Antes de responder a essa pergunta é necessário entender que cada escritor bíblico precisa ser lido nos seus próprios termos. Nem sempre o mesmo assunto é discutido da mesma forma em dois autores bíblicos diferentes. Esse é o caso do falar em línguas, conhecido também pela expressão grega glossolalia. Apenas o apóstolo Paulo e o evangelista Lucas falam da glossolalia no Novo Testamento. Será que Lucas, que é o autor de Atos dos Apóstolos, e Paulo, o autor da Primeira Carta aos Coríntios, queriam dizer a mesma coisa quando falavam da glossolalia? Ora, várias evidências textuais apontam para uma resposta negativa.
A natureza do falar em línguas em Atos dos Apóstolos e em 1
Coríntios são claramente diferenciadas e,
naturalmente, complementares, embora sejam da mesma substância. Em Lucas, a glossolalia
é o sinal de um enchimento Pneumatológico de efeito missiológico. Ou seja,
Jesus Cristo reveste o homem do Espírito Santo, no processo também conhecido
como Batismo no Espírito, para que ele saia ao mundo proclamando o Evangelho
com uma força e ousadia não naturais (cf. Atos 1.8; 2.1-4; 10.44-48; 19.6). Em
Paulo, por outro lado, a glossolalia não é missiológica. O apóstolo
destaca que o falar é línguas é um dom comunitário quando interpretado e,
também, quando exercido na vida devocional, a glossolalia auxilia vocalmente a
oração (1 Coríntios 14.2, 4, 5-19,
22, 27).
Neste sentido, uma coisa é falar em línguas como sinal do
enchimento do Espírito e outro, diferente, é ter o dom de línguas que envolve a
variedade (cf. 1 Coríntios 12.10).
Por sinal, ou evidência, não se
espera que essa língua seja contínua. Mas o dom de variedade, isso sim,
acompanha o portador. O motivo? O propósito diferenciado. No primeiro caso a
língua evidencia outra experiência: o enchimento do Espírito para a ação
missionária. No segundo caso, a variedade de línguas pode ora servir como
profecia para a edificação comunitária ora como oração para edificação
individual. Em nenhum momento Lucas menciona a variedade de línguas em um
falante, apenas Paulo.
Vejamos outras diferenças: A glossolalia de Atos dos
capítulos 2, 8, 10 e 19 envolveu todo o grupo presente, enquanto o dom de
línguas era a posse de alguns indivíduos em Corinto. Quando Paulo pergunta em 1
Coríntios 12.30 se “falam todas diversas línguas” ele,
naturalmente, tem em mente uma resposta negativa. Isso contrasta com “todos”
que falaram em línguas no Pentecostes e em Cesárea (Atos 2.4; 10.44), e está
implícito que todos foram usados em glossolalia na cidade de Samaria e Éfeso (8.16,17;
19.6,7). Outro ponto importante: a glossolalia em Atos não requer
intérprete. As línguas estrangeiras são claramente reconhecidas (xenolalia)
e a mensagem era de louvor a Deus (Atos 2.11; 10.46; 11.15). Já em Coríntios, o exercício público do dom de línguas depende da presença
de um intérprete (1 Coríntios 14.28)
e sua mensagem é claramente profética (1 Coríntios 14.5).
Uma semelhança importante entre Paulo e Lucas é que para
ambos a língua é inteligível, ou seja, não é fruto de êxtase. Outro ponto é que
a língua serve como um sinal para o público incrédulo (Atos 2.4,5), pois
desperta a consciência do homem pagão para o sobrenatural e também para a sua
alienação de Deus (Atos 2.6–8,12).
A resposta zombeteira da audiência demonstra que o fenômeno desperta o
incrédulo a uma resposta (2.13; compare com 1 Coríntios 14.23).
Portanto, para concluir, Lucas enfatiza a glossolalia
como sinal do enchimento do Espírito. O ponto central dessa glossolalia
não é a sua mensagem, mas sobre o que ela aponta: a missão impulsionada pelo
Espírito. Enquanto que em Paulo, a glossolalia é um dom, o dom de variedade de
línguas, que deve ser usado na congregação quando interpretado, funcionando
como uma profecia, e na oração devocional para edificação individual.
por Gutierres Fernandes Siqueira
Compartilhe este artigo. Obrigado.

إرسال تعليق
Seu comentário é muito importante