A origem do púlpito, o seu significado e a postura que o pregador deve ter ao subir nele para transmitir a mensagem da Palavra de Deus
Tive o privilégio de subir ao púlpito da Igreja Metodista em Londres, onde muitas vezes o grande servo de Deus John Wesley pregou para os londrinos no Século XVIII, entre os anos de 1735 a 1790. Fiquei vislumbrado por aquele púlpito de madeira trabalhada. Para que John Wesley pregasse a Palavra de Deus naquele púlpito, sua vida de oração acontecia no seu quarto de dormir, junto do qual havia uma saleta simples, sem ostentação, com um oratório de madeira, local onde esse servo de Deus preparava seus sermões e estudos bíblicos, ficando de joelhos dobrados durante mais de 4 a 5 horas ininterruptas em oração e meditação na Palavra de Deus.
O púlpito tem um fascínio desde os tempos antigos. Podemos ver
isso ao voltarmos aos anos de 435-438 a.C., quando Israel teve permitida a sua volta
à terra da Palestina, especialmente em Jerusalém, após 70 anos de cativeiro em
terra estranha. Os judeus começaram a voltar para a sua terra de origem, mas
estavam distantes de Deus e cheios dos costumes pagãos. Então, Neemias e Esdras
conseguiram ajuntar o povo e o levou para a praça principal em Jerusalém para
ouvir a exposição do Livro da Lei de Deus, a Torah (O Pentateuco).
A verdade é que temos uma história espetacular que envolve dois
homens, tementes a Deus: o escriba e sacerdote Esdras e Neemias, o governador, o
líder político que gozava de simpatia do rei persa Artaxerxes. Por ordem e
liberação de Artaxerxes, Neemias liderou a reconstrução dos muros de Jerusalém
e teve o apoio do rei persa. Esdras, por outro lado, era o sacerdote, o
escriba, que conhecia o Livro da Lei de Deus. Neemias havia sofrido com muitas
pressões de pessoas más, como Sambalate e Tobias, os quais se opunham o tempo todo
contra a restauração de muros da cidade. Quando Neemias chegou a Jerusalém, encontrou
destruição e os muros quebrados. Então, ele entendeu que o povo estava
desanimado e sem esperança alguma. Porém, Neemias creu que a solução estava em
lembrar a Israel da sua história e, por isso, convocou o povo para reunir-se em
praça pública para ouvir a leitura da Lei de Deus.
Tudo começou com um púlpito de madeira, que foi feito
especialmente para aquela ocasião. O texto de Neemias 8.3,4, diz literalmente:
“E leu nela, diante da praça, que está diante da Porta das Águas, desde a alva do
dia até ao meio-dia, perante homens, e mulheres, e sábios, e os ouvidos de todo
o povo estavam atentos ao Livro da lei. E Esdras, o escriba, estava sobre um
púlpito de madeira, que fizeram para aquele fim”.
O poder da Palavra de Deus lida com graça e unção por Esdras
foi tão grande que magnetizou todo o povo durante mais de 6 horas, para ouvir a
sua leitura pela boca de Esdras. No versículo 6, está escrito que Esdras,
depois de ter lido todo o texto do Livro da Lei de Deus, “louvou ao Senhor, o grande
Deus, e todo o povo, levantando as mãos, respondeu: Amém, Amem! Inclinaram-se e
adoraram o Senhor, com o rosto em terra”. Possivelmente tenha havido intervalos
na leitura para que os levitas interpretassem os textos lidos às famílias que
estavam presentes naquela praça (Neemias 8.7,8). De um modo especial, o povo
estava magnetizado pela leitura e pela explicação dos levitas. Houve um grande avivamento
espiritual em Israel e tudo começou com a Palavra de Deus lida sobre “um púlpito
de madeira”.
A Importância dos púlpitos
A palavra púlpito vem da língua latina pulpitum e isso
nos remete à Roma Antiga, quando se dava muita importância às apresentações
teatrais. A palavra pode ser entendida por “palco”, “tablado” ou “plataforma” sobre
os quais os oradores costumavam discursar para os seus ouvintes. Tronou-se um dispositivo
bastante utilizado em palestras e, principalmente, nas igrejas cristãs. Hoje,
os púlpitos estão nas faculdades, nas tribunas políticas, nas tribunas judiciárias
e em outras instituições sociais.
Os modelos de púlpitos são os mais variados, desde os
modelos construídos em granito, pedra, metais, vidro e até os modelos mais
leves fabricados em acrílico, que podem ser transferidos de um lado para o
outro. O modelo mais tradicional é o “púlpito de madeira” como aquele que Neemias
mandou fazer para a leitura do Livro da Lei de Jeová (Neemias 8.4).
Haverá algo místico num púlpito religioso? O despertamento do
povo de Israel foi provocado por causa do púlpito ou da Palavra de Deus? No caso
do púlpito de Esdras, não foi o móvel de madeira que fez a diferença. Ele
apenas facilitou o trabalho de Esdras.
O púlpito que Jesus usava como o Verbo divino feito carne
Naturalmente, Jesus não carregava em viagem um púlpito para
pregar o “Evangelho do Reino” (Mateus 4.23). Ele identificou-se como pregador público
quando entrou na sinagoga de Nazaré, na Galileia, identificando-se profeticamente
com a leitura do texto do profeta Isaias, no capítulo 61. Naquela sinagoga,
havia uma tribuna, ou seja, um púlpito, sobre o qual Jesus identificou-se com o
texto: “ E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro,
achou o lugar em que estava escrito: O Espirito do Senhor é sobre mim, pois que
me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do
coração, a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos, a pôr em
liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor. E, cerrando o
livro e tornando a dá-lo ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na
sinagoga estavam fitos nele. Então, começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta
escritura em vossos ouvidos”. (Lucas 4.17-21).
Jesus não havia formado um povo num determinado lugar para
pregar o seu Evangelho. Ele foi um pregador itinerante. Seu púlpito, quase
sempre, era improvisado. Ele podia estar no alto de um monte ou podia fazer da
popa de um barquinho o seu púlpito para falar às multidões que o procuravam
para ouvi-lO. Ele podia improvisar o alto de uma rocha, a casa de um amigo ou
mesmo o púlpito de uma sinagoga. Ele não tinha um lugar fixo, não tinha uma
sede, mas Ele pregava em todos os lugares que abrissem a Ele uma oportunidade
para ensinar e pregar às multidões. Ele eletrizava os ouvintes com Seu estilo informal
e arrastava multidões para ouvir Seus sermões.
Na verdade, Ele tinha um modo simples de comunicar o Evangelho.
Um famoso escritor cristão escreveu em seu livro intitulado O Pregador que “a pregação
é uma encarnação pessoal da mensagem, porque o pregador transmite a Palavra de
Deus através de sua personalidade”.
O púlpito e a homilética
A palavra “homilética” deriva do grego homiletike, que
significa primordialmente “o ensino em tom familiar”. A palavra homilos tem
o sentido de “multidão”, ou seja, de “assembleia do povo”. O pregador procura comunicar
a sua mensagem ao povo que se reúne para ouvi-lo. Por sua vez, o verbo homilos
significa “conversar em grupo pequeno”. De homileo surgiu o termo
“homilia”, que se refere ao conteúdo da pregação. A Igreja Primitiva, no
primeiro século, não construía templos, porque as reuniões podiam ser ao ar
livre, mas, na maioria das vezes, os cristãos se reuniam em casas de amigos ou
em algum salão de festas. Por isso, as pregações tinham um caráter bem
familiar. Não havia tecnologia de som alguma e as falas aconteciam com a força
da voz do pregador.
Ao longo dos séculos da Era Cristã, a igreja cresceu muito e
templos foram construídos, requerendo da parte dos pregadores o aprimoramento da
comunicação da Palavra de Deus. Assim, a Homilética se tornou uma ciência
indispensável para o aprimoramento do discurso público. Daí surgiram três chaves
da Homilética para uma eficiente pregação: a Oratória, a Eloquência e a
Retórica.
A Oratória aprimora a arte de falar em público.
Existem, no campo da oratória, pelo menos, cinco formas distintas, que são: a
oratória acadêmica, a oratória forense (dos advogados), a oratória política, a oratória
religiosa e a oratória popular. Quanto à oratória religiosa, ou sagrada,
destacamos a oratória cristã, que tem como objetivo primordial a pregação do
Evangelho de Cristo. A arte de falar na pregação tem um poder enorme de influência
e persuasão, por isso deve ser aprimorada.
A Eloquência diz respeito ao dom natural da palavra
que pode ser aprimorada na arte de persuadir. A eloquência do pregador cristão sob
a unção do Espirito Santo produzirá resultados positivos. A eloquência vaidosa é
aquela que utiliza uma exagerada pomposidade na apresentação dos pensamentos e o
abuso de uma linguagem rebuscada, elitista, que exibe presunção e vaidade, mas
que é de difícil entendimento popular. Por isso, sobriedade nas emoções e consciência
social são indispensáveis ao pregador.
A Retórica tem a ver com o desenvolvimento e o
aperfeiçoamento do talento natural da palavra para que o pregador não se torne
prolixo e cansativo nas suas preleções. A retórica é a arte de bem argumentar,
utilizando as regras que regem a Homilética.
O fascínio do púlpito
A palavra “fascínio” vem do latim fascinum que significa
encantamento; sensação de deslumbramento, poder de exercer forte atração. Então,
nos perguntamos: O que é que motiva a pessoa a desejar o púlpito? Qual a visão
que os pregadores têm do púlpito? Seria, de fato, o ímpeto de pregar a Cristo?
Seria o prazer de sua capacidade de domínio para se comunicar com o auditório?
Seria a busca de sucesso para superar os demais pregadores? Seria a necessidade
de autoafirmação? Qual é o glamour do púlpito?
A atividade no púlpito, quando genuína e comprometida com a mensagem
cristã, torna o pregador submisso ao Espirito Santo para falar apenas o que está
em Sua Palavra. A igreja se ressente de pregadores que façam do púlpito apenas o
lugar da manifestação do poder de Deus e da Sua glória através da pregação. O
estado de espirito que deve envolver o pregador é de total capacidade de ouvir
o que Deus quer dizer e que já está escrito em Sua Palavra.
A postura do pregador no púlpito
Como dever se comportar o pregador no púlpito? Um dos
benefícios da Homilética aos pregadores, entre vários benefícios, é o
aprimoramento da expressão corporal do pregador quando está pregando. “Expressão
corporal” envolve a expressão do rosto, mímica, olhos, gesticulação, vestuário.
Todos esses elementos possuem uma linguagem forte, com a qual o pregador se
comunica com o povo.
Com a movimentação facial do rosto, o pregador
reflete o seu estado de alma, como está se sentindo no momento que está
pregando a Palavra de Deus. Sorrir ou chorar na pregação é aceitável quando é
feito com pureza de alma. Falsos movimentos fisionômicos resultam em uma comunicação
não confiável para os seus ouvintes.
A mímica é um modo de expressão corporal através dos
olhos, ao contrair as sobrancelhas, os movimentos da boca, dos lábios, da testa
e das faces. Sem dúvida, a mímica tem uma linguagem também através das mãos,
dos braços e da cabeça. São movimentos sem palavras que podem ser aprimorados
na ministração da Palavra.
Que dizer dos olhos? São as janelas do nosso interior. Pelos
olhos o pregador revela o que há dentro de si. É ruim quando um pregador fica
olhando para cima ou apenas para um lado, ou fixando o olhar para alguma pessoa
no auditório. Aprenda a olhar para a frente com uma visão geral do auditório.
A gesticulação não pode ser deseducada, grosseira, com
movimentos rudes que imprimem no auditório imagens dúbias.
E o vestuário do pregador? O pregador deve vestir-se
com elegância, mas com modéstia. Evite roupas extravagantes, como se fossem de
um ator de teatro. Asseio, elegância e modéstia são ingredientes que se tornam
referenciais para os novos pregadores. No púlpito, é a palavra e a
personalidade do pregador que devem aparecer, não o vestuário. Vestir-se com extravagância
ou vestir-se desalinhadamente, com roupas e sapatos sujos, unhas sujas, cabelos
despenteados e malcheirosos, constituem-se em vergonha para o Evangelho. Ser
simples não é ser relaxado consigo mesmo. No Antigo Testamento, os sacerdotes e
levitas não podiam ministrar no Tabernáculo sem estarem devidamente vestidos e
limpos.
A glória da pregação bíblica
O apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “E eu, irmãos, quando
fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de
palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus
Cristo e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande
tremor. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas
de sabedoria humana, mas em demonstração do Espirito e de poder, para que a
vossa fé não se apoiasse em sabedoria de homens, mas no poder de Deus” (1 Coríntios
2.1-5).
Nesta escritura, o apóstolo Paulo mostrou aos coríntios que
a glória da pregação não estava no púlpito disponível para pregar, nem na
erudição, nem na superfluidade do pregador ou na exibição da retórica e da
sabedoria humanas, mas a glória da pregação estava em declarar que Jesus
Cristo, o Crucificado, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa
salvação. Não é o púlpito que consagramos que fará a diferença, mas a quem
proclamamos nesse púlpito: Jesus Cristo!
por Elienai Cabral
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