Jesus disse que haveria dias em que apenas a mulher que não teve filhos seria feliz?
Qual o correto entendimento de Lucas 23.29, que diz que “eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram!”?
O texto de Lucas 23.29 insere-se no contexto da caminhada de
Jesus até o Gólgota (Lucas 23.26-32) e constitui material exclusivo de Lucas.
Em Lucas 23.27, uma grande multidão e muitas mulheres seguiam Jesus e lamentavam-no
em alta voz. O versículo 29 complementa o versículo 28, no qual Jesus adverte
às mulheres, chamadas por Ele de “filhas de Jerusalém”, a não chorarem por Ele,
mas por si mesmas e por seus filhos, representando a população da cidade. A
afirmação de Jesus em Lucas 23.29 - “Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres
que não geraram, e os peitos que não amamentaram!” - revela um contraste com a
perspectiva do Antigo Testamento, em que a esterilidade era considerada
maldição e vergonha (Lucas 1.25; Gênesis 30.23; Isaías 4.1). Aqui, porém, ela é
considerada como bem-aventurança. Esse contraste se explica na frase anterior
“eis que hão de vir dias”, que aponta para um período iminente de juízo divino.
Nesse cenário, será melhor não ter filhos a presenciar o sofrimento deles. O
horror que se aproxima, da destruição de Jerusalém, faz com que a esterilidade se
transforme em uma realidade vantajosa e não seja mais julgada como maldição.
O juízo sobre Jerusalém, indicado em Lucas 23.29, é tão
impactante que a ausência de filhos seria o mais desejável. A vantagem da
esterilidade nesse contexto específico é evidenciada pela descrição tripla feita
por Jesus: “...as estéreis e os ventres que não geraram, e os peitos que não
amamentaram”. Todo este contexto de sofrimento é sugerido por Jesus para um tempo
futuro, que aponta para o ano 70 d.C., em que a cidade de Jerusalém é destruída
pelo império romano. É como se dissesse: “Sem dó e nem piedade, as famílias sofrerão
muita dor”. O sofrimento será tão intenso que os habitantes da cidade desejarão
a morte (Lucas 23.30; Oséias 10.8).
O julgamento divino sobre Jerusalém se intensifica além dos
anos 70 d.C. Em 132 d.C., o imperador Adriano realiza uma destruição ainda mais
severa. Mas, no primeiro caso (70 d.C.), o general Tito, a mando do Nero,
destruiu totalmente a cidade, de modo que, se alguém entrasse nela, não
acreditaria que seria reconstruída e habitada. Os relatos desse período são tão
intensos e horríveis que explicam porque a maternidade era inviável e até mesmo
uma “maldição” e não uma bênção divina naquele contexto. A maldade era sem
precedentes. As crianças eram brutalmente mortas e, por causa do cerco à
cidade, a fome assolava, levando algumas mães a comerem seus próprios filhos.
Além disso, as mulheres não podiam sair da cidade com os seus filhos. Nesse
contexto de guerra e desespero, o que normalmente seria considerado uma bênção –
ter filhos – tornou-se uma fonte de dor e tragédia.
Portanto, devido à consequente queda futura de Jerusalém,
por causa da rejeição do povo ao Filho de Deus, as mulheres “estéreis, e os
ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram” puderam ser chamadas
de “bem-aventuradas”, por não terem filhos, pois o sofrimento no contexto de guerra
é mais difícil para mães. Não gerar, não amamentar e não ter filhos em meio a
uma guerra não seria maldição. Para aquele momento específico, era uma “bem-aventurança”.
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