Um só Cordeiro, uma só Páscoa

Um só Cordeiro, uma só Páscoa


A questão costuma retornar, sempre que os calendários cristão e judaico divergem sobre a data de comemoração da Páscoa, fato sazonal, uma vez que seguimos o Calendário Gregoriano, solar, enquanto Israel usa uma marcação lunisolar, estabelecendo suas datas festivas de maneira diversa e anterior à nossa marcação. Não se trata, aqui, de advogar a sujeição a ritos e a datas específicas, mas de esclarecer, ou pretender esclarecer a razão da diferença, apresentando os fatos históricos que lhe deram origem.

Corria o ano trezentos e vinte e cinco da Era Cristã, quando o imperador Constantino, dito cristão, convocou bispos não judeus para o Concílio de Nicéa. O encontro marcou definições teológicas importantes, como a declaração da divindade de Jesus, e estabeleceu regras claras sobre a ceia e o batismo. Igualmente, foi decretada a separação entre judeus e gentios de uma forma que a ainda jovem Igreja não havia experimentado. É fato que, após a destruição do Templo em Jerusalém e a dispersão posterior da população judaica, judeus prosseguiram em sua fé através do estudo da Palavra, das tradições e da lei oral, como já sucedia nos dias do Senhor na Terra. Os judeus-cristãos, gradativamente, abraçavam e divulgavam a Brit Hadashah, a Nova Aliança, enquanto permaneciam ligados a tradições culturais, sem que isso se revelasse em um conflito de identidade. Quanto aos gentios, recém-nascidos em Cristo, seu principal desafio era abster-se das práticas pagãs para servirem ao Senhor com inteireza de coração. Na literatura epistolar podemos ver o desenvolvimento dessas comunidades de irmãos, os conflitos que enfrentaram, a direção do Espírito Santo para cada grupo em particular e, em especial, a maneira como lutaram para permanecer unidos na mesma fé, por vezes com o preço da renúncia a valores importantes a cada um deles.

Após Nicéa, contudo, uma inimizade foi estabelecida, de maneira a eliminar uma parcela importante da própria história de nossa fé. Segundo Malcolm Hedding, ex-diretor da Embaixada Internacional Cristã em Jerusalém, o Concílio de Nicéa fez algo semelhante àquilo que sucedeu com José, no Egito, a saber, despido de suas vestes judaicas, tornou-se irreconhecível por seus irmãos. O ódio antissemita foi institucionalizado e ordenado aos bispos presentes, enquanto os ausentes recebiam uma carta do imperador Constantino com os dizeres, entre outras palavras de ódio: “Não tenhamos, então, nada em comum com os judeus, que são nossos adversários. Evitemos cuidadosamente todo o contato com esse caminho maligno”. Do Concílio partiram palavras acusatórias como: assassinos, desprezíveis, contaminados pelo sangue, e outras que vêm ecoando ao longo dos séculos, penetrando em nossos vocabulários (como, por exemplo, o verbo judiar) e alimentando a linha teológica chamada de Teologia da Substituição.

O separatismo de Nicéa determinou o afastamento entre a Páscoa Cristã e a Páscoa Judaica, de tal maneira que as datas são marcadas segundo perspectivas diversas, muito embora, às vezes, coincidam no calendário. No ano vindouro, estarão distantes, os judeus celebrando a partir do dia vinte e um de abril, uma quarta-feira, ao entardecer, até o dia vinte e nove de abril, quinta-feira, também ao entardecer, enquanto os cristãos já terão celebrado o domingo, dia vinte e oito de março. A separação é didática: dois povos, duas celebrações, duas páscoas... Será isso possível?

Ressaltamos – não se trata de dias ou de cumprimento de festas e regras – trata-se de relembrar uma verdade básica: há um só Cordeiro. Mesmo que alguém argumente que a celebração judaica faça referência à saída do Egito, o que é verdadeiro, sabemos que os eventos que ali ocorreram eram sombra de coisas que haveriam de vir, e que o sangue espargido nos umbrais das portas apontava para o sangue vertido no Calvário, assim como o cordeiro que o forneceu tipificava a oferta voluntária de Jesus, o Cordeiro de Deus. No passado, um povo foi liberto da opressão egípcia, hoje, somos salvos da escravidão do pecado, e celebramos a libertação da condenação e da morte que nos eram devidas. Jesus foi a Páscoa dos judeus, por Seu sangue prefigurado no Cordeiro que lhes marcou os umbrais e Jesus é a Páscoa de toda a humanidade, numa oferta generosa, que permanece viva nesse tempo de graça e misericórdia, a todos os que desejem a libertação.

Em tempos de relativização e de pluralização nos conceitos e nos costumes, tendem os homens a querer uma salvação para cada povo, adequando métodos e práticas aos seus costumes e desejos ancestrais. Talvez algum ‘constantino’ pós-moderno queira levantar-se para estabelecer um ‘cristo’ para cada povo, um ‘cordeiro’ para cada aspiração, uma forma de ‘salvação’ distinta para cada preferência. O Eterno, porém, estabeleceu apenas um Caminho, através do sangue de Seu Filho, o Cordeiro de Deus, sem O qual não há salvação. Fez com que nascesse judeu, fez com que brotasse da descendência de Abraão, seu amigo, fez com que estivesse imerso numa determinada cultura, ligado a determinados costumes e abraçado a tradições específicas. A cultura, os costumes e as tradições não têm importância para a salvação, podendo variar, como são variados os povos e os lugares onde a mensagem do evangelho é proclamada. O Cordeiro, no entanto, é insubstituível. Não há outra maneira pela qual possamos ser salvos, quer gentios, quer judeus. Se as tradições judaicas fossem poderosas para salvar, desnecessário seria que Jesus percorresse a Judeia, a Samaria e a Galileia de seu tempo proclamando o Reino.

As raízes do antissemitismo, profundas que são, estão de tal maneira arraigadas em nossas práticas, que não parece produtivo focar em mudanças estruturais, senão no reconhecimento de que o ódio aos judeus ainda persiste em muitos corações, mesmo de dedicados servos de Deus, como uma herança, essa sim maligna que, por vezes, embota nossas orações por Israel e dificulta a aproximação com aqueles que nos legaram a fé, a história, os livros, os primeiros passos. Quando, diante dos atuais conflitos, ouço irmãos sinceros perguntando o porquê de Israel atacar o Irã, atacar o Líbano, buscar a guerra e não a paz, percebo, não a ignorância sobre os fatos políticos, mas um resíduo, um eco, incentivado por um sopro maligno a afirmar que ‘a culpa é dos judeus’.

Enquanto isso, nos abrigos israelenses, a Embaixada Internacional Cristã, através de seu braço humanitário, dá suporte a idosos, sobreviventes do Holocausto, com atendimento nutricional, psicológico e espiritual. Nossos irmãos também atendem sobreviventes em suas casas, pois alguns deles não conseguem mais se deslocar para os abrigos, quando soam as sirenes. Curiosamente, o relato dos agentes é de que costumam encontrar esses homens e mulheres experimentados no sofrimento tranquilos, demonstrando uma fé e resiliência admiráveis. Talvez, para eles, em seus corações resida uma semente de fé, multiplicada em cada geração dos filhos de Israel, como uma voz, mais alta do que o eco dos adversários, reafirmando que ainda não é o fim, de que há um Cordeiro, há um sangue remidor, há um Salvador para Israel. Um só – para todos. Um.

por Sara Alice Cavalcanti

Compartilhe este artigo. Obrigado.

Deixe seu comentário

Seu comentário é muito importante

أحدث أقدم