A discussão a respeito da participação de Maria na obra redentora da humanidade tem acontecido desde o quinto século de existência da igreja, com o advento da Igreja Católica Romana. Este assunto foi discutido pela primeira vez nos concílios de Éfeso (431 d.C.) e Calcedônia (451 d.C.), os quais trataram sobre as naturezas de Cristo, com a finalidade de combater heresias que distorciam a verdade bíblica sobre Jesus.
Que Maria foi a mãe de Jesus todos sabemos, porque a Bíblia
afirma isto. Que Jesus é Deus, em toda a sua essência, também sabemos. Parece
ser lógico, então, afirmar que Maria é mãe de Deus. Mas não podemos ser
simplistas, a ponto de não perceber as consequências desta afirmação e o seu
desdobramento doutrinário. O Deus eterno não teve início nem fim. Quando a
Bíblia afirma que “Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” (Hebreus
13.8) está apresentando o atributo divino da eternidade na pessoa de Jesus. Ele
mesmo se apresentou como o Deus eterno utilizando a mesma expressão que foi
dita a Moisés no Sinai (Êxodo 3.14), quando disse aos judeus de sua época:
“antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8.58). Eles perceberam que Ele estava
declarando ser Deus e, por isto, queriam apedrejá-lo (v. 59).
A encarnação de Jesus foi parte do projeto de Deus para a
salvação da humanidade. Implicava a Jesus ser “um de nós” para morrer pela humanidade
e, assim, reconciliar o homem com Deus. Por isto, o apóstolo Paula afirma que,
sendo Deus e homem, Ele se tornou o único mediador entre os dois (1 Timóteo
2.5). É o que o apóstolo João nos apresenta quando diz que o Verbo, que sempre
existiu, se fez “carne”, isto é, passou a ter uma existência humana (João
1.1,14).
Jesus não teve apenas a aparência humana, quando viveu entre
os homens, mas era completamente humano (1 João 4.2,3). E isto não o fez perder
a natureza divina, razão pela qual, sendo homem, agiu como Deus quando, por exemplo,
aceitou adoração da mulher cananeia (Mateus 15.25) e do leproso (Lucas
17.15-18), e quando perdoou os pecados do homem paralítico (Lucas 5.20-24). Essas
são atribuições que são exclusivas de Deus.
É para reafirmar que Jesus Cristo tinha a totalidade da
natureza divina, sem, no entanto, perder a condição de possuir um corpo
verdadeiramente humano, que o apóstolo Paulo afirmou que “nEle habita
corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2.9) e o apóstolo João,
que combatia os que diziam que Jesus não era, verdadeiramente, humano, afirmou
que era completamente divino (1 João 5.20).
O projeto divino da encarnação incluía a participação de uma
mulher, conforme havia profetizado Isaias (7.14). Esta profecia se cumpriu na
vida de uma virgem, desposada com um homem da casa de Davi, que morava na Galileia:
Maria. Ele recebeu grande honra de Deus ao ser escolhida para dar à luz o Messias
prometido de Israel, por isto foi chamada “bendita entre as mulheres” (Lucas
1.42).
O filho de Maria possuía uma natureza humana que foi gerada no
seu ventre. Ela não foi apenas uma “barriga de aluguel”, mas a mãe biológica
daquele menino. Entretanto, a concepção foi sobrenatural, produzida pelo Espírito
Santo, sem a participação de um homem (Mateus 1.20-25). O apóstolo Paulo reafirma
esta verdade, quando diz, a respeito de Jesus: “nascido de mulher” (Gálatas 4.4).
Era um bebê humano, que se desenvolveu conforme as leis da natureza (o
evangelista Lucas diz que “se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz”
- Lucas 2.6), mas era, também, um ser santo (Lucas 1.35), que, não sendo gerado
naturalmente, não possuía pecados (Hebreus 4.15), mesmo sendo em tudo semelhante
aos seus irmãos (Hebreus 2.17).
Não podemos esquecer, entretanto, que Maria como todos os
seres humanos, era uma mulher que possuía pecados (Romanos 3.23), os quais também
precisavam ser perdoados por Jesus. Ela mesma confessou a sua necessidade, quando
disse: “o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lucas 1.47 - grifo do
autor). Quando Isabel a identificou como “a mãe do meu Senhor” (Lucas 1.43),
estava apenas reconhecendo que Maria era a mulher escolhida por Deus para trazer
à luz o Messias, conforme os profetas haviam falado.
Ter sido a mãe de Jesus Cristo não torna Maria participante de
Sua divindade, nem de Seu ministério. Embora tenha sido parte do projeto de Deus
na encarnação, ela não teve participação alguma na redenção da humanidade, nem deve
receber qualquer distinção, neste sentido. Jesus separou muito bem os papéis de
cada um, quando honrou e obedeceu à sua mãe, como filho, mas deixou claro o Seu
ministério divino.
Quando os pais humanos se separaram de Jesus, na ocasião que
foram a Jerusalém, e ele tinha doze anos, ao encontrá-lo, chamaram a sua
atenção diante de todos. Mesmo sendo um adolescente, Jesus deixou clara a Sua
missão, embora a Bíblia afirme que eles não entendessem o que isto significava
(Lucas 2.41-50).
Em outra ocasião que pregava e Sua mãe e irmãos biológicos
quiseram que interrompesse Sua mensagem, para que os atendesse, Jesus deixou
clara Sua posição, dizendo: “qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está
nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” (Mateus 12.50). Ele não estava
destratando Sua mãe, mas explicando Sua missão.
Quando alguém quis dar destaque a Maria, pelo fato de ter
sido mãe de Jesus, dizendo ser “bem-aventurado o ventre que te trouxe e os
peitos em que mamaste”, ele reafirmou Sua missão e não deu realce algum a Sua
mãe (Lucas 12.37,38). Na última menção de Maria nas Escrituras, vamos
encontrá-la com os demais discípulos, em oração e súplicas, no Cenáculo,
buscando o poder que Jesus prometera a todos os salvos (Atos 1.13,14).
O problema em afirmar que Maria é a mãe de Deus está nas
consequências que isto traz. A partir desta afirmação, a Igreja Católica Romana
desenvolveu os dogmas da Concepção imaculada de Maria (afirmando que ela nasceu
sem pecados), da Virgindade Perpétua (afirmando que ela permaneceu virgem por
toda a vida e que aqueles que a Bíblia afirma serem irmãos de Jesus teriam
sido, na verdade, primos) e da Assunção de Maria aos céus (afirmando que ela
foi levada de corpo e alma para a glória celeste), fazendo de Maria diferente
de todos os seres humanos e com características divinas.
Maria é a mãe terrena de Jesus. Nós a honramos por isto e a chamamos
bem-aventurada, como afirma a Bíblia (Lucas 1.48), mas não a adoramos como “Mãe
de Deus”.
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