Por meio do profeta Oséias (6.6), o Senhor estava invalidando os sacrifícios que havia instituído na Lei de Moisés? Ele estava anulando o ministério do altar?
Oséias exerceu seu ministério no século VIII a.C., sendo contemporâneo de Isaías e Amós. Esse período histórico é de declínio espiritual, tanto no Reino do Norte (Israel) quanto no Reino do Sul (Judá). Oséias, cujo nome significa “Deus é a salvação”, é um profeta enigmático. Seu livro encabeça a lista dos “profetas menores” em nossas Bíblias. Sua história familiar é um espectro da situação espiritual de Israel, uma projeção, desde o casamento com Gomer, os nomes dos filhos do casal, a infidelidade conjugal da esposa, o perdão e a restauração O profetismo do supramencionado arauto traz uma mensagem da graça nos tempos veterotestamentários.
Posto isso, passemos para o texto que está sob nossa
apreciação. Está escrito: “Porque eu quero misericórdia, e não sacrifício; e o
conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Oséias 6.6, ARC).
Ressaltamos que a declaração do Senhor por meio do profeta
Oséias não é um desprezo ao culto, nem uma negação dos sacrifícios instituídos
na Lei Mosaica. Deus não estava anulando o ministério do altar; no entanto,
estava confrontando a hipocrisia de quem oferecia sangue sobre a “mesa
sagrada”, mas carregava dureza no coração. O Eterno não se impressiona com performance
litúrgica sem coração quebrantado (Joel 2.13).
O contexto de Oséias é o de um povo religiosamente ativo,
mas espiritualmente vazio. Israel ainda frequentava os lugares de adoração, ainda
realizava cerimônias, ainda preservava a aparência da fé. Porém, sua aliança
com Deus havia se tornado superficial. Havia liturgia sem arrependimento, rito
sem transformação, sacrifício sem amor.
No hebraico, a palavra usada para “misericórdia” é ḥésed, um termo muito
utilizado no Antigo Testa mento. Não significa apenas piedade emocional ou
gentileza ocasional. Ḥésed
fala de amor leal, fidelidade da aliança, bondade perseverante, devoção que
permanece, mesmo quando não é conveniente. É o amor que continua fiel porque
nasceu da aliança com Deus.
A palavra “sacrifício” é zébaḥ, relacionada às ofertas
sacrificiais apresentadas no Tabernáculo e no Templo. O problema não era o sacrifício
em si, mas o fato de que o povo acreditava que a prática religiosa poderia
substituir a obediência interior, a espiritualidade prática.
Em outras palavras, o Senhor estava dizendo: “Eu não me
impressiono com manifestações externas quando o coração permanece distante”. O Senhor
nunca desejou apenas mãos erguidas; Ele sempre quis corações rendidos. Ele não
procura apenas culto, mas adoração em espírito e em verdade (João 4.23). É
possível cantar sem amar, pregar sem obedecer, contribuir sem se arrepender, frequentar
o templo e ainda assim estar longe de Deus. Por isso Oséias denuncia uma
espiritualidade baseada na aparência. Israel queria as dádivas da aliança, mas
não queria o peso da fidelidade. Queria a proteção divina, mas não desejava
viver debaixo da vontade do Senhor.
A segunda expressão do texto aprofunda ainda mais a
mensagem: “...o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. O vocábulo
hebraico para “conhecimento” é da‘at. Não se trata de conhecimento
intelectual ou teórico. É relacionamento íntimo, experiência viva, comunhão
verdadeira. A mesma terminologia era usada em contextos de proximidade profunda
e pessoal.
Deus não está interessado em ser apenas estudado, Ele deseja
ser conhecido. Não quer apenas religiosos que falem sobre Ele; quer filhos que andem
com Ele. O grande problema de Israel era tentar compensar a ausência de
intimidade com excesso de ritual. E esse ainda é o perigo da religião moderna:
substituir presença por agenda espiritual, adoração verdadeira por pirotecnia
litúrgica, devoção por aparência, intimidade por formalidade.
O Senhor Jesus cita Oseias 6.6 em Mateus 9.13 e 12.7, ao
confrontar os fariseus. Eles conheciam a Lei, mas desconheciam o coração de
Deus. Eram especialistas em regras, mas pobres em misericórdia. Sabiam julgar, mas
não sabiam amar. A misericórdia que Deus deseja não é sentimentalismo fraco,
coitadismo religioso, mas, ao contrário, é a evidência de um coração
transformado pela graça. Quem conhece verdadeiramente a Deus inevitavelmente se
torna mais compassivo, mais quebrantado, mais humilde.
O texto de Oséias continua sendo um chamado urgente para
esta geração. Deus não procura religiosos impecáveis na aparência e vazios na
essência. Ele procura homens e mulheres cujo coração permaneça fiel mesmo longe
dos aplausos; homens e mulheres cujo altar seja construído primeiro na alma antes
de existir diante das pessoas. Porque, no fim, Deus nunca quis apenas
sacrifícios sobre o altar. Ele sempre quis o próprio coração do ser humano.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HOLLADAY, William L. Léxico Hebraico e Aramaico do Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010.
REED, F. Oscar; PEISKER, D. Armor (et al). Comentário
Bíblico Beacon - Oséias a Malaquias. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
por Geovane Leite
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