Sabe-se mais a respeito da vida pessoal de Jeremias do que de qualquer outro profeta do Antigo Testamento, porque os dois livros que escreveu (ou que levam seu nome como autoria), Jeremias e Lamentações, além de proféticos, são autobiográficos. (1) O nome Jeremias (Irmiáhu - ּוהָי ְמְריִ) significa “Aquele a quem Jeová nomeou”. Jeremias foi chamado ao ministério antes mesmo do seu nascimento, antes de estar no útero de sua mãe. Semelhante caso nota-se a respeito de Jesus, Sansão e Paulo (Jeremias 1.5; Juízes 13.5; Isaías 49.1-5; Lucas 1.15-41; Gálatas 1.15,16). Ele nasceu em uma família de sacerdotes (Jeremias 1.1). Por ordem do Senhor, não se casou nem teve filhos (Jeremias 16.1,2), em razão do iminente juízo que sobreviria à geração seguinte. Foi contemporâneo, possivelmente, de Sofonias, Habacuque, Daniel e Ezequiel.
Há similitudes profundas entre Jeremias e Isaías quanto ao
toque de Deus em sua boca (Jeremias 1.9; Isaías 6.6-7); entre ele e Moisés (Jeremias
1.6; Êxodo 4.10), quanto à queixa de ser desprovido da habilidade para ser
porta-voz de alguém; e entre Jeremias e o rei Davi, no ato de ser ungido (no
caso de Jeremias, escolhido) ainda “moço” (Jeremias 1.6; 1Sm 16.11). Jeremias
foi acusado de traição política, também julgado, perseguido e aprisionado pelas
palavras que havia proferido (Jr 11.18-23; 20.1-6; Marcos 14.53-65). Tanto
Jeremias como Cristo choraram pela cidade de Jerusalém (Jeremias 9.1; Lamentações
2.11; Lucas 19.41-44). Jeremias e Jesus predisseram a destruição do Templo de
Jerusalém (Jeremias 22.5-7; Mateus 23.37-39). Cada um foi rejeitado pela sua família
e o próprio povo (Jeremias 20.1-3; 36-32; João 1.11). (2)
O manual de estudo do 1º ciclo básico da Escola de Educação Teológica
das Assembleias de Deus (EETAD), na página 107, caracteriza Jeremias como “O
profeta da coragem”. Gibbs (2022) afirma: “Podemos chamar Jeremias de ‘O
Profeta da Coragem’. Desde a chamada ao ministério até sua morte como mártir, nenhum
profeta do Antigo Testamento mostrou tanta coragem diante da opressão e
sofrimento. Esse profeta sofreu muito fisicamente. Muitas vezes, quase chegou a
perder a vida. O povo tentou matá-lo, os sacerdotes espancaram-no e os reis o
aprisionaram. Por fim, veio a morte...”. (3)
Sem dúvida, compreender a vida do profeta Jeremias nos
auxilia a interpretar sua mensagem e seu sentimento. Ao realizar a exegese dos textos,
percebemos cada tristeza, cada lágrima, cada frustração.
A “herança ministerial” de Jeremias antes do chamado
Ao realizar a análise textual do início do capítulo 1 de
Jeremias, fica evidente que a vida ministerial esperada para o jovem Jeremias
era de seguir o ofício sacerdotal, como seu pai, Hilquias. Jeremias nasceu e
foi de família sacerdotal, sendo oriundo de uma aldeia cujo nome era Anatote,
no território da tribo de Benjamim. O sacerdócio era uma “herança ministerial”
e, por conseguinte, hereditário. Jeremias se achava uma criança ou jovem demais
quando chamado por Deus, logo podemos considerar uma idade inferior aos 22
anos, idade aproximada de início do ofício sacerdotal.
Hilquias e seus filhos sabiam da responsabilidade
ministerial que possuíam. Casos semelhantes são percebidos na história bíblica
veterotestamentária, a saber: Arão e seus quatro filhos, Eli e seus dois filhos,
entre outros. Ao compreender o cenário de expectativa por parte do sacerdócio,
da família, da nação e do próprio Jeremias, há um vislumbre profundo do que
Jeremias sentiu ao ouvir do próprio Deus que sua chamada não era igual à de seu
pai e seus irmãos. A casta sacerdotal possuía privilégios, inclusive a
possibilidade de um bom casamento, mas, como profeta, ele iria perdê-los todos,
além de decepcionar os mais próximos, sofrer perseguição e desprezo, bem como
não ter qualquer pujança social. O mesmo enredo se repete às vezes nos dias
hodiernos: muitos ministros querem ver seus filhos como seus sucessores, mas,
na prática, não é assim. Cada um possui um chamado ministerial específico.
Contexto do chamado de Jeremias (Jr 1.2-3)
O contexto do ministério de Jeremias perpassa a monarquia judaica
de cinco líderes, a saber: Josias (início do Chamado – 13º ano), Joacaz,
Jeoaquim, Joaquim e Zedequias (final – 11º ano, 5º mês). A trilha ministerial
jeremiana nos aclara como foram os últimos momentos de Judá antes de sua queda
para o mpério Neobabilônico.
Jeremias foi contemporâneo de outros profetas literários:
Sofonias, Habacuque, Daniel e Ezequiel. Uns compartilharam a chamada em Judá, outro
na Babilônia, entre a corte, e outro na Babilônia, entre a comunidade cativa. O
ministério de Jeremias tem início durante o avivamento dos dias do rei Josias,
e durou cerca de 40 anos (626-586 a.C.), abrangendo o reinado do próprio
Josias, seus três filhos e seu neto (Gibbs, 2022). (4)
O motivo de sua chamada abrange um motivo muito maior; na
verdade, uma motivação nacional e - por que não dizer? - global. Deus usaria
uma nação ímpia e pagã para corrigir uma que deveria ser santa e pura. O Senhor
levanta Jeremias como atalaia para trazer uma mensagem de repreensão e
julgamento iminente sobre Judá. Como a sentença não era nacionalista nem
triunfalista, mas de correção, não agradou nem ao povo, nem aos monarcas e nem
à classe sacerdotal, tendo em vista que perderiam o direito de oficiar no
Templo. Jeremias foi profeta impopular e rejeitado.
A surpresa do chamado e a capacitação divina (Jr 1.4-10)
Claramente, Jeremias se surpreendeu com o chamado divino. A
surpresa se dá em três esferas principais: a pouca idade (“...ainda sou um
menino...”), um ministério distinto do que pensava que seria o seu e a
dificuldade em transmitir a mensagem a seu público (“...não sei falar...”).
Afinal, qualquer um de nós se surpreenderia sendo chamado novo demais ou idoso
em demasia, ou se, tendo labutado para um ofício, abandonar tudo e seguir outra
vocação; ou ainda ter que falar a um público difícil ou grande demais. No
versículo 5, o discurso de Deus é bastante claro quanto à chamada que desenhou
para Jeremias e em que momento veio essa decisão: antes mesmo do nascimento.
Antes do seu nascimento, antes da concepção de sua mãe,
Jeremias já tinha uma obra a fazer: ser um instrumento profético. O público é
explicitado na porção derradeira do versículo: “às nações”. Há uma trilha
ministerial atual que sugere uma pirâmide, onde o obreiro inicia sua trajetória
como membro e sobe uma escada: auxiliar, diácono, presbítero, evangelista,
pastor-auxiliar e pastor presidente. De fato, esse modelo é uma excelente forma
de ensino e preparo do ofício ministerial hierárquico nas Assembleias de Deus,
e a igreja precisa dessa forma de governo. Mas, se pensarmos que todo obreiro precisa
seguir essa lógica patenteada, cometeremos um engano. Nem todos foram chamados
para pastores, nem todos foram chamados para mestres, nem todos foram chamados
para o presbiterato. A resposta de Jeremias ao chamado foi: sou jovem demais, não
sei fazer isso, não sei falar. A contrarresposta do Altíssimo veio com uma
miraculosa capacitação, surpreendendo até o próprio Jeremias.
NOTAS
(1 Texto do Manual do Programa de Formação em Teologia,
Ciclo 1 (Básico), da EETAD: Profetas Maiores, p.110.
(2) Bíblia de Estudo Palavras-Chave, CPAD, p.775.
(3) GIBBS, Carl Boyd. Profetas Maiores: as profecias de
Isaías, Jeremias e Ezequiel – 1.ed. – Campinas, SP. EETAD, 2022. p.110.
(4) GIBBS, Carl Boyd. Profetas Maiores: as profecias de
Isaías, Jeremias e Ezequiel – 1.ed. – Campinas, SP. EETAD, 2022. p.110.
por Filipe Abreu de Oliveira
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