“Não farás aliança alguma com eles, ou com os seus deuses. Na tua terra não habitarão, para que não te façam pecar contra mim; se servires aos seus deuses, certamente isso será um laço para ti” (Êxodo 23.32-33).
Sobre o maciço do Moriah, a noroeste do Domo da Rocha e no
mesmo pátio, uma pequena construção octogonal ergue suas colunas de mármore e
apoia a modesta cúpula que ensombreia o terreno despido, revelador de uma
porção antiga e desgastada de pedra. Chamada pelos árabes de Cúpula dos
Espíritos, recebe esse nome devido a uma lenda antiga que afirmava ser naquela
direção, numa localização mais inferior do terreno, que os espíritos dos mortos
se reúnem para fazer suas súplicas. Sua construção data do período Omíada, uma
vez que são encontradas referências a sua presença em documentos dos séculos III
e IV, aparecendo com o nome de Cúpula de Gabriel; posteriormente foi reformada,
durante a dominação Otomana, sendo o lugar sempre reputado como lugar de reverência
e mistério. A modesta construção também recebe o nome de Cúpula das Tábuas, uma
vez que a tradição mais antiga considera ser ali o lugar em que repousaram as
Tábuas da Lei, dentro da Arca da Aliança, no Santo dos Santos. Para Asher S.
Kaufman, o nome Cúpula das Tábuas soa apropriado. O professor, membro do Corpo Docente
da Universidade de Notre Dame, Departamento de História, é especialista em
Oriente Médio moderno, com foco no Líbano, Israel e Síria; destacam-se,
igualmente, suas apreciações sobre o gasoduto trans-arábico e sua relevância
para se compreender o atual conflito. Para Kaufman, autor de “O Monte do
Templo: onde está o Santo dos Santos” (HarYErAEhPress), há não apenas provas
irrefutáveis de que a antiga construção salomônica se erguia no hoje chamado
Monte do Templo, mas de sua exata localização, ou seja, na área externa tanto
ao Domo da Rocha quanto à Mesquita Al-Aksa.
Os estudos sobre a posição exata do antigo Templo têm suscitado
discussões volumosas: para alguns, a cisterna subterrânea perto da Mesquita
seria o lugar mais apropriado; outros mencionam a rocha plana abaixo do Domo
dos Espíritos; alguns afirmam que o Domo da Rocha ocupa o lugar do Santuário. O
debate ganha proporções maiores quando se consideram as implicações políticas
de uma conclusão. Os que concluem que o lugar sagrado está ocupado por outra
construção costumam sonhar com um cataclisma provocado pela vinda do Messias,
numa demolição providencial seguida pela imediata reconstrução do Templo. Já os
que atribuem o exato local a um espaço entre o Domo e a Mesquita advogam a
possibilidade de estabelecer o Templo no terreno intermediário, por meio de um
acordo de soberania compartilhada – uma aliança de coexistência pacífica e um
acordo de compromisso mútuo com os lugares sagrados. Opõem-se a uma solução de
espaço compartilhado aqueles que recordam a advertência de Êxodo, acima citada,
em respeito à conservação da santidade daquele espaço físico.
Nos últimos anos, enquanto os debates prosseguem, cerca de cinquenta
mil judeus visitam o espaço anualmente, embora seguindo um percurso
pré-definido, sendo acompanhados por seguranças e debaixo da advertência de não
orar. Exatamente, os judeus não podem orar no Monte do Templo. Mesmo uma
criança, se apanhada em atitude de prece, fará com que seus pais ou
responsáveis sejam punidos. De qualquer forma, muitos judeus ortodoxos e os
ultraortodoxos não caminham na área superior do Monte. Suas restrições pessoais
devem-se ao temor de, inadvertidamente, ousarem colocar seus pés sobre o Santo
dos Santos.
A situação constrangedora por que passam os judeus revira as
páginas da História recente de Israel, mais especificamente levando ao ano de
1967, quando a cidade de Jerusalém foi restaurada ao controle judaico.
Posteriormente, a soberania do Monte foi entregue à Jordânia e ao Waqf islâmico
de Jerusalém, num movimento político tido por alguns como uma jogada
estratégica magistral pela sobrevivência do Estado Judeu, e tido por outros
como o maior erro de cálculo feito por Israel em seu estabelecimento nacional.
Para os cristãos, as duas considerações estão erradas, uma vez que a Palavra de
Deus nos afirma que a Cidade Santa seria pisada pelos não judeus até que se
cumprisse o tempo dos gentios. Uma vez que esse tempo, tempo de salvação, tempo
de resgate para todos os povos ainda não foi cumprido, a vitória na guerra
quedou-se, submetida ao tempo estabelecido pela Soberana Palavra. Porém, cumpre
lembrar, o tempo passa.
Assunto considerado proibitivo nos debates oficiais, tem se
tornado corriqueiro entre políticos israelenses e povoado as discussões no
Knesset. Aliás, quando o primeiro-ministro celebrou a inauguração da Embaixada
Americana em Jerusalém, no ano de 2018, falou abertamente sobre a importância
do Templo judaico, apontando para o seu soerguimento. O assunto não é novo para
Netanyahu, uma vez que foi, ele mesmo, apontado por seu antigo conselheiro,
Menachem Mendel Schneerson, conhecido como Rebe, como agente da construção, ao menos,
de um Mishkan, um lugar para Deus habitar junto ao Seu povo. Rebe, na verdade,
foi além em suas afirmações – para o rabino, Netanyahu seria o último primeiro-ministro
de Israel até a vinda do Messias. Caberia, portanto, a ele, ‘preparar’ o quadro
e ‘apressar’ o esperado evento. Rebe não chegou a ver a ascensão política do
homem que ele inspirou com suas palavras, tendo falecido no ano de 1994, mas
não deixou de anunciar e proclamar como um dever nacional a construção da Beit
HaMikdash.
Sobre o assunto, algumas datas reafirmaram a aceleração do
tempo: os EUA anunciaram sua determinação de reconhecer Jerusalém como Capital
de Israel em 6 de dezembro de 2017, transferindo sua Embaixada em maio de 2018,
a Guatemala os seguiu e a Argentina oficializou sua intenção. Honduras e Kosovo
posicionaram-se a favor da medida em 2021, enquanto o Paraguai reabriu sua
Embaixada em 2023, mesmo ano em que Papua-Nova Guiné inaugurou a sua representação
oficial. Observando a aceleração do tempo e recordando as palavras do apóstolo
Paulo aos tessalonicenses (2 Tessalonicenses 2.4), entendemos que pouco tempo
resta para que um líder mundial proclame sua pretensão de assentar-se no Templo
de Deus, autoproclamando-se Deus. A cobiçada construção terá sido materialmente
erguida na ocasião do cumprimento dessa palavra, numa decisão atrelada a
acordos políticos de grande repercussão e que, sem qualquer pretensão profética,
já estão em curso. Colocando a cadeia de fatos em sequência retroativa, para
que o homem da iniquidade queira assentar-se no Templo de Deus, o Templo
precisará estar erguido; para estar erguido, há que se conhecer o lugar e ter
as condições políticas para levar a termo sua edificação; o projeto, outrora
tabu, hoje é debatido e considerado com clareza pelos líderes israelenses;
mesmo se desconsiderarmos as palavras do Rebe sobre o papel de Benjamin Netanyahu
como antecessor do Messias, é inegável seu papel na realização do projeto.
Paralelamente, o projeto satânico prossegue, em constantes provocações a
Israel, exigindo respostas enérgicas e alimentando a mídia antissemita, ao
atribuir ao povo judeu culpa, responsabilidade pelos ataques e mortes e, assim,
alimentando o ódio e a perseguição. Negar a Palavra do Senhor – eis o objetivo
final, numa reapresentação do desafio sarcástico do Éden: “Foi assim que Deus
disse?”. Negar a Palavra, aniquilar pessoas e lugares que fazem parte do cumprimento
dessa Palavra, fomentar o ódio, lançar irmãos contra irmãos, mentindo, forjando
notícias, justificando o injustificável... o projeto das trevas caminha,
enquanto o de Deus segue triunfante. Triunfa o Senhor, triunfam seus fiéis e triunfam,
até mesmo, alguns singelos e desprezados objetos e lugares. Aqui, uns vasos de
barro, ali, algumas moedas e selos antigos, noutro lugar, inscrições em pedras restam
clamando a veracidade da revelação. Dando testemunho da Palavra, resistindo a
guerras, dominações e ataques os mais variados no curso da História, oito
colunas, alinhadas com a porta Oriental, num espaço esquecido (ou será respeitado?)
que povos diversos recusam pisar, descansam sobre a pedra do Monte, do Monte do
Templo, no lugar de tantas histórias e de importantes advertências, quer sobre
a não associação com as trevas, quer sobre a firmeza da Palavra, quer sobre a
brevidade do tempo. Estamos advertidos.
por Sara Alice Cavalcanti
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