Resista a modismos e vozes do momento


Hoje, a Assembleia de Deus possui números extraordinários. São vários milhões de fiéis, templos em quase todas as cidades brasileiras e uma estrutura colossal. Mas, na medida em que o tempo passa, vemos a nossa identidade sendo posta à prova de maneira severa todos os dias. São fortes as pressões da sociedade, que tenta nos moldar, e nunca corremos tantos riscos como agora.

Os tempos estão mudados e “são difíceis”, como diria Paulo (2 Timóteo 3.1). A forma como sobreviveremos nesse tempo difícil é uma questão importante para todo cristão. A Bíblia nos diz que devemos viver “neste mundo de forma sensata, justa e piedosa”, pois a Igreja que Cristo espera encontrar é “dedicada a boas obras” e ‘’fiel até a morte” (Tito 2.12-14; Apocalipse 2.10c).

É nítido que vivemos um cenário de desafios gigantescos, talvez maiores do que podemos imaginar. Mas, aqui, ficaremos apenas com três, ao menos por enquanto.

O desafio de valorizar nossas raízes para não ceder aos modismos

Analisando em termos gerais, a história das Assembleias de Deus no Brasil já foi tema de teses, dissertações, vários livros e artigos. Porém, boa parte da sua membresia, sobretudo as localizadas no interior do país, não conhece suficientemente a trajetória e origem de sua denominação, menos ainda documentos importantes como a nossa Declaração de Fé, o que representa uma fragilidade perigosa.

Conhecer as raízes de uma instituição ajuda a fortalecer o vínculo e o sentimento de pertença. Esse sentimento será importantíssimo para o futuro assembleiano, do nível local ao nacional. O homem ama aquilo que conhece, e luta para que cresça aquilo que ama. Como dizia Chesterton: “Roma não é amada por ser grande. Roma é grande por ter sido amada”. (1)

A Assembleia de Deus é a maior denominação evangélica do Brasil e está entre as maiores do mundo. Ela, porém, não nasceu grande, é fruto do trabalho de muitos homens e mulheres ao longo de décadas. Foi o forte vínculo com a obra que empreendiam e com a instituição que construíam que os possibilitou avançar. Assim, podemos dizer, parafraseando Chesterton, que a Assembleia de Deus não é amada por ser grande; a Assembleia de Deus é grande por ter sido amada.

Os pioneiros assembleianos nos deixaram esse grande exemplo de perseverança, dedicação e fidelidade. Suas histórias enriquecem a memória da Assembleia de Deus no Brasil. Nós temos muito a aprender com eles e com a obra que Deus realizou, lembrando que, sem conexão com as raízes, não há como obter crescimento saudável. Nesse tempo tão carente de referências, encontrar com tão ilustres biografias é estímulo para que busquemos trilhar caminhos agradáveis a Deus sem dar ouvidos a vozes confusas que destilam enganos.

O desafio das muitas vozes

No século I, estando os apóstolos ainda vivos, a igreja já se deparava com ameaças internas e externas. Se por um lado havia perseguições dos judeus e posteriormente do Império Romano, por outro havia infiltrações maléficas. Satanás é sagaz e não perde tempo, por isso a Bíblia está sempre nos alertando sobre os riscos.

A Timóteo, jovem pastor em Éfeso, Paulo escreveu sobre “as doutrinas de demônios as quais muitos dariam ouvidos” (1 Timóteo 4.1-2 – paráfrase nossa). À igreja em Filipos, ele alertou sobre os obreiros fraudulentos (Filipenses 3.2). Ele instruiu aos crentes das cidades de Corinto, Colossos e da região da Galácia para que não se deixassem levar pelas aparências (2 Coríntios 11.13-14; Colossenses 2.18; Gálatas 1.6-8). Nossos pioneiros também tiveram esse cuidado. Desde cedo houve grande preocupação com a doutrina e com a manifestação autêntica do Espírito Santo na Assembleia de Deus. É um cuidado que todos nós – não apenas os líderes – precisamos ter. Muitas vozes têm sido ouvidas pelos cristãos, mas nem todas elas vêm da parte do Senhor.

No mundo pós-moderno, há uma profusão de ideias e filosofias estapafúrdias, a maior parte delas anticristãs e confusas. O resultado é que vivemos um tempo caótico, de valores invertidos e iniquidade multiplicada. Infelizmente, esse tipo de pensamento tem influenciado também muitos cristãos (1 Coríntios 10.1-13; 1 João 2.15-17).

Ecoa hoje a voz do “outro” evangelho “atualizado” para caber no mundo e nos caprichos dos homens. Uma mensagem que faz pensar que Deus não se importa com nosso estilo de vida ou que Ele existe meramente para satisfazer nossas vontades (Romanos 6.6-10; Gálatas 1.6-9; 1 João 3.6-9). Por causa disso, muitos pervertem os ensinos da Bíblia Sagrada ao seu bel prazer, amontoam mestres segundo suas cobiças e vivem um evangelho que não é o real, mas uma teia de malignas mentiras (2 Timóteo 4.3-5; Gálatas 1.6-9).

Através de pregações distorcidas, obras escritas e no meio virtual (YouTube, Instagram etc.), esses terríveis enganos são disseminados. Precisamos ter discernimento para não sermos enganados pelos teólogos coach, massageadores de ego e antropocentristas. Mas, como não dar ouvidos a essas vozes, modismos e distorções que contaminam os corações?

A Bíblia traz a resposta quando Paulo fala sobre as pessoas que Deus separou e capacitou para instruir a igreja mediante a Palavra (Efésios 4.7,11,12). Deus fez isso com o objetivo de que Seus servos “não sejam como meninos inconstantes levados por qualquer vento de doutrina” (Efésios 4.14-16), mas possam ser pessoas “maduras na fé”. Por isso, o apóstolo Pedro nos estimula a crescer na “graça e no conhecimento” (2 Pedro 3.18). É um caminho muito antigo, mas é o único certo.

Não precisamos buscar “veredas novas”, mas apenas retomar as “antigas veredas” (Jeremias 6.16). Quais são elas? Oração e Palavra. A oração sempre foi parte vital para a igreja. O ensino salutar da Palavra sempre foi indispensável. Como cresceremos? Como sobreviveremos? “Perseverando na doutrina [ensino bíblico], nas orações, na comunhão e na ajuda mútua” (Atos 2.42 – paráfrase nossa). Não há outro caminho!

Para nos auxiliares nessa jornada, a Escola Bíblica Dominical foi e ainda é a melhor estratégia. Os membros de nossas igrejas precisam valorizá-la. Nossos obreiros deveriam ser obrigatoriamente seus alunos. A história da Assembleia de Deus no Brasil passa e muito pelas manhãs de domingo em cada classe de EBD. Está na nossa identidade, molda a nossa mentalidade e aumenta a nossa vitalidade.

O correto ensino bíblico e a ênfase na oração sempre foram a prática assembleiana e não podem deixar de ser. É a única maneira de conservar o ânimo nos idosos, a unidade na família, o frescor e energia no jovem ou o ardor espiritual no ministério (Josué 1.7-9; Salmo 1.2-3; Salmo 92.13-15; Salmo 119.9,11,16, 105; Mateus 4.4). Somente assim ouviremos a voz certa, a voz do Criador, e manteremos nossa autenticidade.

O desafio da autenticidade e da modernidade

O cristianismo é a religião que mais tem sido secularizada no mundo. Isso significa dizer que é a que mais perde seu padrão original e se assemelha às filosofias mundanas e hábitos seculares, que podemos chamar de “modismos”.

Um desses modismos atuais é o fenômeno “seeker-sensitive”, isto é, “sensível ao que busca”, que nada mais é do que a atuação mercadológica para satisfazer as aspirações, emoções e sensações das pessoas. É o que leva muitas igrejas a uma verdadeira mutação mundanizada para atrair e agradar as pessoas, favorecendo uma “experiência” de culto ao gosto do freguês, algo bem exemplificado nas “churches” dos nossos dias.

Nesse cenário, é desafiador manter a autenticidade e a espiritualidade das igrejas locais. Seguir no padrão doutrinário bíblico diante dessas e de outras inovações estranhas exige muita sabedoria, equilíbrio e firmeza. Como disse Tiago, urge pedirmos a “sabedoria ao Senhor” (Tiago 1.5) para assim enfrentarmos os desafios do nosso tempo e “batalhar pela fé uma vez entregue aos santos” (Judas v.3). Batalhar pela fé significa, dentre outras coisas, que não podemos nos curvar ao que a sociedade diz ou quer (Romanos 12.2). Devemos defender e propagar os valores cristãos, os bons costumes e a prática bíblica. Sem excessos e extremismos, devemos viver conforme o Senhor nos instrui em Sua Palavra para conservar nossa essência como autênticos cristãos.

Para tal, não se deve ser legalista, tampouco adotar o liberalismo. Não podemos ser sectários, mas devemos ter cuidado com as “misturas” que não agradam a Deus. Não podemos ser ascetas, mas também não podemos viver abraçados com as coisas deste mundo. Não podemos, em nome da pretensa modernidade, adotar todas as inovações que existem por aí, mas devemos atentar com sabedoria às mudanças e às oportunidades.

Uma igreja moderna não é uma igreja mundana. Uma igreja atrativa não é aquela que adota modismos para conquistar mais pessoas. A mensagem do Evangelho antes de ser atraente deve ser verdadeira. As pessoas não devem ser conquistadas, mas convertidas. Somente a Palavra de Deus traz a verdadeira conversão. Não é a promessa de uma vida mais fácil que as salvará, mas a promessa da vida eterna com Cristo.

A nossa Assembleia de Deus precisará aprender a lidar com os novos tempos sem perder sua essência. Isso não é e jamais será fácil, todavia é inevitável. Considerando nosso passado e olhando para o futuro, não devemos temer, mas confiar que o Senhor continua conosco. Precisamos seguir “avante, em Cristo pensando, em oração vigiando, com gozo e amor trabalhando” para nosso Senhor. Proclamando o evangelho, ensinando a Palavra com fidelidade. Vez ou outra nossa cruz parecerá mais pesada, mas não devemos desanimar, pois o Rei está às portas. Há um Céu de glória à nossa espera. Cristo jamais deixará Sua Igreja e Seus servos jamais estarão sozinhos.

NOTAS

(1) Citado na página 88 do livro Ortodoxia, de G.K. Chesterton.

REFERÊNCIAS

CONDE, Emílio. História das Assembleias de Deus. CPAD

CHESTERTON, G.K. Ortodoxia Ed. 2017. Mundo Cristão.

por Claudione Cavalcante de Lima

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