O cristão em uma época de polarização política

O cristão em uma época de polarização política


Em um ambiente caracterizado pela disputa ideológica, na qual temas sensíveis de natureza social, ética e moral tornam-se quase que inevitavelmente parte das discussões, o cristão deve conhecer o seu lugar e os princípios que devem reger as suas ações e os seus posicionamentos

Em advertência à igreja que estava em Corinto, o apóstolo Paulo escreve: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 5.33). Esse texto indica inúmeras e ricas lições, inclusive a demonstração de que, por natureza, o ser humano é influenciável. Aliás, nem mesmo o profeta Isaías escapou desta realidade, como se lê em suas próprias palavras: “Então, disse eu: ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6.5).

Fatores culturais, sociais e externos, em geral, incluindo aspectos políticos, influenciam as pessoas, o que impõe ao cristão que deseja agradar a Deus a necessidade de uma atenção redobradamente especial, com vistas a não comprometer seus valores fundamentais. Por outro lado, o cristão, individualmente, e a igreja, coletivamente, são chamados e enviados a influenciar o mundo, contribuindo significativamente com a prosperidade da cidade (Jeremias 29.7) e no combate ao pecado por meio da verdade de Deus, inclusive diante de governantes (Daniel 4.27; Atos 24.24,25).

Depois de apresentar uma longa lista de personagens bíblicos que exerceram influência sobre governos e líderes, o teólogo Wayne Grudem afirma que “exercer influência positiva sobre governos com base na sabedoria das palavras de Deus é um tema presente em toda a Bíblia” (GRUDEM, 2014, p. 86). Entretanto, de que forma o cristão deve cumprir essa missão sob o aspecto político, mui especialmente em um ambiente de extrema polarização, como na atualidade?

A atual polarização política no Brasil ocorre, basicamente, pela disputa de espaço entre os que se denominam de “direita” e os de “esquerda”, (1) e isso, de acordo com Giovanni Sartori, se dá quando “os polos ideológicos de um sistema partidário se distanciam a ponto de se tornar o consenso político improvável” (SARTORI, 1982, p. 51), resultando, assim, no tensionamento das relações e no enfraquecimento da harmonia e da boa convivência.

A polarização política no Brasil se apresenta como um de safio à igreja como instituição e principalmente ao cristão como discípulo de Cristo. Aliás, a relação entre política e vida cristã pode ser re­fletida sob diversos espectros, como os limites entre política e religião, separação entre igreja e estado, abuso de poder, infl­uência religiosa no processo eleitoral, dentre outros. Entretanto, o que motiva a refl­exão aqui proposta é discorrer acerca de como o cristão – nesta condição – deve se portar num ambiente polarizado politicamente e isso será feito à medida que as seguintes perguntas são respondidas: I) Quais as marcas de um verdadeiro cristão? II) O que é política? III) Há relação entre vida cristã e política? IV) Um cristão deve se envolver com política? V) Se há limites na relação de um cristão com a política, quais seriam? VI) O que esperar de um cristão em tempos de polarização política?

Na intenção de responder a estas questões, aqui se discorrerá, em primeiro lugar, acerca da relação do cristão com a política, seguida de uma análise sobre a postura que o discípulo de Cristo deve ter em meio à polarização política e, finalmente, de algumas sugestões práticas, cuja finalidade é oferecer auxílio nesse desafio que se impõe à igreja no contexto atual no Brasil.

O cristão e a política

O tema sobre a relação entre o cristão e a política tem promovido debates ao longo da história e precisa ser bem esclarecido, com vistas a evitar desvios e reafirmar o espírito do Cristianismo bíblico. Mas, afinal de contas, o que é política e o que é – efetivamente – um cristão?

O significado de política pode ser analisado sob diferente s aspectos, contudo, em linhas gerais, conforme o pensamento do sociólogo Max Weber, é por meio dela que o Estado é dirigido, conduzido e administrado, sendo, inclusive, a responsável pelo controle e o monopólio legitimo do poder (WEBER, 2011, pp. 97-128). Sendo assim, a política pode ser compreendida como a atividade humana por meio da qual se conquista e se mantém o poder, mui especialmente relacionado à figura do Estado; e, por diferentes motivos, se discute a relação da igreja, coletivamente, e do cristão, individualmente, com a prática e os meandros da política.

Na busca por oferecer uma possível contribuição sobre a relação do cristão com a política, é imperativo que se defina o que é ser um cristão. Conforme o Dicionário Teológico, de autoria do pastor Claudionor de Andrade e publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus, o cristão é apresentado da seguinte forma: “Aquele que vive de conformidade com os ensinamentos de Cristo. Não basta crer em Cristo para ser cristão, é necessário, antes de mais nada, executar os mandamentos deixados por Ele. Ser cristão significa fazer-se amigo de Cristo. Os melhores cristãos são os que se parecem com Cristo [...]”. (2)

O cristão, portanto, é aquele que, em linhas gerais, ama o Senhor Jesus e, em virtude disso, obedece a seus mandamentos, cujo fundamento é o amor, conforme as palavras do Mestre: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (João 14.21). Quanto aos mandamentos deixados por Jesus, são assim resumidos: “O meu mandamento e este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15.12).

O amor é o princípio fundamental da vida cristã, e quanto a isso não há variação; afinal de contas, este ensinamento é amplamente exposto no Novo Testamento (1 João 4.20; 5.1-4). Sendo assim, as ações e as reações do cristão – em todas as esferas da vida – devem ser norteadas pelo princípio do amor que em hipótese alguma nega a verdade e a justiça divinas (1 Coríntios 13.6).

É neste ponto que há uma considerável convergência entre o papel da igreja e o do estado, como bem explicado por Francis J. Beckwith, que, em sua excelente explicação sobre o texto de Mateus 22.17-22, indica que tanto a missão da igreja quando à do estado é fazer o bem, mas evidentemente que cada um em sua esfera de atuação, conforme exposto abaixo:

“A interpretação mais dominante desta passagem é que Jesus está instruindo seu público que a igreja e o governo têm jurisdição sobre diferentes esferas de autoridade. Embora eu acredite que esta interpretação está em grande medida correta, os que a apresentam muitas vezes deixam passar sutis implicações políticas do que Jesus está dizendo. Primeiro, pergunta de quem é a imagem que está na moeda. A resposta obviamente é ‘de César’. Mas há uma pergunta não feita que precisa ser respondida: Quem tem em si a imagem de Deus? Se a moeda representa a autoridade de César, porque tem nela sua imagem, então nós, seres humanos, estamos sob a autoridade de Deus, porque temos em nós a sua imagem. Governos de boa qualidade preocupam-se com o bem-estar de seus cidadãos, e estes cidadãos acreditam corretamente que seu bem-estar é mais bem mantido por um governo justo que lhes proteja os direitos, inclusive o direito à liberdade religiosa. Portanto, o governo e a igreja, apesar de terem jurisdições distintas, partilham da obrigação comum de promover o bem daqueles que são feitos à imagem de Deus”. (3)

Destaca-se, portanto, que no atual contexto político em que o Brasil se encontra, o cristão é desafiado a viver de maneira a honrar a Deus e permanecer firme em sua fé, refl­etindo assim o caráter de Deus, cumprindo fidedignamente a sua missão que consiste em amar, evangelizar e fazer discípulos de Cristo.

O cristão e a polarização política

A política atual no Brasil tem sido marcada pela polarização que, conforme visto anteriormente, impõe desafios à igreja de Cristo, principalmente no que se refere às suas ações e reações neste contexto de desarmonia, desequilíbrio e dissensões.

Em um ambiente caracterizado pela disputa ideológica, na qual temas sensíveis de natureza social, ética e moral tornam-se quase que inevitavelmente parte das discussões, o cristão deve conhecer o seu lugar e os princípios que devem reger as suas ações e os seus posicionamentos. Ao escrever para Timóteo, o apóstolo Paulo afirmou que a igreja é “a coluna da verdade” (1 Timóteo 3.15), reafirmando, assim, o compromisso essencial a qual a igreja é convocada a ter com os princípios eternos da Palavra de Deus e, inquestionavelmente, em temas tão atuais como guerra, casamento entre pessoas do mesmo sexo, aborto, pornografia, pobreza, defesa do meio ambiente, pena de morte, educação e padrões morais. A igreja não só pode, mas deve se posicionar nessas questões, como bem defende o teólogo Wayne Grudem que, depois de elencar estes temas que têm promovido discussões e divisões na sociedade atual, oferece a seguinte contribuição acerca do papel da igreja frente a este cenário: “Em outras palavras, se os cristãos não se pronunciarem publicamente a respeito das questões éticas e morais que a nação enfrenta, quem o fará? Onde as pessoas aprenderão ética? Onde a nação aprenderá a distinguir entre certo e errado? Talvez nos filmes de Hollywood? Com os amigos no trabalho ou no bar da esquina? Com terapeutas e psicólogos? Com professores do ensino fundamental? Mas onde essas pessoas aprendem a distinguir entre certo e errado? [...] Esta é uma pergunta de suma importância para qualquer nação: se os cristãos se calarem a respeito de questões morais e éticas, de onde virão os padrões morais?” (4)

Em Cristo é demonstrado como Deus equilibra o Seu amor com a Sua justiça (João 3.16; Romanos 3.25,26; 5.8). Sendo assim, como filho de Deus e discípulo de Cristo, o cristão deve ser comprometido com a verdade da Palavra de Deus, tornando-a conhecida entre os homens, mas sem negligenciar o seu compromisso com o amor, conforme as palavras de Paulo: “Antes, seguindo a verdade em amor...” (Efésios 4.15).

Nesse sentido, o cristão deve pedir a Deus as devidas condições para manter equilibrado o seu compromisso com a verdade em paralelo com o de amar. No que concerne à postura equilibrada que se requer do cristão em um ambiente de polarização política, é preciso que haja clareza de seus deveres e de seus direitos, como cristão e cidadão comum, sem que um suprima e ou anule o outro. Uma contribuição relevante e segura neste ponto advém da Declaração de Fé das Assembleias de Deus no ponto em que trata “Sobre a Igreja e o Estado”, pois proporciona uma compreensão do limite a ser obedecido pela igreja em sua relação com assuntos políticos. O referido documento vaticina o seguinte:

“Deus constituiu autoridades para administrarem a vida em comunidade e exercerem juízos nas sociedades, pelo bem da coletividade: ‘Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus’ (Romanos 13.1). Com esse ensino, a Bíblia elimina a possibilidade de a Igreja desconsiderar as autoridades constituídas. O Estado é o povo politicamente organizado exercendo a soberania em um território. A Igreja do Senhor Jesus Cristo vive em sociedade e respeita o Estado, colaborando com as autoridades que o representam na preservação da ordem pública e na formação de cidadãos de caráter íntegro e honesto, produtivos e conscientes de que a autoridade ‘é ministro de Deus para teu bem’ (Romanos 13.4). Por outro lado, esses mesmos cidadãos são também conscientes de que a verdadeira pátria de um cristão está nos céus: ‘Mas a nossa cidade está nos céus’ (Filipenses 3.20), e de que são, por isso mesmo, cidadãos do Reino de Deus”. (5)

Nota-se, portanto, o desafio imposto ao cristão de conciliar a sua cidadania terrena com a celestial, o que no atual contexto político brasileiro fica ainda mais acentuado, já que a polarização característica deste tempo é motivada por temas de natureza moral, ética e espiritual, com relações diretas a valores bíblicos e doutrinários. Nesse caso, esta conciliação entre as duas cidadanias do cristão deve ser feita de tal forma que uma não suplante a outra, e isso só será possível à medida que se respeitar o que pode ser chamado de conceitos limites: I) obediência incondicional a Deus; II) compromisso irrestrito com a missão da igreja; III) busca constante da paz; IV) respeito genuíno com o semelhante.

O primeiro conceito firma-se no chamado que todo discípulo de Cristo tem de obedecer a Deus em quaisquer circunstâncias (Atos 5.29), enquanto o segundo firma-se na clara consciência que a igreja deve ter o dever de pregar o evangelho e fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28.19,20; Marcos 16.15), seguido da tarefa de buscar a paz com todos (Romanos 12.18; Hebreus 12.14); e, finalmente, há a ordem bíblica para que o crente apresente “com mansidão” a “razão” de sua “esperança”, sempre que indagado (1 Pedro 3.15). Em obediência a estes conceitos que servem como fronteiras, o cristão será capaz de encontrar portas abertas para cumprir a sua missão de proclamar e salvaguardar a verdade de Deus, sem criar barreiras diante dos homens e mantendo-se fiel a Deus, agradando-O em tudo.

Em seu excelente e necessário livro Entre a Fé e a Política, publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus, o pastor e teólogo Valmir Nascimento faz uma abordagem contundente, atual, objetiva e relevante sobre a relação do crente com a realidade política atual no Brasil, mais especificamente no processo eleitoral, ofertando meios pelos quais a igreja pode e deve se posicionar enquanto manifestação do Reino de Deus, de maneira a cumprir a sua missão, ainda que cumpra o seu papel como parte da sociedade civil. Dentro desta abordagem, o referido autor elucida três “princípios básicos da ética cristã para o mundo político” que, conjuntamente, servem de sinalizadores pelos quais o povo de Deus, por meio deles, pode trilhar com equilíbrio, relevância, eficácia e fidelidade no contexto político tão polarizado da atualidade, como se lê em suas palavras abaixo:

“Se a ética teísta-cristã possui legitimidade na esfera pública, de que maneira ela pode contribuir para a participação evangélica no processo eleitoral de modo adequado? A resposta a essa indagação encontra-se, primeiramente, na revisitação dos princípios éticos que, à luz da tradição teológica, caracterizam a fé evangélica, bem como na observação de certos limites que demarcam a fronteira moral do agir cristão no ambiente político. São três os princípios éticos que aqui tenho em mente: integridade individual, compromisso comunitário e respeito pela democracia. A integridade individual é o primeiro vetor da moralidade cristã, sem a qual é impossível construir uma sociedade justa e fraterna. [...] Em segundo lugar, a ética evangélica tem um sério compromisso comunitário, valor este que parte do pressuposto de que Deus criou o homem como um ser gregário, para a vida em sociedade. [...] Por fim, a ética cristã tem respeito pelo regime democrático e republicano. Afinal, em sua base, a democracia se origina idealmente do reconhecimento da igualdade e liberdade do ser humano, assim como do reconhecimento da sua limitação moral e falibilidade”. (6)

Ainda que a abordagem feita por Nascimento seja especificamente no contexto eleitoral, todavia os mesmos princípios aqui elencados se aplicam ao tema abordado nesta reflexão. Afinal de contas, as partes envolvidas são a vida do cristão e a política brasileira na atualidade. Conclui-se, portanto, que o cristão que deseja viver de maneira a agradar e a honrar a Deus no contexto político atual de polarização deve portar-se de tal forma a não negligenciar os valores éticos previstos nas Escrituras, bem como os valores inegociáveis da verdade de Deus, sem deixar de cumprir o papel de anunciar a Palavra de Deus com fidelidade, mas também sem ferir os seus semelhantes, utilizando-se de todos os meios do bom relacionamento, da paz – que não significa negociar a verdade – e, finalmente, convocando os homens a renderem-se a Deus que, por meio de Seu Filho, demonstra o Seu incondicional amor (João 3.16) e “quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2.4).

Notas

(1) Embora este seja um tema bem mais amplo e complexo, os de “direita” são aqueles considerados mais conservadores em pautas de costumes e liberais na economia, enquanto os de “esquerda” são os mais liberais nos costumes e nada liberais na economia, também conhecidos como “progressistas”.

(2) ANDRADE, Claudionor. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2022, p. 121.

(3) GEISLER, Norman L. e MEISTER, Chad V. Razões para Crer. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2013, pp. 135,136.

(4) GRUDEM, Wayne. Política Segundo a Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 98,

(5) SOARES, Esequias (org.). Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2025, p. 163,164.

(6) NASCIMENTO, Valmir. Entre a Fé a Política. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2024, p.14-144.

Referências bibliográficas

ANDRADE, Claudionor. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2022.

GEISLER, Norman L. e MEISTER, Chad V. Razões para Crer. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2013.

GRUDEM, Wayne. Política Segundo a Bíblia. Sªo Paulo: Vida Nova, 2014.

SOARES, Esequias (org.). Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2025.

NASCIMENTO, Valmir. Entre a Fé a Política. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2024.

SARTORI, Giovanni. Partidos e sistemas partidários. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

WEBER, Max. “A política como vocação”. In: WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5ª Ed., Rio de Janeiro: LTC, 2011.

por Elias Torralbo

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