Este artigo é a continuação do texto publicado na edição de agosto desta seção.
(IV) Eleição Condicional (No acrônimo FACTS, o “C” de Condicional
Eleição)
Como já observado, a Bíblia Sagrada dispõe de dois termos e suas derivações que revelam a escolha que Deus realiza em Sua soberania. A primeira expressão é a eleição (saber antes) e a segunda é a predestinação (determinar antes). (1)
Estes vocábulos podem ser explicados do seguinte modo: “por
meio da presciência divina, Deus sabe, desde a eternidade, quais indivíduos
creriam e perseverariam na fé e a essas pessoas Deus elegeu”, (2) e, por elegê-los,
também os predestinou. (3) Mas, isto não significa que Deus tenha eleito uns
para a salvação e outros para condenação, porque Ele “quer que todos os homens
se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2.4). A doutrina bíblica
da eleição sinaliza que foi o próprio Deus quem estabeleceu as condições para
ser eleito. A condição mais elementar é estar em Cristo (Efésios 1.1-4). E para
estar em Cristo é preciso ter fé (Efésios 3.17) e arrepender-se de seus pecados
(Atos 2.38). Porém, nenhuma destas condições é meritória e nenhum homem pode
cumpri-las sem o auxílio e a capacitação divina.
Ressalta-se que o fundamento bíblico da doutrina da eleição
é Cristo Jesus e, assim, tanto a eleição de Israel quanto a eleição da Igreja têm
início com a eleição do Messias (1 Pedro 2.4-6). Primeiro, Deus elegeu Cristo
para ser o Salvador; em seguida, elegeu um povo por meio do qual o Messias
viria (Gênesis 12.1-3), da sua descendência haveria de nascer o Emanuel. (4) Todavia,
a eleição dessa nação não estabeleceu para esse povo garantia de salvação, pois
asseveram as Escrituras que nem todos os Israelitas serão salvos (Romanos 9.6).
Da mesma maneira, ocorreu a eleição da Igreja, pois, mediante a escolha de
Israel, veio o Salvador e, por meio de Sua obra salvífica, a Igreja foi eleita
“antes da fundação do mundo” (Efésios 1.4).
É significativo notar que Deus não elegeu uma nação já
existente, mas criou uma nova a partir de Abraão, e o Senhor Jesus Cristo, da
mesma forma, criou um novo povo – a Igreja – formado por judeus e gentios (Efésios
2.14). Portanto, tanto a eleição de Israel como a da Igreja é corporativa, isto
é, Deus escolheu um corpo, um grupo, mas não escolheu individualmente quem
faria parte desse povo.
(V) Perseverança dos Santos (No FACTS, o “S” de Segurança
em Cristo)
O quinto e último ponto do acrônimo FACTS diz respeito à
convicção e a esperança que todo cristão deve ter e almejar acerca da vida
eterna com Cristo Jesus. Reconhece-se que a salvação é um dom gratuito do
Senhor, porém rechaça-se a afirmativa que “uma vez salvo, salvo para sempre”.
Haja vista que o sacrifício vicário de Jesus Cristo não foi realizado
de qualquer maneira. Ao contrário disso, o suplício da cruz do calvário
requereu o sangue do Filho de Deus e, por meio dele, devemos viver em santidade
(Hebreus 10.10; 12.14). Assim sendo, a expiação somente tem aplicação aos
santos que permanecem fiéis, pois foi o próprio Jesus quem asseverou que
“aquele que perseverar até ao fim será salvo” (Mateus 24.13).
Os remonstrantes, fundamentados nas Sagradas Escrituras,
lecionaram que, mediante o mau uso do livre arbítrio restaurado, o cristão pode
apostatar da fé e perder a salvação (Hebreus 6.4-6). Por isso, o cristão, ao
alcançar a dádiva da salvação imerecida, tem que se esmerar em andar no caminho
justo (Hebreus 3.12), a fim de não se perder temporariamente (Lucas 15.32) ou
eternamente (João 17.12).
Por outro lado, sabemos que, por ser uma ação do Espírito Santo,
a salvação não depende exclusivamente do ser humano, e desse modo fica
constatado que “se a salvação dependesse de nós, então poderíamos perdê-la
muito facilmente”. (5)
Mariano (2015, p. 55) destaca que “os verdadeiros crentes podem
cair da verdadeira fé e podem cair em pecados que não são condizentes com a fé verdadeira
e justificante. Isto não é somente possível acontecer, mas ainda acontece com frequência”.
(6) Em consequência, embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos, uma
vez adquirida, deve ser zelada e confirmada. (7)
IV. REMONSTRÂNCIA E O SÍNODO DE DORT
1. Contexto histórico do sínodo
O Sínodo de Dort (ou Sínodo de Dordrecht) foi uma assembleia
eclesiástica realizada entre 13 de novembro de 1618 e 29 de maio de 1619, na
cidade de Dordrecht, nos Países Baixos. Foram aproximadamente 180 sessões ao
longo de sete meses. O evento foi convocado para resolver a controvérsia
teológica gerada pelos ensinamentos de Armínio (1560-1609) e seus seguidores,
conhecidos como remonstrantes. A principal razão para o sínodo foi a disputa entre
calvinistas e armenianos sobre a doutrina da salvação. O calvinismo, baseado na
teologia de João Calvino (1509-1564), enfatizava a predestinação incondicional,
enquanto os armenianos defendiam que Deus oferece graça a todos, e que a
resposta humana tem papel na salvação. (8)
Após a morte de Armínio, seus discípulos apresentaram um
documento em 1610, chamado “Remonstrância”, onde expunham sua visão teológica em
cinco pontos. Isso gerou forte reação dos calvinistas, que organizaram o sínodo
para rechaçar as teses armenianas e reafirmar a ortodoxia reformada.
2. A farsa do julgamento
O Sínodo de Dort foi amplamente controlado pelos calvinistas,
o que resultou em um julgamento unilateral contra os arminianos. O sínodo foi
presidido por calvinistas e teve a participação de delegados calvinistas de
diversas nações (Inglaterra, Suíça, Alemanha e França), enquanto os armenianos
não tiveram representação equivalente. Os remonstrantes foram convocados a
comparecer diante do sínodo, mas não tiveram liberdade para apresentar sua
defesa plenamente. Eles eram frequentemente interrompidos ao tentarem expor seus
argumentos. Antes mesmo do término do sínodo, já havia a decisão de condenar os
remonstrantes.
O presidente do Sínodo era Johannes Bogerman (1576-1637), um
teólogo e pastor reformado holandês fortemente alinhado com a tradição da
Confissão Belga (1561), um dos principais documentos reformados dos Países
Baixos influenciado pelas ideias de Calvino. Bogerman via os remonstrantes
(arminianos) como uma ameaça à pureza doutrinária da igreja reformada
holandesa.
Sua intransigência e hostilidade contra os armenianos no Sínodo
garantiu que as decisões fossem inteiramente favoráveis ao calvinismo e hostis
ao arminianismo. Essa postura mostra que o sínodo não foi um julgamento
imparcial, mas um tribunal dominado por calvinistas, onde os armenianos não tiveram
direito à ampla defesa. Após a condenação, os principais líderes armenianos
foram exilados, presos ou destituídos de seus cargos eclesiásticos. Simão Episcópio,
um dos principais teólogos armenianos, foi expulso e teve que buscar refúgio no
exterior. Alguns remonstrantes fugiram para países mais tolerantes, como a
Inglaterra. (9)
3. O impacto do arminianismo no mundo
Apesar da tentativa de supressão no Sínodo de Dort, o arminianismo
não desapareceu. Pelo contrário, tornou-se uma das teologias predominantes no cristianismo
evangélico global. As igrejas metodistas, fundadas por John Wesley (1703-1791),
professam a tradição armeniana, enfatizando a graça preveniente e a
santificação. Os batistas livres e a maioria esmagadora das igrejas
pentecostais, incluindo as Assembleias de Deus (1910), aderem à teologia armeniana.
Por conseguinte, o arminianismo permanece dominante entre os evangélicos em
todo o mundo, representando mais de 80% dos cristãos, principalmente devido à
influência do pentecostalismo e do metodismo.
Considerações Finais
A soteriologia sob a ótica pentecostal baseia-se nas Escrituras
Sagradas, seguindo uma interpretação próxima a que foi apoiada pela maioria dos
Pais da Igreja e, durante a Reforma Protestante, defendida por Jacó Armínio,
além de um considerável número dos primeiros reformadores do século XVI. Esse
entendimento corresponde à visão da maioria dos cristãos hoje, além de ser a interpretação
do pentecostalismo clássico: Cristo morreu por todos os pecadores; Deus nos
elegeu desde a eternidade, antes da fundação do mundo, segundo a Sua
presciência; os eleitos foram predestinados a receber a filiação divina e todas
as bênçãos espirituais; a predestinação diz respeito apenas à salvação, sendo
condicionada à fé em Cristo Jesus; o pecado afetou o livre-arbítrio humano que
somente pode ser ativado em direção a Deus por meio da graça divina; a salvação
é oferecida gratuitamente e, uma vez adquirida, deve ser zelada.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) TITILLO, Thiago. Eleição Condicional. São Paulo:
Reflexão, 2015, p. 19.
(2) ARMÍNIO,
2015, vol. 1, p. 227.
(3) SHANK,
Robert. Eleitos no Filho: um estudo sobre a doutrina da eleição. São Paulo:
Reflexão, 2015, p. 163.
(4) TITILLO, 2015, p. 33.
(5) DANIEL, 2017, p. 459.
(6) MARIANO, 2015, p. 55.
(7) CGADB, 2017, p. 114.
(8) KUYPER, Abraham. O Sínodo de Dort e suas Lições para
Hoje. Cultura Cristã, 2018.
(9) COUTINHO. Samuel Paulo. Sínodo de Dort, a história: a
política por trás do Sínodo de Dort. eBook Kindle, 2024.
por Douglas Roberto de Almeida Baptista
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