Enquanto isso, profecias sobre os persas têm sido relembradas, como Jeremias 49.35-39, que alguns julgam ter cumprimento ainda hoje? Será?
Desde 28 de fevereiro, o mundo tem assistido ao ataque conjunto e coordenado dos Estados Unidos e Israel contra o governo teocrático do Irã. O codinome dado pelos EUA à sua operação contra o governo xiita persa é Operação Fúria Épica, enquanto o governo de Israel chama sua operação de Operação Leão Rugidor. Os ataques dos EUA e Israel têm tido como alvos, além de armas e instalações militares e do governo, as lideranças do regime iraniano, com mais de 50 líderes da mais alta patente mortos até o fechamento desta edição, dentre eles o até então líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, que já governava o Irã havia 37 anos. Em resposta, os militares iranianos lançaram mísseis balísticos e drones contra bases militares dos EUA no Oriente Médio e contra países parceiros dos norte-americanos na região, perfazendo um total de 15 países agredidos. A Guarda Revolucionária iraniana tem tentado também, desde o início do conflito, fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% de todo o petróleo consumido no mundo, mas seus navios têm sido afundados pelos norte-americanos, num total de mais de 30 navios até o fechamento desta edição, incluindo o maior navio de guerra do Irã. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, têm declarado que o objetivo final da operação é a mudança de regime no país e estabeleceu, em 6 de março, “rendição incondicional” como a única opção para os sobreviventes da liderança iraniana. Trump e Netanyahu ainda instaram os iranianos a procurarem refúgio durante o embate e, posteriormente, se rebelarem para assumir o controle do governo, descrevendo o atual momento como provavelmente sua “única chance por gerações”.
Igreja iraniana otimista em meio ao conflito
Uma reportagem da revista Christianity Today
publicada em seu site em 3 de março descreveu o sentimento da igreja iraniana
em meio ao conflito como otimista. Os ministérios cristãos iranianos da
diáspora têm se conectado com a igreja no Irã. Mansour Borji, diretor da
organização de defesa da liberdade religiosa iraniana Article 18, com sede em
Londres, recebeu algumas mensagens de cristãos no país devido ao bloqueio quase
total da internet, e a maioria das mensagens que chegaram até ele comemorava as
notícias dos ataques e a “expectativa do fim da tirania”, disse Borji. Outras
mensagens expressavam preocupação com os dias que viriam. “Alguns temem que os
Estados Unidos tentem chegar a um acordo e prolongar a vida de um ‘lobo
ferido’”, afirmou.
Enquanto isso, Hormoz Shariat, fundador do Ministério Iran
Alive (“Irã Vivo”), lutava para levar programação cristã ao país em meio à
guerra. As autoridades iranianas bloquearam canais de televisão via satélite e
restringiram o acesso à internet. Shariat informou Christianity Today
que seu ministério havia testemunhado recentemente um aumento no número de
iranianos que se converteram ao Cristianismo. “Eles não querem que as pessoas sejam
influenciadas, informadas e guiadas por influenciadores externos”, disse
Shariat, que disse à revista que temia que o bloqueio das comunicações isolasse
os iranianos em suas casas e impedindo-os de se unirem, já que não têm como se
conectar ou obter informações atualizadas. Enfatizou ele que “faz parte do plano
do governo alimentá-los com mentiras e controlá-los com medo, confusão e
isolamento”.
Cerca de 14 horas após o início da operação conjunta EUA-Israel,
Trump anunciou a morte de Khamenei, que tinha 86 anos e governava desde 1989.
Diante da notícia, muitos iranianos, tanto no país quanto no exterior, comemoraram.
Em Londres, judeus e iranianos da diáspora celebraram juntos. Dias depois de
Teerã ter massacrado dezenas de milhares de manifestantes em 8 e 9 de janeiro,
Trump publicou nas redes sociais que a ajuda estava a caminho. Durante semanas,
os iranianos acompanharam o aumento da presença militar dos EUA na região,
questionando-se se Trump atacaria o regime islâmico em Teerã ou não. Após as negociações
entre Washington e Teerã não terem resultado em um acordo, os Estados Unidos e
Israel lançaram seu ataque. O presidente dos EUA citou uma série de operações
terroristas cometidas pelo regime iraniano como justificativa, incluindo a crise
dos reféns americanos de 1979, o atentado a bomba contra o quartel dos
fuzileiros navais dos EUA em Beirute em 1983, ataques contra forças e embarcações
americanas no Oriente Médio, o programa de armas nucleares do Irã e o
financiamento de grupos terroristas aliados, incluindo o Hamas. Mais de mil norte-americanos
foram mortos pelo regime iraniano durante os 47 anos de regime dos aiatolás.
A matéria da Christianity Today ressalta que, após o
ataque, muitos iranianos ganharam uma nova esperança. “Aqueles que estão sendo
tratados secretamente em casa por ferimentos de bala sofridos durante os
protestos têm esperança de que seu sofrimento possa terminar em breve”, disse Borji.
Muitos manifestantes feridos tinham medo de procurar ajuda médica em hospitais.
Ressalta a reportagem que, “segundo diversos líderes de ministérios cristãos, iranianos
– incluindo entre eles muitos cristãos – têm defendido uma mudança de regime e pedido
um ataque direcionado ao governo islâmico. Os apelos pelo retorno do filho do
ex-xá, Reza Pahlavi, têm aumentado”.
A reportagem cita ainda o depoimento de Elisha Lazarus, um
judeu messiânico e reservista das Forças de Defesa de Israel, e lembra que um
míssil balístico iraniano ultrapassou o sistema de defesa de Israel durante o conflito,
atingindo uma sinagoga e um abrigo próximo, matando pelo menos nove pessoas. “É
tão fácil deixar o medo entrar e tomar conta de você, mas como soldado que crê
em Yeshua [Jesus], estou aqui e tenho paz, mesmo nesta incerteza”, disse
Lazarus, que serve na unidade de defesa Domo de Ferro de Israel. Lázaro tem uma
filha de 7 anos, e a esposa de seu comandante está grávida do quarto filho do
casal. Alguns dos soldados religiosos com quem ele serve têm até sete filhos.
“Acho que as esposas são as que mais sustentam este país”, disse Lázaro, que
elogiou os sistemas de defesa de Israel, mas disse que sua confiança final reside
em outro lugar. “Eu me apego ao Salmo 9 – ‘Deus é o meu refúgio e a minha
fortaleza’ – e me apoio nessa promessa, assim como tenho certeza que milhões
têm se apoiado nela por séculos”, disse ele.
Tymahz Toumadje, analista político da União Nacional para a
Democracia no Irã, disse à Christianity Today que “os cristãos iranianos
sofrem há muito tempo sob o regime da república islâmica”. Diz a matéria que
“um relatório de dezembro de sua organização afirmou que o Ministério da
Inteligência do Irã rotula os convertidos ao Cristianismo como ‘missionários
sionistas’ e alega ter prendido 53 convertidos após a guerra de junho, sob
falsas acusações de posse de armas. ‘Mesmo que a igreja clandestina do Irã seja
amplamente considerada um dos movimentos cristãos de crescimento mais rápido no
mundo, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a viver em segredo,
temendo perseguição enquanto oram pelo dia em que poderão viver sua fé
abertamente e livremente’, disse Toumadje. À medida que os ataques enfraquecem
o regime em Teerã, ele acredita que um Irã livre ‘abrirá caminho para um
florescimento muito maior do Cristianismo no país do que nos últimos anos’”.
Onda de busca por profecias bíblicas sobre o Irã
Desde que o conflito teve início, como não poderia deixar de
ser, vários leitores da Bíblia têm procurado passagens nas Escrituras contendo
profecias relacionadas ao Irã para saber se o que está acontecendo hoje ali tem
ligação com algum vaticínio bíblico. O texto mais lembrado, claro, é a profecia
de Jesus em Mateus 24.6, quando Ele fala dos sinais dos tempos, que apontariam
para a proximidade da Sua Segunda Vinda: “E ouvireis de guerras e de rumores de
guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas
ainda não é o fim”. Com certeza, o atual conflito se encaixa neste conjunto de
sinais da proximidade do Retorno de Cristo.
Outra passagem lembrada é a das profecias dos capítulos 38 e
39 do Livro de Ezequiel 38 e 39, que falam de um futuro mais à frente, quando
Rússia e Irã liderarão um bloco de países, notadamente nações que hoje são
islâmicas, os quais cercarão Israel no final dos tempos, momento no qual o povo
judeu estará isolado e Deus mesmo se encarregará de salvar o Seu povo da
destruição. Essa batalha, porém, ainda não aconteceu.
Por fim, um texto também lembrado é o de Jeremias 49.35-39,
que diz: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eis que eu quebrarei o arco de
Elão, o principal do seu poder. E trarei sobre Elão os quatro ventos dos quatro
cantos dos céus, e os espalharei na direção de todos estes ventos; e não haverá
nação aonde não cheguem os fugitivos de Elão. E farei que Elão tema diante de seus
inimigos e diante dos que procuram a sua morte; e farei vir sobre eles o mal, o
furor da minha ira, diz o Senhor; e enviarei após eles a espada, até que venha
a consumi-los. E porei o meu trono em Elão; e destruirei dali o rei e os
príncipes, diz o Senhor. Acontecerá, porém, nos últimos dias, que farei voltar
os cativos de Elão, diz o Senhor”. Alguns têm interpretado o que está
acontecendo hoje com o Irã como sendo cumprimento dessa profecia de Jeremias.
Mas, será isso mesmo?
Do que trata o texto de Jeremias 49.35-39?
Antes de tudo, é preciso responder à seguinte pergunta: se essa
profecia supracitada não se refere apenas a algo que já se cumpriu nos tempos
bíblicos, ou seja, se ela também tem alguma aplicação escatológica, alguma aplicação
ainda não cumprida, como ela teria relação com o Irã de hoje, se ela fala dos
elamitas, um povo que já desapareceu? Bem, se ela se cumpriu toda no passado,
então ela tinha relação realmente apenas com o antigo povo elamita. Porém, se
ela tem aplicação mais para frente, então tem a ver com o atual povo persa,
chamado de Irã, já que os iranianos – persas modernos – carregam uma herança
genética significativa dos antigos elamitas, que foram a primeira grande
civilização a habitar o território do atual Irã antes da chegada das tribos indo-arianas
(ou indo-europeias) aquemênidas.
Cerca de 65% da população do Irã é formada por persas, que trazem
também sangue elamita, com os demais habitantes sendo curdos e de outras etnias
que vivem ali. O atual Irã deixou de se chamar Pérsia em 1935. Na verdade,
“Pérsia” é um nome de origem grega (derivado de Parsa, uma região do sul do
país) e foi adotado pelo Ocidente para se referir à região, enquanto Irã é o
nome que os nativos utilizavam para se referir ao país há muitos séculos. O
termo Irã tem raízes muito antigas e significa “Terra dos Arianos” ou “Terra dos
Nobres”, conectando o país à sua história milenar e antiga herança cultural. O
antigo território do Elão correspondia mais precisamente ao sudoeste do atual
Irã. A capital histórica do Elão chamava-se Susã, que é uma das cidades mais
antigas do mundo e está localizada em solo iraniano, tendo sido a capital do Império
da Pérsia. Vamos, então, à interpretação dessa profecia. Como reconhecem os
exegetas bíblicos, o vaticínio de Jeremias 49.35-39 sobre o Elão tem um
cumprimento em duas etapas, claras no próprio texto da profecia: uma etapa de destruição
e outra de restauração. A expressão “quebrarei o arco de Elão” de Jeremias
49.35 refere-se, obviamente, ao poder militar elamita sendo destruído. O arco
simbolizava a principal força militar elamita. A expressão “destruirei o rei e
os príncipes” alude ao fim da linhagem real original do povo elamita. O julgamento
descrito nos versículos 35 a 38 teve sua concretização com a conquista
babilônica da região por volta dos anos 596 a 592 a.C., quando Nabucodonosor atacou
e enfraqueceu o Elão logo após o início do reinado do rei Zedequias em Judá.
Mais à frente, o Elão foi absorvido pelo Império Persa sob Ciro, o Grande.
Alguns veem Ciro como também fazendo parte desse processo de
destruição dos elamitas, já que embora ele tenha estabelecido sua capital em
Susã, no Elão, a nação deixou de existir como entidade política independente. Entretanto,
a profecia fala que o povo foi espalhado como cativo - o que ocortreu sob os
babilônicos - e, em seguida, voltaria para a sua terra (“Acontecerá, porém, nos
últimos dias, que farei voltar os cativos de Elão, diz o Senhor”), o que
ocorreu sob Ciro. Logo, Ciro não faria parte do processo de destruição dos elamitas,
mas só os babilônicos. Ele faria parte do início do processo de restauração,
pois quando os persas, liderados por Ciro, estabeleceram seu império no século VI
a.C., eles não substituíram a população local, mas a integraram, e os elamitas
que haviam sido espalhados e levados cativos puderam retornar à sua terra. Susã,
a capital mais importante dos elamitas, tornou-se uma das principais sedes
administrativas do Império Persa; e os elamitas ainda exerceram forte
influência na administração persa, já que a língua elamita era uma das três
línguas oficiais utilizadas em inscrições reais, ao lado do persa antigo e do
babilônico, o que demonstra a coexistência e a fusão entre essas elites e populações.
Os elamitas foram assimilados e se encontram hoje no sangue dos
persas. Os persas aquemênidas absorveram profundamente não só a genética, mas
também a cultura dos elamitas, de maneira que hoje são um só povo. Poranto,
essa profecia do retorno do povo elamita à sua terra já se cumpriu nos tempos
bíblicos, após a ascensão do Império Persa.
Já para os que não veem dessa forma, esse trecho final da profecia
é espiritualizado, como que dizendo que ele trata não de uma restauração
física, mas de uma restauração espiritual que se daria gradualmente, e que
teria, segundo essa visão, começado no Pentecostes, já que Atos 2.9 menciona os
elamitas em Jerusalém no Dia de Pentecostes ouvindo o Evangelho e tornando-se
parte do Reino de Deus estabelecido espiritualmente. Nessa interpretação, que
leva em consideração também essa mistura de elamitas e persas formando um só
povo, o atual crescimento vertiginoso do Cristianismo no Irã, esse atual crescimento
rápido da igreja cristã iraniana clandestina, seria uma continuação do
cumprimento dessa restauração, que seria, frisam, apenas espiritual. Por fim, há
também aqueles que fazem outra leitura dessa passagem, igualmente em viés
escatológico, porém mais especulativa, vendo nessa profecia um duplo cumprimento
histórico: primeiro, nos dias dos impérios babilônico e persa; e segundo, em
nossos dias. Eles interpretam o “quebrar o arco de Elão” e o “destruirei o rei
e os príncipes” como sendo também uma alusão ao atual processo de neutralização
do poderio militar e do programa nuclear do Irã, que está acontecendo agora, e
à derrubada do atual regime iraniano. Se esse texto também se refere a isso, não
podemos afirmar. Trata-se de uma interpretação que é, como dissemos, mais
especulativa. O mais seguro é considerar apenas o seu cumprimento já dado nos tempos
bíblicos, embora saibamos que muitas profecias bíblicas têm duplo cumprimento
na história.
A profecia sobre a “abominação da desolação” em Daniel 11.31
teve um primeiro cumprimento quando Antíoco Epifânio profanou o templo de
Jerusalém em 167 a.C., mas Jesus indicou um cumprimento futuro relacionado ao
Anticristo no fim dos tempos (Mateus 24.15). Oseias 11.1 refere-se inicialmente
à nação de Israel saindo do Egito (“Do Egito chamei o meu filho”), mas é
aplicado em Mateus 2.15 como referindo-se também a Jesus, quando Ele retornou
com seus pais do Egito após a morte de Herodes. Então, não é impossível que a
profecia de Jeremias 49.35-39 tenha um duplo cumprimento. Somente não se pode afirmar
com certeza ser ele um caso de duplo cumprimento. O mais prudente é considerar
o seu cumprimento imediato no sexto século a.C. Além disso, o nosso foco deve
estar em continuar em oração para que vidas inocentes sejam preservadas e para
que esse conflito se encerre rapidamente e em bons termos.
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