus derivados, ocorrendo
69 vezes; e, por fim, didaché e seus derivados, que aparecem no texto
grego por 185 vezes, perfazendo um total de 328 referências diretas e indiretas
ao anúncio da Palavra de Deus. Salvo melhor juízo, do batismo em águas, o Novo
Testamento tem 85 referências. No tocante à Ceia do Senhor, apenas cinco. Constatamos
com clareza meridiana que as ordenanças são importantes e devem ser ciosamente
observadas; todavia, a primazia é a pregação da Palavra. Vejamos as implicações
da pregação e do pregador.
A banalização da pregação nos dias atuais
Observemos como muitas denominações fugiram do rumo traçado
por Jesus e Seus apóstolos. Em muitos lugares, as igrejas viraram empresas que
disputam entre si os “clientes”. Os que entram por esse caminho perdem o
escrúpulo e não têm mais compromisso com a pregação genuína, mas, sim, com
“produtos” que agradem o maior número de “consumidores” possível. Lamentavelmente,
até nos arraiais do pentecostalismo clássico, como é o nosso caso, muitos
ministros perderam a fé e entraram por esse infame caminho, ao qual o santo apóstolo
Judas chama de “erro de Balaão”, que consiste em pregar com objetivos meramente
pecuniários (Judas v.11). Nesses lugares, a pregação da palavra desaparece e é substituída
por chavões, orações “fortes”, benzimentos e práticas animistas. Os tais ministros,
através da mídia, são bons marqueteiros e conseguem atrair novos “fregueses”, que,
à semelhança das ondas do mar, vêm e vão.
Em muitos templos, o centro da liturgia, se é que se pode chamar
liturgia, já não é mais a Palavra de Deus. Evidência maior é que em muitas
plataformas do presbitério o púlpito foi retirado e o local transformou-se em
palco de shows; afinal, isso agrada a possível clientela e, quando muito, na hora
da “reflexão” se põe uma magérrima estantezinha transparente. Em outras partes,
a situação piorou, pois onde antes estava o púlpito agora há sofás, consoles, cadeiras
e mesas com docinhos, salgados e refrigerantes, onde, em vez da pregação, quatro
ou cinco pessoas ficam dissertando sobre determinados temas, tipo bate papo ou,
como hoje é conhecido, podcast. A revelação bíblica não recomenda tais práticas,
pois o Senhor não mandou dialogar, mas pregar (Marcos 16.15). Pregar no grego não
é dialogar, nem emitir opiniões próprias, mas kerusso, que significa ser
um arauto a proclamar uma mensagem real, já predefinida por uma autoridade e que
deve ser escutada, acatada e obedecida sem possibilidade alguma de que seja
discutida por opiniões de quem quer que seja.
Vale salientar que o fato de os púlpitos serem banidos das
plataformas de muitas igrejas é emblemático, pois representa o descaso e desprezo
pela ministração da Palavra. Nos dias da Reforma Protestante, Calvino bradou: “O
púlpito é o trono de onde Deus governa a sua Igreja”. Portanto, voltemos às
nossas origens e que voltem às nossas plataformas os púlpitos, sejam majestosos
ou simples, mas que dignifiquem a pregação da Palavra de Deus.
Já em outras localidades, os pregadores têm sido substituídos
por profissionais coach, cuja técnica trata de inteligência emocional, melhores
relacionamentos, injeção de autoestima, desenvolver a auto disciplina, aumentar
a motivação, melhores resultados e mais saúde. Pelo que eu entenda, isso nada
tem a ver com a pregação da Palavra de Deus, cujo tema central é a pessoa de Jesus
Cristo, que é para nós e produz em nós “sabedoria, justiça, santificação e
redenção” (1 Coríntios 1.30). Nada contra tais métodos de trabalho ou seus
profissionais, apenas notificando que o púlpito não é o lugar para os tais,
mas, sim, dos fiéis pregadores do Santo Evangelho.
A responsabilidade do pregador
O pregador precisa lembrar-se que nos dias em que vivemos,
de múltiplas ocupações e entretenimentos, uma pessoa, depois de uma semana de
trabalhos e estudos, vir a um culto cristão é uma ação da graça de Deus dando
fome e sede de justiça àquela alma. Ela vem faminta e sedenta da Palavra de
Deus. E se o pregador não orou, não buscou a Palavra, não preparou um sermão
substancial? Esse pregador comete um crime contra Deus e contra as almas. Esse
chamado pregador, se é pastor e vive do altar, não é digno da prebenda pastoral
que recebe, pois não cumpre, nem de longe, os requisitos divinos que fazem jus ao
ministro cristão ser auxiliado financeiramente pela igreja a qual serve.
Afinal, o apóstolo Paulo nos diz que só são dignos de “serem considerados
merecedores de pagamento em dobro, os presbíteros (diga-se pastores) que presidem
bem, especialmente os que se esforçam na pregação da palavra e do ensino” (1 Timóteo
5.17, NAA). Não esqueço do meu professor de oratória que nos disse: “Quando o
povo vem de longe e se assenta para ouvir um pregador, tacitamente ele está clamando
para o ministrante: 'Surpreenda-nos!'". É doloroso observar a pobreza de
muitos púlpitos Brasil afora. Um grande líder de outra confissão cristã, há
algum tempo, em uma reunião com a cúpula do seu ministério, disse: “A maior
evidência de que a igreja é de Deus é que ela sobrevive apesar das pregações medíocres
que escuta semanalmente”. Lamentavelmente, grande parte dos ministros esqueceram
que a sua missão precípua é “dedicar-se a oração e ao ministério da palavra” (Atos
6.4). Recordemos as palavras de Jesus a Marta: “Marta! Marta! Você anda inquieta
e se preocupa com muitas coisas, mas apenas uma é necessária” (Lucas 10.41,42,
NAA)
Os perigos de um ministro negligente na pregação
Um ministro desleixado na pregação, será responsável pela perdição
do povo. No Antigo Testamento, os profetas falavam sob inspiração divina para edificar,
exortar e consolar o povo, mas o ensino ordinário da Palavra era missão dos sacerdotes
levitas. Não olvidemos as palavras de Malaquias, quando advertia os sacerdotes
dos seus dias: “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e
da sua boca todos devem buscar a instrução, porque ele é o mensageiro do Senhor
dos Exércitos” (Malaquias 2.7, NAA). Nos dias de Oséias, foi proferida uma
maldição sobre os sacerdotes displicentes que negligenciavam o seu ofício: “O
meu povo está sendo destruído, pois lhe falta o conhecimento. Pelo fato de
vocês sacerdotes rejeitarem o conhecimento, também eu os rejeitarei, para que
não sejam mais sacerdotes diante de mim; visto que se esqueceram da lei do seu
Deus, também eu me esquecerei dos teus filhos” (Oséias 4.6, NAA). Que o Senhor
se apiede de nós, ministros do novo pacto, que temos a mesma missão de
ministrar a Palavra à nossa geração.
Li certa vez que um ministro da Igreja da Escócia estava a
cuidar do jardim da vetusta casa pastoral em uma manhã ensolarada. Perto das
10h, a governanta da casa apareceu na janela e bradou: “Reverendo, o senhor
esqueceu que é domingo? O povo está assentado no templo esperando pelo senhor
para iniciar o culto”. Ele, bem tranquilo, entrou na casa, vestiu a toga
pastoral, bebeu um trago de whisky e subiu no púlpito para pregar. Que o Senhor
se apiede de nossa geração de pregadores!
Orientações para ser bem sucedido na pregação
O pregador jamais deve buscar visibilidade para si ou fama,
o seu alvo deve ser única e exclusivamente esconder-se atrás da cruz e bradar a
mensagem para que todos olhem para Cristo. O objetivo não deve ser produzir uma
linda peça de oratória, mas tomar um texto bíblico e, a partir dali, à
semelhança de Filipe, ao pregar para o eunuco da rainha da Etiópia, anunciar a Jesus
(Atos 8.34). Conta-se que Spurgeon pregou um lindo sermão e, ao descer do
púlpito, uma senhora o abordou e, segurando-lhe o braço, disse: “Que sermão maravilhoso!”.
Ao que o pregador abaixou a cabeça envergonhado e ficou em silêncio. A senhora
lhe disse: “Pastor, se eu lhe ofendi, desculpe”. Ele respondeu: "Eu estou
triste porque meu objetivo não era que a senhora elogiasse meu sermão dizendo
'Que sermão maravilhoso!', mas, sim, que dissesse: 'Que Cristo
maravilhoso!'".
O pregador precisa ter uma vida santa e condizente com a
Palavra que prega. Alguém hoje prega o “evangelho de São Tomás”: prega, mas não
faz. O médico, o engenheiro, o professor, o odontólogo etc., podem ser bons
profissionais e ter concomitantemente uma vida imoral, mas isso jamais pode
acontecer com um pregador do evangelho. São Paulo diz-nos que “se alguém se
purificar desses erros, será utensílio para a honra, santificado e útil ao seu Senhor,
estando preparado para toda a boa obra” (2 Timóteo 2.21, NAA). Isaías corrobora
com este texto quando nos diz: “Não toquem uma coisa impura! Saiam do meio
dela, purifiquem-se, vocês que levam os utensílios do Senhor” (Isaías 52.11).
Também o pregador, para ser produtivo no Reino de Deus,
precisa passar tempo em oração, com as Escrituras abertas diante do Senhor.
Jeremias nos alerta, a nós pregadores: “Por que quem esteve no conselho do
Senhor, e viu, e ouviu a sua palavra? Quem esteve atento a sua palavra e a ouviu?”
(Jeremias 23.18). Entendemos que só pode subir ao púlpito quem esteve muito
tempo diante do Senhor mergulhando nos segredos de Sua Palavra, lendo e relendo
várias vezes o texto sagrado.
Não se pode dispensar a companhia dos piedosos pregadores do
passado e do presente que andaram e andam com Deus. Aprendamos deles, pois nos
deixaram as preciosas revelações que receberam de Deus impressas nos seus livros.
Ninguém é tão original ao ponto de desprezar o que Deus deu a outros. Paulo cita
Abraão, Davi, Isaías, Jeremias, Moisés etc. Também cita filósofos e poetas da
literatura clássica grega, textos que o Espírito Santo considerou válidos,
condizentes com a verdade divina, e autorizou o apóstolo a inserir nas
Escrituras. 1 Coríntios 15.33 é do poeta grego Menandro; Atos 17.28 é uma
citação do filósofo Epimenedes e Tito 1.12 é uma citação do mesmo poeta.
Portanto, leia muito com humildade, oração e discernimento. Lembre-se que Paulo
era apaixonado pelos livros (2 Timóteo 4.13).
Ainda em matéria de um bom pregador, no que tange a citar
partes do sermão de outros, é de bom alvitre lembrar que muita coisa da Carta
de Judas é extraída ipsis líteres da Segunda Carta de Pedro ou vice-versa.
Afinal, Lutero disse com razão: “Que pregues a Palavra! Se podes produzir um bom
sermão, produze-o e prega-o. Se não podes produzir um bom sermão, que pregues
um sermão bom de outrem. É melhor que pregues um bom sermão de outrem do que um
ruim teu mesmo!”
O método mais apropriado para a pregação
Outro problema gravíssimo da pregação nos dias hodiernos é
que muitos pregadores não têm um método definido, leem um texto bíblico, fecham
a Bíblia e nunca mais voltam para ele. Alguns começam a contar testemunhos mirabolantes
para engrandecer-se e outros põem-se a “adivinhar” problemas na vida dos
presentes para impressionar o auditório. Jeremias nos diz que essas tolices são
palha e não trigo (Jeremias 23.28). Desse modo, o rebanho volta para casa com a
alma cheia de guloseimas e desfalece por falta do pão nutritivo de uma pregação
bíblica.
Dentre os métodos de pregação, o que é mais producente é o sermão
expositivo, versículo por versículo, frase por frase, palavra por palavra, até
exaurir o texto. É o método explicativo usado por Jesus: “E começando por Moisés
e por todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas
as Escrituras” (Lucas 24.27, NAA). Explicar é um vocábulo de origem latina que
significa “abrir as plinces” para que se veja o que está oculto. Foi o mesmo
que Filipe fez explicando a Escritura ao eunuco (Atos 8.35). Muitos pregadores
não querem usar este método porque o mesmo exige muita oração e muita pesquisa,
e os tais sofrem de “preguecite aguda”. Acerca desses pregadores, o maior orador
sacro do Brasil-Colônia, padre Antônio Vieira, já dizia: “Jonas passou quarenta
dias pregando uma única mensagem aos ninivitas, hoje há pregadores, porém, que em
uma única hora, pregam quarenta mensagens diferentes”.
Quem prega versículos isolados e soltos prega sobre a
Palavra de Deus, mas quem prega um sermão expositivo prega a Palavra de Deus. É
o que Paulo recomendou: “Pregue a palavra” (2 Timóteo 4.2, NAA). Lendo um texto
e explicando-o, os resultados são inevitáveis: haverá quebrantamento e choro como
nos dias de Neemias. Diz o texto bíblico: “Eles iam lendo o livro da lei de Deus,
claramente, dando explicações, de maneira que se entendesse o que se lia [...] porque
todo o povo chorava ouvindo as palavras da lei” (Neemias 8.8,9). Não somente a explicação
produziu pranto, mas também mudança de vida: “Os da linhagem de Israel separaram-se
de todos os estrangeiros, puseram-se em pé e fizeram confissão dos seus
pecados” (Neemias 9.2). Conclusão: preguemos a Palavra e nossas igrejas serão
avivadas pelo poder da Escritura e do Espírito Santo que a inspirou. Neemias pregou
a Palavra e o povo chorava, Pedro pregou no Pentecoste e três mil almas se
converteram, pregou na casa de Cornélio e o Senhor batizou dezenas no Espírito
Santo e o evangelista Marcos disse que os apóstolos “foram e pregaram por toda
a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de
sinais que a seguiam” (Marcos 16.20). Conosco não será diferente. Soli Dei
Gloriae.
Bibliografia
BAKER, David e ARNOLD, Bill. Faces do Antigo Testamento.
1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
BRUCE, F. O Canon das Escrituras. 1 ed. São Paulo:
Hagnos, 2011.
TENNY, Merril. Enciclopédia da Bíblia. 1ed. São
Paulo: Cultura Cristã, 2008.
por José Orisvaldo Nunes de Lima
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