Em tese, um crente mudar de igreja local não deve obrigatoriamente ser alvo de maiores preocupações, pois há certos tipos de mudança que ocorrem naturalmente, de acordo com o perfil de cada crente. Por exemplo, nos casos da carreira profissional e da vida militar, com transferências regulares para outros estados ou até mesmo outros países. Na esfera eclesiástica, um bom exemplo de mudanças temporárias naturais aconteceu no transcorrer da obra missionária empreendida pelo apóstolo Paulo, que esteve um ano e meio em Corinto (Atos 18.11) e três anos em Éfeso (Atos 20.31). Sua base comunitária de fé, entretanto, permaneceu em Antioquia da Síria, onde tudo havia começado (Atos 11.25-30) e de onde foi comissionado pelo Espírito (Atos 13.2). As mudanças decorrentes do exercício ministerial não impediram Paulo de cultivar sólidas raízes comunitárias de fé em Antioquia (Atos 11.25-30; 14.26; 18.22).
Este artigo, entretanto, visa a uma reflexão voltada a
outros perfis de mudança de igreja, comumente indicativos de adoecimentos
pessoais e espirituais ensejadores de mudança tanto de caráter constante e
rotineiro no mesmo espectro denominacional, migrando apenas de instituição
local, quanto de caráter pontual, ainda que de forma mais radical, na esfera de
tradição cristã. As razões ou motivações apresentadas, geralmente de forma
tendenciosa, são as mais variadas, sendo que as mais comuns podem ser
aglutinadas nos arcos de conflitos interpessoais, discordâncias eclesiais e
divergências doutrinárias. Cabe ressaltar que de modo algum deixamos de
reconhecer a pertinência de mudança de igreja, quando ocorre justificadamente
por questões incontornáveis provocadas a partir de variadas causas, como na
apostasia generalizada, que inviabiliza a permanência da pessoa na igreja.
Em primeiro lugar, vale ponderar se o que projetamos receber
de fora, isto é, do outro, na verdade talvez precise nascer de dentro, ou seja,
de nós mesmos. Em outros termos, mudanças constantes de igreja local, que
almejam deixar no passado dores e mágoas pessoais para “zerar a conta” no
presente em outro lugar, nunca serão solução se quem de algum modo concorreu
para elas está carregando-as consigo na mudança em busca de um futuro
diferente. Quero dizer com isso que não devemos esperar mudanças para melhor na
qualidade dos frutos (relacionamentos interpessoais) comunitários, se as raízes
não forem tratadas no sentido de um coração ensinável e sensível para o perdão
e a reconciliação com os nossos semelhantes (Marcos 11.25; Efésios 4.32).
Afinal, não adianta o desejo de apresentar uma oferta ou adorar a Deus em outro
lugar (igreja) se deixamos para trás conflitos e crises não resolvidos com os
domésticos da fé (Mateus 5.23,24).
Em segundo lugar, um fenômeno perturbador tem tomado forma
em nossas igrejas sob a égide do individualismo pós-moderno, empurrando cada vez
mais as pessoas para um espaço de exaltação do “eu”, priorizando a realização e
a satisfação pessoal, tornando os vínculos afetivos passageiros e efêmeros, em
detrimento do senso de alteridade e laços comunitários. Os espaços comunitários
de culto tornam-se meras oportunidades de consumo, num contínuo processo de
“experimentações”. Desse modo, o culto e a comunidade são vistos apenas como
produtos, dentre tantos outros, na busca de satisfação imediata e
autorrealização. Por essa ótica, pertencer a uma igreja local passa a ser algo
descartável e destituído de valor afetivo. Tanto que não costuma levar muito
tempo para que o ciclo vicioso de mudança seja retomado, quando,
metaforicamente, a “carruagem” vira “abóbora” aos olhos sempre reprovadores e
condenatórios de qualquer modelo administrativo e eclesial local que não se
encaixe no grau de exigência do “consumidor”.
Por seu turno, as Escrituras, como fundamento da cosmovisão
cristã, comparam os membros da igreja a um corpo com organicidade, interdependência
e coesão, que “tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só
corpo” (1 Coríntios 12.12). No contexto imediato desta passagem (vv. 12-27),
fica claro que a função dos membros do corpo é servir a Deus e ao próximo com
humildade e altruísmo (Romanos 12.10; Gálatas 6.2; Efésios 4.2), ao contrário
do individualismo narcisista, no qual impera o egoísmo, desaguando em relações
líquidas e com total desprezo à empatia e ao senso de comunidade. Diante disso,
o caminho para cultivarmos raízes saudáveis e duradouras na esfera comunitária
de fé perpassa pela humildade de não atentamos mais para o que é propriamente
nosso, mas para o que é dos outros, tendo o mesmo sentimento que houve em Cristo
(Filipenses 2.3-5).
Por último, tem se tornado cada vez mais comum decisões
disruptivas no que tange ao arcabouço doutrinário representativo de cada tradição
cristã, levando o indivíduo a migrar de uma tradição para outra, ficando
geralmente o sentimento de que tudo o que havia sido aprendido e crido sobre a
Bíblia como regra de fé e prática estava errado. Seja como for, vale a seguinte
reflexão: até onde essa fé estava firmada primariamente em uma perspectiva
relacional e direcional com o Deus da Palavra? Será que ela não estava firmada
em uma perspectiva ideológica da Palavra de Deus, sustentada unicamente por proposições
filosóficas, declarações credais e fórmulas doutrinárias autorizadas
apropriadas de forma acrítica?
No intuito de evitar novas decepções e desapontamentos nesta
área de vivência da fé, ficam aqui duas recomendações: mais teologia bíblica e
menos teologia dogmática para o exercício de um senso crítico doutrinário
consistente, o que não impede um conhecimento mais aprofundado da estrutura
teológica e doutrinária da tradição atual antes de decidir por uma mudança; e
não mais subestimar a perspectiva relacional e nem superestimar a
ideológica.
Mas fica ainda uma última pergunta: quando e como mudar de
igreja sem correr o risco de desalinhamento com os desígnios divinos para nossa
marcha cristã? Certamente, a marcha do povo de Israel no deserto por 40 anos
nos ensina algumas lições preciosas (1 Coríntios 10.11). Desde a saída do Egito,
o Senhor ia adiante do povo numa coluna de nuvem de dia e de fogo de noite,
como manifestação visível da proteção e direção divinas durante a longa jornada
(Êxodo 13.21,22). Enquanto a nuvem não subia, ninguém partia; quando a nuvem se
deslocava, ninguém permanecia no arraial (Números 9.17). Essa dinâmica não
permitia que os israelitas caminhassem por determinação própria, levando-os a viver
sob total dependência e submissão à direção divina (Números 9.18-23).
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