Quando pensamos em glorificar a Deus, é comum imaginarmos imediatamente o culto, a oração, a pregação, o louvor e outras atividades realizadas no ambiente da igreja. Tudo isso, evidentemente, glorifica ao Senhor, quando procede de um coração sincero. Entretanto, a vida cristã não termina quando o culto acaba. O mesmo Deus que nos recebe no templo nos acompanha quando voltamos para casa, entramos numa sala de aula, abrimos uma oficina, assumimos um plantão, dirigimos um veículo, atendemos a um cliente, cuidamos de uma família ou exercemos qualquer trabalho digno.
A Bíblia não divide a existência do cristão em uma parte sagrada, pertencente a Deus, e outra parte comum, na qual Deus ficaria ausente. Paulo ensina: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Colossenses 3.23). Isso significa que uma atividade aparentemente simples pode tornar-se ocasião para glorificar a Deus. O valor espiritual de uma ocupação não depende apenas de onde ela é realizada, mas também de como e por que é realizada.
Moisés é um exemplo importante. Antes de ser o grande líder de Israel, foi ducado no Egito. Estêvão afirma que ele “foi instruído em toda a ciência dos egípcios” (Atos 7.22). Aquela formação não era sua missão definitiva, mas Deus pôde utilizar capacidades desenvolvidas ao longo de sua história. Liderar um povo numeroso, enfrentar autoridades, organizar a caminhada pelo deserto e transmitir instruções exigiam um homem preparado. O conhecimento adquirido não substituiu a revelação de Deus, mas pôde ser colocado a serviço dela.
José nos oferece outro exemplo ainda mais próximo da vida profissional. Levado para o Egito como escravo, ele serviu na casa de Potifar. Depois, injustamente lançado na prisão, recebeu responsabilidades entre os presos. Finalmente, foi elevado à administração do Egito. Os ambientes mudaram profundamente, mas algo permaneceu: José procurava agir com fidelidade. Na casa, na prisão ou no palácio, sua fé aparecia em seu modo de viver. Ele não glorificou a Deus somente quando interpretou sonhos; glorificou-O também quando administrou com responsabilidade aquilo que lhe foi confiado.
Daniel também viveu essa realidade. Ele foi levado para a Babilônia e recebeu formação para servir na estrutura administrativa daquele império. Aprendeu a língua e a literatura dos caldeus, conviveu com uma cultura diferente da sua e exerceu funções públicas. Contudo, não permitiu que a formação babilônica apagasse sua identidade espiritual. Daniel aprendeu o que precisava aprender, trabalhou com excelência e serviu em altas funções, mas estabeleceu limites quando as exigências do ambiente entraram em conflito com sua fidelidade a Deus.
Há ainda uma personagem bíblica cujo nome nem sequer conhecemos: a jovem israelita que servia à esposa de Naamã, comandante do exército sírio. Ela havia sido levada de sua terra e se encontrava numa condição socialmente pequena diante daquele poderoso general. Mesmo assim, possuía algo que o poder militar de Naamã não podia produzir: conhecia o Deus de Israel e sabia onde havia uma palavra de esperança. Foi ela quem disse à sua senhora que, se Naamã estivesse diante do profeta em Samaria, seria curado de sua lepra (2 Reis 5.1-3). Esse episódio mostra que não existem lugares insignificantes quando uma pessoa fiel está disposta a servir a Deus. Às vezes, pensamos que somente grandes posições produzem grandes oportunidades. A Bíblia mostra o contrário. Deus pode usar alguém numa residência, numa escola, num hospital, numa empresa, numa repartição, numa fazenda ou em qualquer ambiente onde a vida cotidiana acontece. A pergunta não é apenas “Qual é a minha profissão?”, mas também: “Como posso glorificar a Deus exatamente onde estou?”.
Para isso, porém, boa intenção não basta. Aqueles personagens possuíam uma referência espiritual capaz de orientar suas decisões. O cristão de hoje também necessita de sólida formação nas Sagradas Escrituras. Vivemos cercados por ideias, valores e comportamentos diferentes. Sem conhecimento bíblico, corremos o risco de possuir excelente formação profissional e, ao mesmo tempo, pouca capacidade de discernir como agir cristãmente dentro da própria profissão.
A Palavra de Deus forma a consciência. Ela ensina que o próximo possui dignidade, que a mentira não deve ser instrumento de vantagem, que a justiça vale mais que o lucro desonesto, que o poder deve ser exercido com responsabilidade e que nossas capacidades devem servir também ao bem dos outros. A Bíblia não é um manual técnico de medicina, engenharia, direito, administração ou educação; ela oferece princípios que orientam o médico, o engenheiro, o advogado, o administrador, o professor e todo cristão no uso moral e espiritual de seu conhecimento.
Também precisamos compreender que glorificar a Deus na profissão não significa transformar cada momento do expediente em uma pregação. Há ocasiões apropriadas para falar explicitamente de Cristo, e o cristão deve estar preparado para elas. Mas existe igualmente o testemunho da conduta. Fazer bem o trabalho contratado, cumprir a palavra, rejeitar a corrupção, tratar subordinados com dignidade, não explorar a fragilidade de ninguém, reconhecer erros, agir com misericórdia e oferecer ajuda são maneiras concretas de tornar visíveis os valores que professamos.
Nesse sentido, profissão e vocação se encontram no serviço. Nem todos exercerão a mesma ocupação durante toda a vida, e nem sempre a profissão de uma pessoa corresponderá ao trabalho que ela sonhou realizar. José não escolheu a casa de Potifar nem a prisão. A jovem israelita não escolheu servir na Síria. Mesmo assim, ambos descobriram que circunstâncias difíceis não impedem necessariamente uma vida útil diante de Deus. Podemos não escolher todos os lugares pelos quais passamos, mas podemos escolher a maneira como nos conduzimos neles.
Jesus declarou em sua oração: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17.3). Conhecer a Deus, portanto, não é possuir apenas informação religiosa; é entrar numa relação que transforma a existência. Quem conhece a Deus é chamado a manifestar os frutos desse conhecimento no modo como estuda, trabalha, lidera, obedece, administra, ensina, vende, compra, cuida e serve.
Talvez uma das maiores necessidades do nosso tempo seja recuperar essa visão integral da vida cristã. Precisamos de crentes no templo, mas também de crentes conscientes de sua missão fora dele. Precisamos de pregadores fiéis, mas também de professores fiéis, empresários fiéis, trabalhadores fiéis, estudantes fiéis e servidores públicos fiéis. O mundo encontra muitos cristãos durante a semana que jamais encontrará num culto. Para algumas pessoas, o primeiro contato sério com os valores do Evangelho poderá acontecer através da conduta de um colega de trabalho.
Glorificar a Deus nas ocupações diárias é compreender que a segunda-feira também pertence ao Senhor. É levar para o trabalho a mesma fé confessada no domingo. É fazer da competência uma forma de serviço, da integridade uma forma de testemunho e das oportunidades uma forma de missão. Quando conhecimento profissional, caráter cristão e formação bíblica caminham juntos, nossas mãos podem realizar tarefas comuns enquanto nossa vida aponta para uma realidade maior: tudo o que somos, sabemos e fazemos pode ser colocado a serviço da glória de Deus.
por Francisco Gonçalves
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