No ambiente evangélico, especialmente em nossas igrejas pentecostais, é comum ouvirmos alguém dizer com alegria: “Eu aceitei Jesus.” A frase carrega emoção, testemunho, memória de conversão. Ela marca um antes e um depois. Entretanto, quando nos aproximamos das Escrituras com atenção teológica, somos conduzidos a uma reflexão mais profunda: afinal, quem aceitou a quem? Fomos nós que aceitamos a Cristo ou foi Ele quem nos aceitou primeiro? Essa pergunta não é meramente retórica. Ela toca na essência da doutrina da salvação, na natureza da graça e na compreensão correta do papel humano diante da iniciativa divina. Entender essa dinâmica nos protege tanto do orgulho espiritual quanto da passividade irresponsável.
A narrativa bíblica revela que a salvação nunca começou no
coração humano. Começou no coração de Deus. Após a queda no Éden, não foi Adão
quem correu atrás de Deus; foi Deus quem veio ao encontro do homem com a
pergunta: “Onde estás?”. Desde o princípio, vemos um Deus que busca. Em João
15.16, Jesus declara: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi a
vós”. Essa afirmação não elimina a responsabilidade humana, mas estabelece a
ordem correta dos acontecimentos espirituais. Antes que qualquer pessoa
dissesse “sim” a Cristo, Cristo já havia dito “sim” à humanidade na cruz. O
apóstolo Paulo reforça essa verdade: “Mas Deus prova o seu amor para conosco em
que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos5.8). Observe o
tempo verbal: não foi após nossa decisão, não foi após nossa melhora moral. Foi
quando ainda éramos pecadores.
Do ponto de vista pentecostal, cremos firmemente na atuação sobrenatural
do Espírito Santo. Ninguém acorda espiritualmente por esforço próprio. O
Espírito convence do pecado, da justiça e do juízo. O desejo de arrependimento
nasce da ação graciosa de Deus no interior do homem. Até mesmo a capacidade de responder
é resultado da graça preveniente.
Se Deus toma a iniciativa, qual é então o papel do homem? A
Bíblia é clara: a resposta humana é indispensável. O Evangelho exige arrependimento
e fé. Não somos salvos automaticamente; somos chamados a crer. Em Atos 2, após a
pregação de Pedro no Dia de Pentecostes, o texto diz que os ouvintes ficaram
“compungidos em seu coração”. Perguntaram: “Que faremos?”. Pedro respondeu: “Arrependei-vos”.
Houve convicção espiritual (obra do Espírito) e houve decisão pessoal
(responsabilidade humana. Portanto, quando alguém afirma “Aceitei Jesus”, está
expressando essa resposta consciente ao chamado divino. Contudo, é essencial
compreender que essa aceitação não é o ponto de partida; é o ponto de chegada
de um processo iniciado no Céu. Não fomos nós que primeiro batemos à porta da eternidade;
foi Cristo quem bateu à porta do nosso coração.
A cruz é a maior prova de que fomos aceitos antes de
aceitarmos. Em Apocalipse 13.8, Jesus é descrito como o “Cordeiro que foi morto
desde a fundação do mundo”. Isso aponta para um plano eterno. A redenção não
foi improvisada; foi estabelecida antes da nossa existência. Quando Jesus
morreu, Ele carregou pecados que ainda nem tinham sido cometidos. Ele assumiu
culpas de pessoas que ainda nem tinham nascido. Isso significa que o amor de
Deus antecede nossa história pessoal. Do ponto de vista evangelístico, isso muda
tudo. O pecador não precisa convencer Deus a aceitá-lo. Deus já demonstrou Seu
amor. A reconciliação foi oferecida. A mesa foi preparada. O convite foi
enviado.
Se entendermos mal essa questão, corremos o risco de
desenvolver uma espiritualidade centrada no mérito humano. Podemos começar a
pensar que fomos mais sensíveis, mais espiritualmente inteligentes ou mais
dignos que outros. Essa mentalidade é perigosa. A salvação não é troféu de
competência espiritual. É resultado de graça imerecida. Quando compreendemos
que fomos aceitos antes de aceitar, somos tomados por humildade. Nossa conversão
deixa de ser conquista e passa a ser milagre. Isso também nos leva a olhar para
os que ainda não creram com compaixão, não com superioridade. Se estamos em Cristo,
é porque fomos alcançados pela misericórdia.
Mas, no contexto pentecostal, não cremos apenas em uma graça
que salva, mas em uma graça que transforma e capacita. O mesmo Espírito que
convence é o que regenera, santifica, batiza com poder e envia para a missão.
Nossa vida cristã não começa e nem se sustenta pela força da carne. Ela é sustentada
pelo poder do Espírito. O Evangelho não se reduz a uma decisão momentânea.
Aceitar Jesus é o início de uma jornada de rendição contínua.
Talvez a melhor maneira de responder à pergunta “Quem aceitou
a quem?” seja esta: nós aceitamos a Cristo pela fé, mas Ele nos aceitou
primeiro por graça.
Nossa decisão é real, necessária e transformadora. Contudo,
ela é resposta a uma iniciativa divina. É como um náufrago que segura a mão
estendida do salvador. Ele segura, mas foi o outro quem mergulhou primeiro.
Essa compreensão produz segurança espiritual. Se a salvação começou em Deus,
ela não depende apenas da fragilidade humana. Fomos alcançados por um amor
eterno. Essa perspectiva produz humildade. Não há espaço para orgulho
espiritual.
Se você ainda não respondeu ao chamado de Cristo, saiba que
o Céu já se moveu em sua direção. A cruz foi erguida por você. O Espírito está
convencendo você. O amor de Deus está sendo derramado sobre você agora. Você
não está tentando conquistar aceitação; você está sendo convidado a entrar
nela.
E se você já aceitou Jesus, viva com gratidão profunda.
Todos os dias, lembre-se: sua fé é resposta à graça. Sua salvação é fruto do amor
eterno. Seu testemunho não é sobre o quanto você foi capaz de escolher, mas
sobre o quanto Deus foi poderoso para salvar. No fim, a resposta é clara e
gloriosa: nós O recebemos pela fé, mas foi Ele quem nos amou, chamou e aceitou
primeiro. E essa verdade não diminui nossa decisão. Ela exalta a graça e
glorifica Jesus.
por Sérgio Pereira
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