A tradução da Bíblia

A tradução da Bíblia


O processo de tradução da Bíblia, os tipos de tradução e a atualização do Texto Sagrado

Em aulas que pude ministrar há alguns anos, tive a oportunidade de me deparar com alguns alunos que, por terem lido algum texto crítico cujo teor sugeria estar determinado versículo da Bíblia traduzido de forma equivocada, chegavam em sala de aula decididos a dizer que o texto que estavam analisando havia sido traduzido realmente de forma errada. Esses alunos, por geralmente desconhecerem a língua original do texto, o que é o processo de tradução e os desafios dele advindos, expressavam de forma exaltada a “certeza” de que um ou outro texto na Bíblia poderiam ter sido traduzidos de um jeito melhor. E se um texto foi traduzido sem a devida perícia exigida para a atividade, o sentido e a interpretação atreladas àquele texto não corresponderiam ao sentido pretendido pelo autor, o que traria, igualmente, a possibilidade de interpretação, aplicação e práticas do texto estarem equivocadas.

Quando falamos sobre a Palavra de Deus, temos a certeza de que ela é a verdade eterna revelada pelo próprio Deus. Essa verdade revelada por Ele mesmo veio por meio da inspiração entregue a homens que, obedientes, se encarregaram se escrevê-la e de preservá-la de forma escrita e impressa para as gerações posteriores. Essa revelação nos mostra a origem da humanidade, criada sem pecado; a sua desobediência para com as orientações de Deus e o seu afastamento do Senhor. Também mostra o plano da salvação e de como Deus se utilizou de homens e mulheres para que o Seu plano se completasse.

No desenrolar desse plano, os homens, após o Dilúvio, decidiram que, ao invés de se espalharem sobre a Terra e a dominarem, como orientou o Eterno em Gênesis 1.28, seria melhor se concentrarem em uma localidade, um vale na terra de Sinar, na Mesopotâmia, e ali se fortalecerem como civilização. Sua perspectiva era fazerem uma cidade e uma torre bem alta, para que fossem lembrados e “para que não sejamos espalhados sobre a face da terra” (Gênesis 11.4). Como houvesse a insistência desses homens em não cumprirem o mandamento do Senhor, Ele confundiu a língua que eles falavam, de tal forma que, por falta de entendimento entre os homens, “o Senhor os espalhou dali sobre a face da terra” (Gênesis 11.8).

Assim começa o grande desafio da comunicação entre os homens. Não se sabe em quantas línguas Deus separou os homens, mas se sabe que a humanidade passou a ter um grande desafio, dentre tantos: o de se comunicar e de se entender, de tal forma que houvesse uma mensagem compreensível para as pessoas que falam línguas diferentes.

Ocorre que a revelação escrita e preservada ao longo dos séculos foi realizada em hebraico, aramaico e grego, línguas das quais não somos falantes originais. Mesmo não tendo sido alfabetizados nessas línguas, entendemos que elas podem ser aprendidas, e se devidamente compreendidas, trazem o entendimento da mensagem sagrada para outras línguas por meio de um processo chamado tradução. Esse processo nos ajuda a transpor a mensagem e o seu significado para os nossos dias, trazendo o devido entendimento e a prática esperada pelo Eterno.

O que é a tradução?

Definindo de forma simples, a tradução é o ato de compreender e de verter o conteúdo de um texto ou fala de uma língua não materna para a língua materna. Esa definição abarca o exercício atribuído a qualquer texto ou discurso, falado ou escrito. Enquanto a tradução é o ato de verter um texto de uma língua para outra, a interpretação é a tradução do discurso oral. Nos dois casos a compreensão da língua a ser traduzida é necessária tanto quanto o ato de verter com primor o seu significado para outra língua.

Raymond Eliot comenta que “Todas as traduções, inclusive a da Bíblia, envolvem ao menos duas línguas” (A Origem da Bíblia, CPAD, pg. 321). Portanto, a ideia de tradução passa inicialmente pelo conhecimento de duas línguas distintas.

Destacamos que a tradução não é o ato de trocar palavras de uma língua por palavras de outra língua. Tal exercício não traz necessariamente uma decodificação da mensagem para o leitor ou ouvinte final. Palavras se juntam em um texto ou discurso, e apresentam sentido quando conectadas de forma correta, e essa mesma conexão precisa ser vista tanto na língua não materna quanto na língua materna, para a qual está sendo traduzida a mensagem. É uma atividade que envolve o exercício cognitivo que transpõe não apenas as línguas, mas também as culturas. Não é sem motivo que nos é dito que Daniel e seus amigos deveriam aprender “a cultura e a língua dos caldeus” (Daniel 1.4). Língua e cultura andam juntas.

O processo de tradução começa com o conhecimento da própria língua materna

Antes mesmo que se tenha em mente o conceito de tradução, é preciso entender que o ato de transpor um texto passa, primeiramente, pelo conhecimento da língua materna do tradutor ou do leitor. É impensável que um tradutor tenha pouco conhecimento da língua materna. A habilidade de lidar com a própria linguagem pátria é um requisito aos que desejam adentrar na atividade da tradução. De nada adianta conhecer a língua estrangeira se não puder verter para a sua própria língua o conteúdo a ser expresso. A tradução é um exercício que exige do tradutor a capacidade de comunicar o conteúdo de forma agradável e inteligente para o leitor final, e por isso, ele precisa ter habilidade com a sua própria língua. É possível que uma pessoa seja hábil numa língua estrangeira sem ter o mesmo nível de habilidade com a sua própria língua, o que a tornaria inapta para um trabalho sério de tradução, a menos que se prepare de forma extensiva para tal atividade e adquira a perícia necessária para tal feito.

O processo de tradução passa pelo conhecimento da língua que se quer verter para a língua materna

Não basta ao tradutor ter conhecimento da língua em cuja cultura nasceu. Ele precisa dominar a língua cujo sentido deseja transpor. Esse processo envolve anos de estudos, e geralmente, convivência com pessoas que frequentaram a outra cultura, e dependendo da disponibilidade financeira, até a vivência no país da língua que se pretende dominar.

A tradução de um texto sagrado envolve muito mais do que a simples transposição de palavras que são dispostas de forma sequencial, formando frases, parágrafos e textos maiores. Envolve o entendimento do texto, com suas nuances linguísticas, os locais em que os textos foram produzidos e a observância do contexto histórico e geográfico. A tradução do texto sagrado também é mais do que um serviço mecânico de compreensão de duas línguas, pois se relaciona com a fé, um elemento comum a milhões de pessoas.

O processo de tradução precisa levar em conta a linguagem que será recepcionada pelo leitor final

A tradução das Escrituras precisa atentar para o tipo de leitor que se deseja alcançar. O pastor Esequias Soares comenta que “A vontade de Deus é que todas as pessoas o conheçam. A Bíblia é a revelação escrita do caráter de Deus e do seu propósito para a humanidade. Por isso há a necessidade de que o texto bíblico seja compreensível a qualquer pessoa. Lutero dizia que a linguagem da Bíblia deve ser a mesma de uma mãe para o filho. Com essa preocupação, traduziu o livro sagrado para o alemão, o Novo Testamento foi publicado 1522 e a Bíblia completa em 1534. A sua tradução não foi a primeira na língua alemã, sua inovação está na linguagem, pois usou a língua do povo para tornar a mensagem da Bíblia de fácil compreensão.” Dessa forma, é necessário que o trabalho seja feito com sensibilidade linguística, pensando sempre no leitor final, sem jamais desrespeitar o sentido e a integridade da Palavra de Deus.

O processo de tradução leva em conta o conhecimento da gramática das duas línguas em análise

Estava em uma aula onde um aluno não pentecostal acusou pentecostais de falarem em línguas não a Deus, mas a “um deus”. O argumento desse moço era que 1ª Coríntios 14.2 não trazia o artigo definido para se referir a Deus, e na ausência do artigo definido, se inferia o artigo indefinido “um”, trazendo uma incerteza sobre a prática do falar em línguas.

O equívoco desse aluno foi a falta de observância da gramática das línguas grega e portuguesa. Em que pese existir a regra de se inferir um artigo indefinido quando o texto não traz o artigo definido, ela não é absoluta. A palavra Deus, nesse texto, aparece no caso dativo, correspondente ao objeto indireto em português. O caso dativo, do grego, segundo o Pr. Esequias Soares, pergunta: “A quem ou para quem ou que se dirige a ação verbal?”

A língua portuguesa delimita que o objeto indireto é um complemento verbal acompanhado geralmente por uma preposição, uma palavra invariável que liga dois elementos de uma frase, e que pode ser “a”, “para” ou “com”. Portanto, “o que fala em língua estranha não fala aos homens, senão a Deus” é uma tradução válida e correta, pois respeita as normas gramaticais e sintáticas do grego e do português. A gramática não pode estar ausente desse tipo de exercício.

Traduzir não é colocar as palavras na ordem em que elas aparecem no texto original

A língua portuguesa tem por orientação frasal a ordem sujeito + verbo + complemento: Jesus (Sujeito) salva (Verbo) o pecador (Complemento) é uma frase que nos serve de exemplo.

Feita essa observação, é preciso notar que outras línguas não são obrigadas a seguir os nossos critérios. Cada língua, viva ou “morta”, tem sua própria estrutura, e essa peculiaridade deve ser observada pelo tradutor. Vejamos, como exemplo, o texto de 1º Coríntios 13.1, utilizando uma tradução livre e observando exatamente a ordem de como as palavras aparecem no texto grego:

Observemos que a língua grega não segue a ordem dos elementos da língua portuguesa. Nesse caso, portanto, é coerente e adequado trazer para a nossa língua uma ordem de colocação de palavras que mostre ao leitor uma coerência no discurso, sem que seja alterada a mensagem.

Nas versões ARC, NVI, NAA e NVT o texto é assim colocado:

ARC - “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”.

NVI - “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine”.

NAA - “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine”.

NVT - “Se eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um sino que ressoa ou um címbalo que retine”.

Há uma grande diferença ente a forma como as palavras aparecem no texto grego e como aparecem em português, mostrando que traduzir um texto não é colocar as palavras na ordem em que elas aparecem sempre. Como visto no exemplo acima, a proposta é trazer sentido ao texto, e para isso é necessário que se a estrutura linguística e gramatical da língua materna seja a base final para a tradução que está sendo feita.

As Traduções Literal e a de Significado

A tradução literal é a que é feita ao pé da letra, palavra por palavra, de forma sequencial. Neste modelo, a importância é dada à literalidade do texto. Por mais que seja o tipo de tradução mais “exata”, ela pode deixar a desejar se o sentido não puder ser entendido pelo leitor final, pois se baseia na forma que é apresentada na língua que está sendo traduzida. A tradução palavra por palavra não é uma garantia de que a mensagem será entendida na sua completude.

A tradução baseada no significado tem por objetivo comunicar o sentido da mensagem, respeitando a sua exatidão; tal respeito pode eventualmente não seguir a ordem exata em que as palavras são apresentadas na língua original. Acredito que a melhor tradução é a que conjuga a literalidade do texto com a expressão exata do sentido pretendido pelo autor original.

Atualizações no Texto Sagrado

Trazidas essas considerações, devemos notar que toda língua falada é um sistema vivo, que tende a colocar em desuso palavras tidas por obsoletas, e agregar novas palavras ao vocabulário, seja por aquisição de expressões de outras línguas, seja por neologismos e hibridismo, todos fenômenos linguísticos. Palavras como bege, bijuteria, boxe, CD, pendrive, deletar e startar foram anexadas à nossa língua.

Há palavras na Bíblia que com o passar do tempo deixaram se der usadas, e nesse caso, para as novas gerações, existe o processo de atualização do texto sagrado, no aspecto linguístico. Não é errado atualizar a tradução do texto sagrado, desde que o sentido permaneça o mesmo. E quando tratamos dessa atualização, não estamos dizendo de se modificar o texto sagrado e o seu sentido a fim de adequá-lo às pressões que o mundo faz para rejeitar a mensagem do evangelho. Uma coisa é atualizar linguística e ortograficamente uma palavra ou uma frase, mantendo o seu sentido e preservando a mensagem que o autor original pretendia transmitir aos seus leitores; outra coisa é buscar uma nova forma de sentido para as palavras a fim de trocar a mensagem pretendida pelo autor, e adaptá-las para satisfazer as pressões da sociedade.

O Pr. Esequias Soares comenta que “a língua se modifica com o passar do tempo e por isso há necessidade na Bíblia de atualizar a linguagem sem alterar a mensagem. As ‘Sociedades Bíblicas Unidas recomendam que, a cada 25 anos, se faça uma revisão de uma tradução da Bíblia’. A liderança das igrejas evangélicas tem sentido a necessidade de um texto bíblico numa linguagem simples e de fácil compreensão, fiel às línguas originais da Bíblia, hebraico, aramaico e grego”

Na versão ARC de 1995, no texto de 1ª Coríntios a palavra ἀγάπην (agápen) aparece como “caridade”. Com o passar dos anos, o sentido dessa expressão foi se tornando distante do entendimento dos nossos dias. O Dicionário Michaelis, analisando a etimologia dessa expressão, remonta à palavra latina caritas, traz a ideia de “amor ao próximo, que consiste em ajudar os desvalidos; compaixão em relação a alguém que se encontra em situação difícil”;

A ARC de 2009, (4ª Edição) já substituiu a expressão “caridade” por “amor”. Em termos práticos, foi uma atualização justa e acertada, e que não mudou o sentido da mensagem do apóstolo Paulo aos Coríntios. Além do mais, trazendo para os nossos dias, imaginemos um homem que se casa com uma mulher, e na leitura dos votos, ele diz a ela que está se casando por caridade... o sentido seria entendido como se ele estivesse se casando por amor?

Novas iniciativas de traduções da Bíblia em Português no Brasil vem ganhando espaço, como também a atualização linguística de versões já consagradas, como a Almeida Revista e Corrigida de 2009, que passou pela nova ortografia e substituiu o verbete caridade por amor, sentido mais adequado aos nossos dias.

A Almeida Revista e Corrigida

A ARC é a versão adotada pelas Assembleias de Deus como padrão, desde a sua publicação pela SBB em 1959. Antes da ARC, era utilizada a Tradução Brasileira, lançada em 1917.

A edição de 2009 trouxe diversas substituições de palavras. Note-se que as Assembleias de Deus no Brasil não se posicionaram como contrárias a que seus membros pudessem ler ou fazer estudos comparativos da Bíblia em outras versões.

A Nova Almeida Atualizada

A Nova Almeida Atualizada é o trabalho de atualização da Versão Almeida Atualizada, “... preferida das denominações evangélicas históricas e de grande parte das denominações neopentecostais. Essa versão busca corrigir cacofonias, mesóclises para os novos leitores.

A Nova Versão Internacional

“A Nova Versão Internacional (NVI) é uma realização da Sociedade Bíblica Internacional, com sede em Colorado Springs, Colorado, EUA, entidade evangélica que promove e patrocina projetos de tradução da Bíblia em todo o mundo. “O alvo da NVI é comunicar a Palavra de Deus ao leitor moderno com a mesma clareza e impacto que teve o texto bíblico original entre os primeiros leitores”.

A Nova Versão Transformadora

A NVT teve por filosofia o uso do texto massorético do Antigo Testamento e o texto grego da Sociedade Bíblica Unida. Fez a substituição de palavras que representam pesos e medidas, buscando a facilidade do entendimento na hora da leitura.

Concluo com a seguinte observação: “A Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo. O tradutor tem a tremenda responsabilidade de não modificar o significado. Deve ter o cuidado de não acrescentar nada ao significado, nem omitir nenhuma parte do significado”.

Portanto, antes de criticarmos algum texto que acreditamos estar traduzido de forma não exata, é preciso ver se temos o devido conhecimento das estruturas linguísticas envolvidas em todo o processo, respeitando também o hercúleo trabalho realizado por pessoas que nos antecederam, e que deram o seu melhor para que tivéssemos em mãos a Palavra de Deus.

Referências

José Pinheiro Soares. Teorias da Tradução: Uma Visão revisitada. Revista de Letras da Universidade Federal do Ceará. 1998.

Esequias Soares da Silva. Reunião dos Conselhos de Doutrina, Educação e Cultura e da Comissão de Apologética da CGADB. Campinas, 2018.

Philip Wesley Comfort. A Origem da Bíblia, CPAD. 1998.

Introdução à Nova Versão Internacional (NVI). Bíblia A Rocha, 2002.

Esequias Soares. Aprenda o Grego do Novo Testamento. CPAD.

Katharine Barnwell. Tradução Bíblica – Um curso introdutório aos princípios básicos de tradução. Sociedade Bíblica do Brasil.

https://biblehub.com/whdc/1_corinthians/13.htm. Consultado em 25/09/2022.

por Alexandre Coelho

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