Ela criou 19 filhos na fé, dentre eles os célebres John e Charles Wesley
Susanna Wesley era a filha caçula dos 25 filhos do pastor Samuel Annesley e sua esposa Mary White. Nascida em 20 de janeiro de 1669, em Annesley, vila do distrito de Ashfield, em Nottingghamshire, Inglaterra, ela viria a se tornar uma grande mãe e educadora, cujo exemplo de vida e escritos inspiraram e continuam inspirando vidas em todo o mundo.
Susanna criou todos os seus filhos com muita disciplina nos caminhos
do Senhor, com todos eles permanecendo na fé até o final de suas vidas. Dois
deles, aliás, se destacaram como grandes nomes do Avivamento Metodista do
século 18 – seus notáveis filhos John e Charles. Destaque ainda para Samuel
Junior (1690-1739), o mais velho, que foi poeta, professor, pastor anglicano e
compositor de hinos cristãos, dos quais alguns se encontram em hinários metodistas;
e para a filha Mehetabel (1697-1750), que aos 8 anos lia o Novo Testamento no
original grego e, apesar de ter tido uma vida conturbada quando adulta, terminou
firme na fé e foi uma poetisa inglesa de destaque em sua geração. Os nomes mais
destacados, porém, foram, sem dúvida, John Wesley, que se tornou o principal nome
do grande avivamento do século 18, e Charles Wesley, que não só foi um
braço-direito do irmão naquele movimento como também se tornou um excelente compositor,
sendo simplesmente o maior compositor de hinos cristãos da história. Foram mais
de 5 mil hinos produzidos por sua abençoada lavra.
Crise na família por questão política; reconciliação e
bênção
O pai de Susanna, pastor Samuel Annesley (1620-1696), era
dissidente da Igreja Anglicana. Aos 12 anos, porém, Susanna deixou de
frequentar a igreja do pai e se converteu à Igreja da Inglaterra. Ela casou com
o poeta, escritor e pastor Samuel Wesley (1662-1735) em 11 de novembro de 1688.
Samuel tinha 26 anos e Susanna tinha 19. Seu marido foi ordenado pastor pela
Igreja da Inglaterra. O casal teve 19 filhos, com nove deles morrendo ainda
bebês, sendo quatro gêmeos. Um dos filhos morreu sufocado acidentalmente pela
empregada doméstica. Quando Susanna morreu, apenas sete de seus filhos estavam
vivos – os outros três haviam morrido já adultos: Mary Wesley (1696-1734); Samuel
Wesley Junior, o mais velho (1690-1739); e Kezia Wesley (1710-1741), falecida
um ano antes da morte da mãe.
Susanna e o marido eram muito unidos, mas chegaram a passar
por uma crise que levou o seu esposo a abandoná-la junto com os filhos por mais
de um ano. O motivo? Uma discussão política. Ou você acha que é só hoje que,
lamentavelmente, amigos e parentes se dividem por causa de política? Samuel a abandonou
entre 1701 e 1702 devido a uma divergência política-religiosa sobre a legitimidade
do Rei William III (1650-1702) no trono da Inglaterra.
A coisa se deu da seguinte forma: Samuel era um defensor
ferrenho do Rei William III, mas sua esposa, não. Susanna não considerava
William III um rei legítimo porque ele era visto como um usurpador do trono que
pertencia por “direito divino” ao sogro e tio dele, James II. Embora William
III tivesse sangue Stuart (ele era filho de Mary, a filha do rei Charles I), a
questão para Susanna não era apenas a linhagem, mas a forma como ele chegou ao
poder. William III, além de se declarar oficialmente como sendo da Casa de
Orange-Nassau, assumiu o trono após a deposição de James II, que foi forçado ao
exílio. Susanna acreditava que um monarca ordenado por Deus não poderia ser
deposto por homens ou pelo Parlamento. Além disso, aos 13 anos, ela fez um voto
de fidelidade ao rei Stuart. Logo, para ela, reconhecer William III como rei
legítimo significaria quebrar esse voto sagrado que ela fizera perante Deus.
Assim, durante as orações familiares, ela recusava-se a dizer “Amém” quando o
marido orava pelo rei, pois não o reconhecia como o monarca legítimo,
permanecendo leal aos Stuart.
Ao descobrir a razão do silêncio de Susanna, Samuel declarou
“Você e eu devemos nos separar, pois se temos dois reis, devemos ter duas
camas”. Ela não queria que o marido a abandonasse, mas também era irredutível
quanto ao seu voto, então ele cumpriu a ameaça, mudando-se inicialmente para
outro quarto e depois partindo para Londres, jurando nunca mais voltar. O
afastamento terminou somente após a morte do Rei William III e a ascensão da
Rainha Anne, irmã da esposa do monarca, a quem ambos os cônjuges apoiavam. Além
disso, um incêndio na residência do casal em 1702 ajudou a promover a reaproximação
definitiva. Samuel, preocupado com a segurança da mulher e dos filhos, voltou. Depois
disso, eles nunca mais se separaram. Uma curiosidade: John Wesley nasceu logo
após a reconciliação deles, em 1703, como fruto do reatamento do casal.
A extraordinária educação dada aos seus filhos
Houve um segundo momento em que Susanna ficou sem o marido,
mas não por negligência dele. O episódio ocorreu em junho de 1705, quando o
pastor Samuel foi detido no Castelo de Lincoln e lá permaneceu por vários
meses. A acusação formalmente apresentada foi dívida. Entretanto, embora as dificuldades
financeiras fossem constantes devido à sua numerosa família e a alguns
investimentos agrícolas malsucedidos, historiadores apontam que a prisão de Samuel
teve motivações políticas. Suas dívidas haviam chegado a 300 libras nessa época
devido às perdas em operações de cultivo de linho e no incêndio de sua casa em
1702, mas o real motivo da detenção é que o pastor Samuel era um clérigo muito
ativo da High Church (Alta Igreja, que era conservadora), com sua prisão ocorrendo
durante as tensas eleições gerais de 1705 na Inglaterra. Ele teria sido alvo de
adversários políticos, os Whigs, que eram liberais, enquanto Samuel tinha um posicionamento
pró-Tories, que eram os conservadores. Os Whigs
usaram suas dívidas como pretexto
para puni-lo por suas opiniões.
Durante esses meses de prisão do marido, Sussana mal tinha o
que comer e precisava tirar leite das poucas vacas que tinham para sustentar os
filhos. Foi nesse isolamento que ela fortaleceu seu método de ensino doméstico,
decidindo que a educação dos filhos não pararia, independentemente da ausência do
pai. Nesse período, ela escreveu uma carta ao marido preso com as seguintes
palavras que se tornaram famosas: “Sou mulher, mas também sou a dona de uma família
numerosa. E embora a responsabilidade principal pelas almas que nela habitam
recaia sobre você, durante sua longa ausência, não posso deixar de considerar
cada alma que você deixa sob meus cuidados como um talento que me foi confiado.
Não sou homem nem ministro, mas como mãe e dona de casa, senti que deveria
fazer mais do que já fiz. Resolvi começar com meus próprios filhos, e adoto o
seguinte método: dedico o tempo que posso a cada noite para conversar com cada
um deles individualmente. Às segundas-feiras, converso com Molly; às terças,
com Hetty; às quartas, com Nancy; às quintas, com Jacky [apelido de seu filho John];
às sextas, com Patty; e aos sábados, com Charles”.
O pastor Samuel depois receberia ajuda financeira de amigos
e clérigos, incluindo o arcebispo de York, para pagar as dívidas e ser solto.
Após a libertação, continuou enfrentando crises financeiras ao longo da vida,
principalmente após a sua casa pegar fogo uma segunda vez, em 1709, com seu filho
John quase morrendo, tendo de ser resgatado da janela do segundo andar. Ele
acabou deixando dívidas substanciais para Susanna quitar após sua morte em
1735.
Depois do segundo incêndio, Susanna foi obrigada a colocar seus
filhos em lares diferentes por quase dois anos, enquanto a casa deles em
Epworth era reconstruída. Durante esse período, os filhos viveram sob as regras
dos lares em que estavam hospedados. Logo, não demorou para que começassem a
usar linguagem imprópria e a brincar mais do que estudar, o que deixou Sussana
horrorizada. Então, quando voltaram, ela deu-lhes uma educação mais rígida. Até
os 5 anos, os filhos não estudavam, mas, no dia seguinte ao quinto aniversário
de cada um, as aulas começavam, dadas pela própria mãe. Eram seis horas do dia
dedicadas aos estudos. O alfabeto deveria ser aprendido todo já no primeiro
dia. Todos os seus filhos, exceto dois, conseguiram aprender no primeiro dia. E
ela ensinava ainda latim, grego e os clássicos tanto aos meninos quanto às
meninas.
Um episódio marcante foi quando seu marido estava em Londres
defendendo um amigo de acusações de heresia. O pastor substituto enviado, em
vez de fazer o seu trabalho, só fazia pregar sermões para atacar a família. Todos
os sermões tinham como tema, invariavelmente, pagamento de dívidas, procurando
alimentar a hostilidade da membresia local contra o pastor Samuel. Mesmo assim,
Susanna não deixou de ir aos cultos com os filhos todos os domingos pela manhã;
porém, devido à negligência do pastor substituto de dar instrução cristã genuína
a seus filhos e aos demais membros da igreja, ela passou a realizar um culto
com os filhos nas tardes de domingo na cozinha da sua casa, onde cantavam um hino
e, em seguida, Susanna lia um sermão do arquivo de sermões de seu marido ou de
seu pai, seguido por outro hino. Logo, as pessoas da região começaram a
perguntar se podiam participar e, em certo momento, havia mais de 200 pessoas
que frequentavam o culto de Susanna nas tardes de domingo, enquanto o culto
matutino de domingo se esvaziou, voltando a ficar cheio somente depois que o
pastor Samuel voltou.
Susanna escreveu vários textos, muitos em forma de carta e
famosos ainda hoje. São meditações e comentários sobre textos bíblicos e sobre
o Credo dos Apóstolos, o Pai Nosso e os Dez Mandamentos. Ela foi um exemplo de
mãe e educadora, inspirando muitos.
Compartilhe este artigo. Obrigado.

إرسال تعليق
Seu comentário é muito importante