A crise do discernimento cristão

A crise do discernimento cristão


Pesquisas internacionais indicam sincretismo e confusão doutrinária

Desde o primeiro século, os apóstolos advertiam a Igreja contra o perigo das falsas doutrinas. Paulo exortou os cristãos a não serem “levados em roda por todo vento de doutrina” (Efésios 4.14), alertou contra “filosofias e vãs sutilezas” (Colossenses 2.8) e preveniu Timóteo sobre a apostasia e o abandono da sã doutrina (1 Timóteo 4.1; 2 Timóteo 4.3). Pedro denunciou os que “torcem as Escrituras” (2 Pedro 3.16) e Judas conclamou os fiéis a “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3), ecoando o ensino de Cristo: “Acautelai-vos, que ninguém vos engane” (Mateus 24.4).

Mesmo diante dessas admoestações, cresce entre muitos cristãos a dificuldade de discernir o erro. O enfraquecimento da leitura e da meditação nas Escrituras favorece a confusão doutrinária, o sincretismo religioso e outras influências que relativizam a autoridade da Palavra e comprometem verdades centrais da fé cristã.

Crenças não bíblicas entre a maioria dos evangélicos canadenses

Um relatório divulgado no final de maio pela Ligonier Ministries Canada em parceria a Lifeway Research indica a adesão de crenças contrárias às Escrituras pela maior parte dos cristãos canadenses. Segundo a pesquisa “Estado da Teologia”, 73% dos 3 mil evangélicos entrevistados no Canadá concordaram com a afirmação “Todos nascem inocentes aos olhos de Deus”, demonstrando a não compreensão ou a falta de crença nos ensinamentos bíblicos sobre o pecado original e a condição humana decaída (Romanos 5.18,19; Efésios 2.1-3). “Quando as pessoas não conseguem enxergar a gravidade do pecado, a própria necessidade do evangelho é posta em questão”, argumenta a Ligonier.

Além disso, 60% deles acataram a afirmação “Todos pecam um pouco, mas a maioria das pessoas é boa por natureza”; e 66% acreditam no Espírito Santo como uma força e não um ser pessoal, mesmo que 93% tenham confessado, na mesma pesquisa, fé na doutrina da Santíssima Trindade. “Esses não são detalhes menores”, alertou Chris Larson, presidente do conselho da Ligonier Ministries Canada, no anúncio. “São verdades fundamentais. Se errarmos nisso, não teremos cristianismo algum”, completou.

O problema exposto pelo relatório não está em divergências sobre temas secundários da teologia, mas na crescente confusão em torno de doutrinas que, ao longo da história da Igreja, serviram como alicerce da fé cristã. Ensinos como a autoridade das Escrituras, a Trindade, a plena divindade e humanidade de Cristo, Sua morte expiatória e ressurreição, bem como a salvação pela graça mediante a fé, constituem o núcleo da mensagem cristã. O desconhecimento ou a relativização dessas verdades compromete a compreensão do próprio Evangelho.

“Muitos cristãos convivem com ‘inconsistências felizes’: eles afirmam certas verdades bíblicas enquanto, sem saber, sustentam crenças contraditórias. Uma teologia ruim, por mais sincera que seja, pode levar à confusão, ao comprometimento e até mesmo a danos espirituais”, defendeu Larson.

Embora essa pesquisa tenha especificamente os canadenses como amostragem, não reflete uma realidade distante de outros países, por vezes com questões doutrinárias ainda mais profundas, instigadas pelos ensinos deturpados de falsos mestres.

No livro Teologia Sistemática Pentecostal, editado e publicado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), o pastor Claudionor de Andrade (in memoriam) alerta sobre como até mesmo estudiosos em nível acadêmico podem ser levados ao engano. “Infelizmente, muitos desses sábios segundo o mundo têm-se infiltrado em seminários dantes conservadores e, habilmente, vêm desviando os futuros pregadores da verdade. Faz-se necessário, pois, que estejamos sempre precavidos quanto a esses doutores que, veladamente, instilam o seu veneno sobre aqueles a quem Deus chamou para proclamar o Evangelho de Cristo”.

Uso de adivinhação preocupa pastores na Coreia do Sul

Um cenário ainda mais inquietante foi revelado a partir de uma pesquisa divulgada em maio pelo Instituto de Pesquisa de Dados Pastorais (MPDI) na Coreia do Sul, após entrevistarem 500 pastores e mil membros de igrejas protestantes naquele país. Constatou-se que 20% dos cristãos recorreu ao xamanismo nos últimos três anos e 25% deles consideram aceitáveis usar amuletos. “No início, começa como entretenimento, mas com o tempo, as pessoas se tornam cada vez mais dependentes disso para aliviar a ansiedade em relação ao futuro. Nesse processo, existe o perigo de as pessoas passarem a depender mais da adivinhação e de elementos xamânicos do que de Deus”, explicou o pastor Lee Chun-sung, secretário-geral do Instituto Coreano de Ética Cristã.

Denominada pelos pastores locais como “xamanização da fé”, a tendência é um reflexo da combinação entre cultura popular, ansiedade sobre o futuro, fé voltada a prosperidade e enfraquecimento da confiança entre os irmãos nas comunidades cristãs. Entre as práticas xamânicas estão os usos de tarô, horóscopos, talismãs e saiu, forma coreana de adivinhação baseada nos dados de nascimento. 82% dos líderes eclesiásticos notaram a presença desses elementos entre irmãos da igreja.

“O pluralismo religioso afirma que todas as religiões são caminhos iguais para a salvação, mas a igreja coreana deve preservar a essência do cristianismo bíblico”, disse Kim Young-han, presidente da Sociedade Acadêmica Cristã, em entrevista ao Christian Daily Korea. “A igreja só pode manter sua razão de ser quando se fundamenta na fé evangélica e na fé centrada na Palavra”, concluiu. Apesar dos dados preocupantes, 73% dos fiéis reconhecem a necessidade que têm de ouvir sermões e ensinos que tratem sobre o xamanismo. “Não devemos nos limitar a simplesmente proibir, mas também fortalecer a educação religiosa centrada na Bíblia e o treinamento em discernimento”, destacou Mok De-yeon em declaração ao Christian Daily Korea.

Baixa adesão à leitura bíblica diária

Talvez os dados obtidos numa terceira pesquisa ajudem a indicar os principais motivos para a confusão doutrinária e adoção de uma espiritualidade híbrida por um número relevante de cristãos do século XXI. Segundo o estudo “Estado do Discipulado”, realizado nos Estados Unidos e divulgado em fevereiro pela Lifeway Research, menos de um terço (31%) dos cristãos nos EUA lê a Bíblia diariamente. Entre os demais, 30% fazem algumas leituras semanais, outros 14% responderam que leem somente uma vez por semana, 11% disseram que em algumas ocasiões por mês, 5% falam em uma única oportunidade mensal e os 9% restantes admitem raramente ou nunca ler a Palavra de Deus.

Mais índices da mesma pesquisa indicam que apenas 40% dos entrevistados afirmam que a Bíblia tem autoridade sobre todas as áreas de suas vidas e somente 31% deles pensam regularmente em verdades bíblicas ao longo do dia. “A Bíblia não pode ter plena autoridade na vida de alguém se essa pessoa não souber o que ela diz ou não estiver considerando o que ela diz sobre as situações específicas que enfrenta na vida”, disse Scott McConnell, diretor-executivo da Lifeway Research. “A Bíblia faz o apelo: ‘Sejam transformados pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus’ (Romanos 12.2b)”, concluiu.

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