Mudanças demográficas, aumento da perseguição e do deslocamento de refugiados, e urbanização são alguns dos novos cenários destacados na pesquisa
Em abril, foi divulgado ao grande público as conclusões do relatório Status of Global Christianity 2026 (Estado do Cristianismo Global 2026), do Centro de Estudos do Cristianismo Global do Seminário Teológico Gordon-Conwell, nos Estados Unidos, cuja prévia havia sido divulgada em janeiro. Nele, os pesquisadores identificaram mudanças demográficas, aumento da perseguição, urbanização, aumento do deslocamento de refugiados e crimes financeiros contra igrejas entre os problemas mais urgentes que os líderes cristãos enfrentam atualmente no mundo. Entretanto, outro dado que chamou a atenção é que o número de protestantes do mundo está prestes a superar o de católicos, com essa ultrapassagem prestes a acontecer nos próximos anos.
Ultrapassagem protestante deve ocorrer antes de 2050
A pesquisa divide os protestantes em dois grupos:
protestantes e independentes, pois o levantamento só utiliza o título
“protestantes” para as igrejas históricas do protestantismo: luteranos,
anglicanos, presbiterianos, congregacionais, batistas e metodistas. As demais igrejas
protestantes – dentre elas as pentecostais – são chamadas na pesquisa como
independentes. Segundo o relatório, o número de católicos hoje é de cerca de
1,27 bilhão de pessoas, enquanto o número somado de protestantes e independentes
já chega a 1,1 bilhão. Por sua vez, os ortodoxos orientais são 292 milhões. Ou
seja, o bloco católico ainda é o maior grupo, mas a soma das diversas vertentes
protestantes históricas e independentes está criando um equilíbrio demográfico inédito,
com a diferença entre os dois blocos diminuindo a cada ano.
No último levantamento, realizado em 2020, o número de
protestantes e independentes não chegava a 1 bilhão, enquanto os católicos eram
1,23 bilhão. Seis anos depois, são 1,1 bilhão e 1,27 bilhão respectivamente. E
a previsão do relatório é que, considerando os índices de crescimento desses
grupos nos últimos anos, os católicos devem ser ultrapassados antes da metade deste
século. A estimativa é de que, em 2075, os católicos somem algo em torno de 1,5
bilhão de pessoas, enquanto os protestantes e independentes, 1,72 bilhão – ou
seja, 220 milhões a mais –, com os ortodoxos ficando em torno de 347 milhões. É
importante frisar que conquanto esse número de católicos apresentado na
pesquisa – 1,27 bilhão – esteja em plena consonância com todos os demais censos
independentes feitos no mundo recentemente para o número de católicos, que dizem
que o número de católicos hoje no planeta oscila entre 1,2 e 1,3 bilhão da
população mundial, a igreja católica romana, em seu último anuário, afirmou ter
1,4 bilhão de fiéis no mundo, apresentando um crescimento que os dados
empíricos dos demais censos não comprovam.
Outro dado que chama a atenção no relatório do Estado do
Cristianismo Global 2026 é o crescimento do número de pentecostais e
carismáticos (como são chamados os pentecostais não-clássicos na pesquisa) nos últimos
120 anos. De acordo com o levantamento, na primeira década do século 20, eles
eram 981 mil no mundo; em 1970, já eram 57,6 milhões; em 2000, 442,6 milhões;
em 2020, 630,8 milhões; e em 2026, já são 676,1 milhões, sendo o segundo maior
grupo sociologicamente cristão no mundo hoje, abaixo somente da igreja católica
romana. Ou seja, dos atuais 1,1 bilhão de protestantes históricos e
protestantes independentes no planeta em nossos dias, mais de 60% são
pentecostais clássicos e não-clássicos.
Desafios do presente
O relatório revelou ainda que o cristianismo entrou no ano
de 2026 enfrentando desafios significativos, apesar do crescimento contínuo em
todo o mundo. O levantamento indica, por exemplo, que o islamismo – que cresce
na base da alta taxa de natalidade – está se expandindo em um ritmo mais
acelerado que o cristianismo de forma geral. A população cristã global está
aumentando 0,95% ao ano, enquanto o islamismo cresce 1,57% anualmente. A população
muçulmana global já ultrapassou os 2 bilhões e a projeção é de que chegue a 3,4
bilhões em 2075. A previsão para o número de cristãos no mundo em 2075 é de 3,5
bilhões. Hoje, de acordo com o relatório, há 53 mil denominações cristãs com
4,7 milhões de congregações no planeta. O relatório também destaca o declínio
contínuo da fé cristã em regiões tradicionalmente associadas ao cristianismo. A
Europa, que já abrigou a maior concentração de cristãos do mundo, agora tem cerca
de 553 milhões de cristãos e está registrando um declínio anual de 0,41%. Já a
população cristã da América do Norte, estimada em 275 milhões, também está
diminuindo, com um declínio anual de 0,16%. E o cristianismo também continua em
declínio no Oriente Médio, berço da fé cristã. Os cristãos representavam 12,7%
da população da região em 1900. Esse número caiu para 6,1% em 1970 e agora está
em 4,2%, com previsão de novo declínio a uma taxa anual de -0,07%. Na África,
Ásia e América Latina, porém, o cristianismo tem crescido, alavancado pelo crescimento
do pentecostalismo.
Em terceiro lugar, o rápido crescimento urbano está criando
desafios e oportunidades para a evangelização. O número de cidades com populações
superiores a um milhão de habitantes saltou de apenas 20 em 1900 para 670
atualmente. No entanto, muitos desses centros urbanos em expansão têm pouca
presença cristã. Por outro lado, mais de 60% das principais cidades do mundo são
agora consideradas cidades com maioria cristã, em comparação com apenas um
quarto há 125 anos.
Embora o número de cristãos mortos por sua fé tenha
diminuído em comparação com as décadas anteriores, a perseguição continua severa.
Estima-se que cerca de 900.000 cristãos tenham morrido por sua fé nos últimos
10 anos, numa média de 90 mil martírios por ano. Outro dado em destaque no
levantamento é que, não obstante os avanços no trabalho missionário e na
tradução da Bíblia, mais de um quarto da população mundial ainda não ouviu o Evangelho.
No que tange ao esforço missionário, a pesquisa indica que há hoje 455 mil
missionários cristãos no mundo. No que tange às traduções, como divulgamos no jornal
Mensageiro da Paz, as Sociedades Bíblicas Unidas divulgaram no final de 2023
que mais de 7,4 bilhões de pessoas no mundo já têm toda a Bíblia ou o Novo
Testamento em sua língua nativa. São 80,5% da população mundial tendo a Bíblia toda
em sua língua, 11,1% tendo só o Novo Testamento, 6% tendo apenas alguns livros
bíblicos e só 2,4% da população mundial sem texto bíblico em seu idioma. Entretanto,
mesmo com o crescimento do número de missionários e o avanço extraordinário das
traduções e do uso de novas tecnologias – sobretudo a internet – para expandir
a mensagem do evangelho no mundo, ainda há 27,7% da população mundial – cerca
de 2,3 bilhões de pessoas – que permanecem sem ter ouvido o evangelho.
Além disso, segundo o levantamento, apenas 18,9% dos não-cristãos
conhecem pessoalmente um cristão – ou seja, 81,1% deles, o que dá cerca de 1,86
bilhão de pessoas, nunca tiveram contato pessoal com um cristão. Esse dado é
muito importante porque todas as pesquisas mostram que a forma de evangelização
que mais leva vidas a Cristo continua sendo, com folga, o evangelismo pessoal.
O relatório também aponta para a crescente crise de
refugiados, com os níveis de deslocamento global aumentando acentuadamente nas últimas
décadas. A taxa de refugiados atualmente é de 450 refugiados por 100.000
pessoas em todo o mundo.
Crimes contra igrejas não diminui doações cristãs
Outra grande preocupação levantada pelos pesquisadores é a
perda financeira dentro dos ministérios e igrejas cristãs. Estima-se que 70 bilhões
de dólares sejam perdidos anualmente devido a roubo, fraude e outras formas de
crimes cometidos contra as igrejas por gente que se aproveita delas, um aumento
acentuado em relação aos cerca de 19 bilhões de dólares registrados do levantamento
do ano 2000. Em 2020, esse número já havia subido para impressionantes 67
bilhões de dólares. Uma boa notícia nessa área das finanças das igrejas, porém,
é que tais crimes não têm desestimulado os cristãos a investirem seus recursos na
Obra de Deus. O relatório mostra que o número de dinheiro investido em causas
cristãs no mundo é atualmente de 1,08 trilhão de dólares por ano, o equivalente
ao PIB nominal da Arábia Saudita. Portanto, o dinheiro desviado anualmente das
causas cristãs por criminosos não chega a 7% do valor anual das doações dos
cristãos.
De acordo com o relatório, em 1900, o número anual de
doações cristãs era de 8 bilhões de dólares; em 1970, era de 70 bilhões; em
2000, eram 320 bilhões; e em 2020, 1,032 trilhão de dólares. Trata-se de um aumento
exponencial que reflete o aumento da renda pessoal dos cristãos e mostra também
que os cristãos estão engajados em ajudar financeiramente as igrejas e as
causas cristãs. Esse engajamento, porém, ainda poderia ser muito maior. Segundo
o relatório, a somas das rendas pessoais dos cristãos no mundo representava em 1900
cerca de 270 bilhões de dólares ao ano. Em 1970, esse número foi para 4,1
trilhões de dólares ao ano; em 2000, subiu para 18 trilhões de dólares ao ano;
em 2020, já estava em 56,47 trilhões de dólares ao ano; e em 2026, estima-se
que seja de 59 trilhões de dólares por ano. A título de comparação, esse valor
é maior do que a soma do atual PIB dos Estados Unidos (31,86 trilhões de
dólares) e da China (20,85 trilhões de dólares), que daria 52,66 trilhões de
dólares. Uma vez que a soma da renda anual pessoal de todos os cristãos no
mundo hoje daria 59 trilhões e que as doações cristãs anuais são atualmente de
1,08 trilhão de dólares, conclui-se que os cristãos doam apenas 1,83% de sua
renda pessoal para as igrejas e causas cristãs. Lembrando que esses valores
englobam católicos, protestantes (históricos e independentes) e ortodoxos.
Número das religiões hoje
Embora o relatório seja focado no cristianismo, ele
apresenta também o número atualizado das religiões no mundo. Pelo levantamento,
a maior religião do mundo continua sendo o cristianismo, com 2,7 bilhões de seguidores;
em segundo, o islamismo, com 2,1 bilhões; em terceiro, o hinduísmo, com 1,14
bilhão; em quarto, o budismo, com 535,7 milhões; em quinto, as religiões
populares chinesas, com 449,2 milhões; em sexto, as religiões étnicas, com
309,3 milhões; em sétimo, as novas religiões, com 67,9 milhões; em oitavo, os
sikhs, com 31,2 milhões de fiéis; e em nono, o judaísmo, com 15,76 milhões de seguidores.
Os que creem em Deus, mas são sem religião, representam 911,9 milhões; os
agnósticos são 765 milhões e os ateus propriamente ditos, 146,9 milhões. O
relatório aponta que a tendência nos próximos anos no mundo é o número de fiéis
de todas as religiões crescerem, exceto o número dos adeptos das religiões étnicas,
do budismo, das religiões populares chinesas e das novas religiões. Por sua
vez, a tendência é também de queda nos próximos anos no mundo do número dos que
se declaram como sem-religião, agnósticos e ateus.
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