“Gênesis 4.15 diz que Deus pôs ‘um sinal em Cain para que não o ferisse qual quer que o achasse’, Que sinal é esse?”
Suponho que o leitor já conheça a narrativa bíblica a respeito do fratricídio e sabe que o “sinal” foi para proteger Caim em vez de condená-lo (v.15). O sinal, no hebraico ’ôth (semeion na LXX), é usado no Antigo Testamento mais frequentemente como um termo teológico para descrever “sinais pactuais”, como os concertos noético (Gênesis 9.12-17) e abraâmico (Gênesis17.11), ou “sinais milagrosos”, como as pragas (Êxodo 4.8). Nalgumas vezes possui sentido comum (Gênesis 1.14; Números 2.2), mas seu uso predominante é teológico. O “sinal de proteção” continuará como tema recorrente na Escritura, como por exemplo: (a) o sangue nos umbrais das portas (Êxodo 12.13); (b) à marca na testa (Ezequiel 9.4); e (c) o selo na testa dos 144.000 (Apocalipse 7.3). Na Antiguidade o sinal/selo sobre alguém ou objeto designava a coisa selada como propriedade de alguém e, portanto, intocável por outros (Cantares 4.12; 8.6; Daniel 6.18; 12.4; Efásios1.13). Assim, o sinal de Javé expressa propriedade, proteção e segurança contra assassinato.
Assente o conceito teológico de ’ôth, sinal, passemos
para sua interpretação concreta. O que era o sinal? Na história da interpretação
da perícope, diversas posições foram adotadas. Comecemos pelo livro apócrifo “O
Primeiro Livro de Adão e Eva”. No capítulo 79.18-25 diz que o sinal era tremer e
sacudir ininterruptamente. Em suma, outras posições adotadas por diversas
escolas foram: cor negra, tatuagem e alguma forma de sinal sobre Caim.
Não é necessário perder tempo com a primeira posição, visto que
a origem da cor negra segundo o literato estaria ligada aos descendentes de
Noé. A segunda seria um tipo de marca na testa de Caim que o identificaria como
protegido por Javé e ao mesmo tempo traria sobre si a ignomínia e a culpa de
seu pecado. A Bíblia nunca disse que o sinal estava sobre a testa de Caim, mas pelo
fato de a marca aparecer noutros contextos na fronte dos protegidos de Javé, imediatamente
relacionaram o sinal cainita a esta parte. O terceiro procede de uma possível releitura
do v.15. Enquanto as versões costumam traduzir “e pôs... um sinal” esta escola traduz
“apontou...um sinal” e outra “estabeleceu... um sinal”. O sinal não o estaria em
Caim, mas sobre ele, como no caso do arco, após o dilúvio, em 9.12. Deus apontou
alguma espécie de sinal para Caim em vez de marcá-lo. A pergunta ainda continua
aberta!
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