O texto de 1 Coríntios 12.7-10 mostra um conjunto de dons conhecidos como extraordinários. Alguns desses carismas revelam-se quase uma incógnita quando se tenta defini-los na prática eclesiástica. Entre esses dons, destacam-se dois que parecem, à primeira vista, intercambiar-se conceitualmente. Essa dupla de carismas, descrito por Paulo, são dons de curar e operação de maravilhas.
No presente artigo, serão analisados esses dons, dando
destaque ao aspecto linguístico e contextual da igreja de Corinto. Por fim,
mostrar-se-á as aproximações e distanciamentos entre essas duas manifestações
do poder do Espírito Santo, conforme descrito na primeira carta paulina aos
Coríntios (1 Coríntios 12.9,10).
Os dons de curar (v.9)
Gordon Fee (2019, p.751), analisando este dom, detalha em
poucas linhas a realidade das curas no ministério de Jesus, dos apóstolos, de
Paulo e na vida da Igreja em todos os tempos. Este detalhamento tem como
enfoque mostrar que os autores bíblicos criam e ensinavam que as curas de modo
sobrenatural eram um sinal de que Deus não estava alheio ao Seu povo e,
portanto, ao se crer em um Deus pessoal, é de se esperar que as curas continuem
a acontecer entre o povo dEle. Fee conclui seu raciocínio destacando que
“apenas os intelectuais e em uma ‘era cientifica’ é que pensam que para Deus é
difícil demais curar os enfermos”.
Os dons de cura (gr. charismata iamaton) são
concedidos à Igreja para a restauração física, por meios divinos e
sobrenaturais (Atos 3.6-8; 4.30). O termo “dons de curar” aparece no plural,
mostrando que estes charismata eram usados para a restauração física de
diversas enfermidades, ressaltando a misericórdia e o favor de Deus pela Sua
Igreja. Assim, o plural charismata (dons) “provavelmente sugere que não
é um dom permanente, por assim dizer, mas cada ocorrência é por si só um dom”
(FEE, 2019, p.752), sendo um indicativo de que cada cura é um novo dom que é
concedido ao portador do mesmo, deixando-o sempre na inteira dependência do
Espírito e retirando do crente a pretensão de ser portador permanente deste
carisma, como fazem muitos charlatões contemporâneos. Deve-se, por fim,
reafirmar que nem todos os teólogos da atualidade aceitam a premissa de que
este dom está disponível aos cristãos hodiernos (SCHREINER, 2019, p. 28).
Alguns compreendem que, na contemporaneidade, o que há são respostas divinas às
orações dos fiéis e não, necessariamente, o dom de curar (KISTEMAKER, 2003, p.
586). Contudo, como não há cláusulas temporais restritivas impostas por Paulo
em seu ensino, é por demais complexo definir que este dom extraordinário ficou
restrito ao passado, não podendo ser concedido por Deus novamente à Sua Igreja.
É sensato crer que a atuação sobrenatural do Espírito Santo continuará na vida
da Igreja até o dia em que o Escaton se cumpra no tempo presente.
Operação de maravilhas (v.10)
O termo “operação de maravilhas”, conforme descrito em 1
Coríntios 12.10 (ARC), pode ser entendido igualmente como operações de
milagres. Segundo David Lim (2010, p. 474), “‘a operação de maravilha’ consiste
em dois plurais: de dunamis (façanha de grande poder sobrenatural) e energêma
(resultados eficazes). Esse dom de poder pode estar relacionado à proteção,
provisão, expulsão de demônios, alteração de circunstancia ou juízo”.
Carson (2013, p. 42) estabelece uma ligação entre curas e
operação de maravilhas. Essa ligação pode ser vista até o ponto em que toda
cura é uma operação de maravilha, mas não se pode dizer que toda operação de
maravilha é uma cura. Isto ocorre pelo motivo que a operação de maravilha pode
acontecer, por exemplo, no intervir sobrenatural de Deus na natureza ou algo
similar.
Neste sentido, nota-se a operação de maravilhas por todo o
ministério de Cristo. Por exemplo, quando Ele intervém de modo sobrenatural na
natureza acalmando a tempestade (Marcos 4.35-41). Observam-se maravilhas
(milagres de poder) quando Jesus cura um cego de nascença (João 9.1-6). Por
fim, em todo o Novo Testamento, há a atuação extraordinária do Espírito Santo
ressuscitando vidas, como no caso do filho de uma viúva (Lucas 7.11-15), da
filha do Jairo (Lucas 8.41,42; 49-55), de Lázaro (João 11.1-44), de Tabita (Atos
9.36-43) e de Êutico, o jovem que dormiu e morreu durante o sermão de Paulo (Atos
20.9,10). Em todos estes milagres, percebe-se uma intervenção sobrenatural de
Deus na história humana. Desse modo, acredita-se que Paulo faz um paralelo com
estas outras experiências de operação de maravilhas para estabelecer um
paradigma esperado para a comunidade dos coríntios.
Considerações finais
Paulo compreendia que tanto os dons de curar quanto a
operação de maravilhas era algo experienciado pela comunidade cristã em
Corinto. Esta prática da comunidade cristã helênica do primeiro século não
ficou restrita àquele tempo, sendo algo esperado para todas as comunidades
cristãs nas eras vindouras.
Quanto à diferenciação entre os dois carismas, pode-se
sintetizar na expressão de que toda cura é uma operação de maravilha, porém nem
toda operação de maravilha é uma cura. Esta ideia implica em dizer que o dom de
operação de maravilhas é uma ação extraordinária de Deus, que vai além da cura
física/psicológica do corpo humano. Essa manifestação inclui expulsão de
demônios, intervenção na natureza e até mesmo a realização de coisas
extraordinárias (e.g. 2 Reis 6.6).
Referências
CARSON, D.A. A manifestação do Espírito: a
contemporaneidade dos dons à Luz de 1 Coríntios 12-14. Traduzido por Caio
Peres. São Paulo: Vida Nova, 2013.
FEE, Gordon D. 1 Coríntios: comentário exegético.
Traduzido por Marcio Loureiro Redendo. São Paulo: Vida Nova, 2019.
KISTEMAKER, Simon J. Comentário
do Novo Testamento: Exposição da Primeira Epístola aos Coríntios. Traduzido
por Helen Hope Gordon Silva. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
LIM, David. Os dons espirituais. In: HORTON, Stanley. Teologia
Sistemática: Uma perspectiva pentecostal. Traduzido por Gordon Chown. 12ª
Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
SCHREINER, Thomas R. Dons espirituais: uma perspectiva
cessacionista. Traduzido por Marcelo Siqueira Sampaio. São Paulo: Vida
Nova, 2019.
STORM, Sam. Dons espirituais: introdução bíblica,
teológica e pastoral. Traduzido por Claudio Chagas. São Paulo: Vida Nova,
2016.
STRONG, James. Dicionário bíblico Strong: Léxico
hebraico, aramaico e grego de Strong. São Paulo: SBB, 2002.
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